Contos Eróticos

A Livraria Antiga: Encontro Entre Páginas

P Paula Camargo
28 Dec 2025 5 min leitura 43 visualizacoes
A Livraria Antiga: Encontro Entre Páginas

A livraria ficava numa travessa estreita perto da Rua das Flores, no Porto. Não tinha website nem redes sociais — apenas uma porta de madeira com um letreiro pintado à mão que dizia "Livraria Atlântida - Livros Usados e Raros". Alice empurrou a porta e o sino de latão anunciou a sua entrada.

O interior era um labirinto de estantes que chegavam ao tecto, com escadas rolantes de biblioteca e o cheiro inebriante de papel antigo. Havia pilhas de livros no chão, em cima de cadeiras, em cada superfície disponível. Era o caos organizado de alguém que amava livros demais para se desfazer de algum.

Alice procurava uma primeira edição de Aparição, de Vergílio Ferreira, quando ouviu uma voz vinda do outro lado da estante:

— Se procuras o Vergílio, está na terceira prateleira, atrás do Pessoa. Alguém colocou os existencialistas atrás dos modernistas e nunca mais ninguém corrigiu.

Alice espreitou por entre os livros e viu um rosto. Olhos cor de chocolate, óculos redondos, um sorriso que sugeria que sabia mais do que dizia. Contornou a estante e encontrou-o sentado no chão, rodeado de livros abertos, com um lápis atrás da orelha.

— Trabalhas aqui? — perguntou ela.

— Sou o dono. Herdei isto do meu avô. Chamo-me Martim.

— Alice. E como sabias o que eu procurava?

— Estiveste a olhar para a secção de literatura portuguesa com a expressão concentrada de quem procura algo específico, não de quem passeia. E passaste os dedos pelo Régio e pelo Torga sem parar, o que significava que querias alguém daquela geração mas não esses. Restava o Vergílio.

Alice ficou impressionada. E ligeiramente perturbada pela atenção que ele prestava.

Martim encontrou o livro — uma edição de 1959, em bom estado — e entregou-lho com o cuidado de quem entrega um recém-nascido. Quando os dedos se tocaram na lombada, Alice sentiu uma corrente que nenhum livro conseguia gerar.

— Posso oferecer-te um chá? — perguntou ele. — Tenho um bule lá atrás e uma colecção de Earl Grey que o meu avô começou.

O "lá atrás" era um espaço minúsculo com uma mesa, duas cadeiras, e mais livros. Beberam chá e falaram de literatura durante horas — de Saramago e de Clarice Lispector, de Borges e de Calvino, de como certos livros mudam a forma como vemos o mundo. Martim falava com paixão e Alice ouvia com uma atenção que ele não estava habituado a receber.

— Há um livro — disse ele, levantando-se — que te quero mostrar. Está no andar de cima.

O andar de cima era um mezanino acessível por uma escada de caracol. Tinha mais estantes, um sofá gasto e uma claraboia que deixava entrar a luz dourada do fim da tarde. Martim puxou um volume fino de uma prateleira e abriu-o para ela.

Era poesia erótica portuguesa do século XVIII — versos ousados escondidos em caligrafia elegante, ilustrados com gravuras sugestivas. Alice leu uma estrofe em voz alta e sentiu o rubor subir-lhe pelas bochechas.

— É bonito, não é? — disse ele, de pé atrás dela, olhando por cima do ombro. — A forma como transformavam o desejo em arte.

— É — concordou ela, virando-se. Estava tão perto que sentiu o cheiro dele — papel, Earl Grey, e algo quente e masculino debaixo de tudo.

Beijaram-se entre as estantes, com o livro de poesia erótica aberto a seus pés como testemunha. Martim beijava como lia — devagar, saboreando cada palavra, voltando atrás para reler passagens favoritas. As mãos dele encontraram a cintura dela sob o casaco, e Alice sentiu os dedos de livreiro — habituados a virar páginas com delicadeza — percorrerem-lhe a pele com a mesma reverência.

O sofá do mezanino revelou-se surpreendentemente confortável. Despiram-se com a luz da claraboia a banhá-los em ouro, rodeados de livros que pareciam observar com aprovação ancestral. Martim conhecia o corpo dela como quem lê um livro novo — com curiosidade, com atenção, marcando as passagens que mereciam ser revisitadas.

Alice agarrou-se às estantes quando o prazer se tornou demasiado intenso, e dois ou três livros caíram no chão. Nenhum dos dois se importou. Amaram-se entre Camões e Pessoa, entre Eça e Sophia, e os gemidos de Alice misturaram-se com o silêncio sagrado da livraria.

Depois, deitados no sofá, ele leu-lhe poesia em voz baixa enquanto ela traçava letras invisíveis no peito dele com a ponta do dedo.

— Que livro é esse que estás a escrever na minha pele? — perguntou ele.

— Um que ninguém vai ler — respondeu ela. — Excepto tu.

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