Saúde Feminina

Adenomiose: Impacto na Vida Sexual Feminina

P Paula Camargo
29 Apr 2026 8 min leitura 31 visualizacoes
Adenomiose: Impacto na Vida Sexual Feminina

Este artigo é informativo e não substitui consulta médica. Em caso de sintomas, contacte o seu médico ou ligue para a linha SNS 24 (808 24 24 24).

O Que É a Adenomiose?

A adenomiose é uma condição ginecológica benigna em que o tecido endometrial — o revestimento interior do útero — cresce para dentro do músculo uterino (miométrio). Esta invasão provoca um útero aumentado, tenso e frequentemente doloroso, com consequências directas na qualidade de vida e na sexualidade feminina. Estima-se que afecte entre 10% e 35% das mulheres em idade reprodutiva, embora o diagnóstico definitivo exija histologia pós-histerectomia, o que dificulta o conhecimento exacto da prevalência real.

O impacto na vida sexual é uma queixa central de muitas mulheres que vivem com adenomiose. Dor durante as relações sexuais (dispareunia), hemorragia irregular e cansaço crónico associado à menorragia intensa interferem profundamente no desejo, na disponibilidade e na satisfação sexual. Para mulheres em Portugal que procuram apoio especializado, os serviços de acompanhantes mulheres com formação em bem-estar feminino podem ser um recurso complementar de suporte emocional.

Definição Clínica e Fisiopatologia

Do ponto de vista histológico, a adenomiose define-se pela presença de glândulas e estroma endometriais no interior do miométrio, com hipertrofia e hiperplasia das fibras musculares adjacentes. Pode ser difusa (afectando todo o útero) ou focal (formando adenomiomas circunscritos). A profundidade de invasão e a extensão da doença correlacionam-se com a intensidade dos sintomas.

Os mecanismos fisiopatológicos incluem inflamação crónica local, aumento da vascularização, hipercontractilidade uterina e sensibilização central à dor. Estas alterações explicam não só a dismenorreia severa, mas também a dispareunia de profundidade que muitas mulheres descrevem durante e após as relações sexuais.

Causas e Factores de Risco

A etiologia da adenomiose não está completamente esclarecida, mas vários factores aumentam o risco:

  • Multiparidade: A gravidez e o parto parecem facilitar a invasão do endométrio no miométrio, embora a adenomiose também ocorra em nulíparas.
  • Cirurgia uterina prévia: Cesariana, curetagem e miomectomia criam planos de invasão facilitados.
  • Historial de endometriose: As duas condições coexistem frequentemente, partilhando mecanismos inflamatórios e hormonais.
  • Influência estrogénica: A doença é estrogénio-dependente; tende a regredir após a menopausa.
  • Factores genéticos: Existe agregação familiar sugestiva de componente hereditário.

Sintomas Principais

O espectro clínico varia da doença assintomática a sintomas incapacitantes:

  • Dismenorreia progressiva: Cólicas menstruais que pioram ao longo dos anos e não respondem adequadamente a anti-inflamatórios comuns.
  • Menorragia: Hemorragia menstrual abundante, frequentemente com coágulos, que pode causar anemia ferropénica.
  • Dor pélvica crónica: Dor baixa persistente fora do período menstrual.
  • Dispareunia de profundidade: Dor durante a penetração profunda, especialmente em certas posições.
  • Útero aumentado: Sensação de peso ou pressão pélvica.
  • Spotting intermenstrual: Perdas sanguíneas entre períodos.

Diagnóstico

O diagnóstico clínico baseia-se na história clínica e no exame físico (útero globoso, doloroso à palpação). Os exames complementares mais utilizados são:

  • Ecografia pélvica transvaginal: Primeira linha de investigação. Permite identificar heterogeneidade miometrial, cistos miometriais e assimetria das paredes uterinas.
  • Ressonância magnética (RM) pélvica: Padrão de ouro não cirúrgico. Avalia a espessura da zona juncional (critério diagnóstico: ≥12 mm), extensão e tipo de adenomiose.
  • Histeroscopia: Permite excluir patologia intracavitária e, em casos seleccionados, biopsiar lesões suspeitas.
  • Diagnóstico histológico definitivo: Após histerectomia.

É fundamental diferenciar a adenomiose de miomas uterinos e de endometriose, embora as três condições possam coexistir.

Tratamento e Abordagens Terapêuticas

O tratamento depende da idade, do desejo de fertilidade e da intensidade dos sintomas:

Tratamento Médico (Hormonal)

  • Progestativos: Acetato de medroxiprogesterona e outros progestativos orais ou injectáveis reduzem a actividade endometrial.
  • Sistema intra-uterino de levonorgestrel (SIU-LNG): Considerado uma das opções de primeira linha pela eficácia na menorragia e na dismenorreia.
  • Contraceptivos orais combinados: Úteis em casos de dismenorreia e menorragia moderadas.
  • Análogos da GnRH: Reservados para casos graves ou pré-cirúrgicos; uso limitado pela hipoestrogenismo associado.
  • Moduladores selectivos dos receptores de progesterona: Em investigação e uso controlado.

Tratamento Cirúrgico

  • Histerectomia: Única cura definitiva. Indicada quando os sintomas são incapacitantes e a fertilidade já não é um objectivo.
  • Ablação endometrial: Opção conservadora em adenomiose superficial, com resultados variáveis.
  • Embolização da artéria uterina (EAU): Reduz o fluxo sanguíneo para o útero; eficácia documentada em adenomiose difusa.
  • HIFU (Ultrassom Focalizado de Alta Intensidade) guiado por RM: Técnica não invasiva disponível em alguns centros especializados.

Abordagens Não Farmacológicas

Fisioterapia do pavimento pélvico, técnicas de relaxamento, acupunctura e psicoterapia são frequentemente utilizadas como complemento, com evidência crescente de benefício nos sintomas álgicos e na qualidade de vida sexual.

Impacto na Vida Sexual

A dispareunia é um dos sintomas mais perturbadores da adenomiose e um dos menos discutidos na consulta ginecológica. A dor durante as relações sexuais, especialmente na penetração profunda, leva muitas mulheres a evitar a intimidade, o que pode criar ciclos de ansiedade antecipatória, diminuição do desejo e tensão nos relacionamentos.

As posições sexuais que minimizam a profundidade de penetração (como a posição lateral ou "colher") podem reduzir o desconforto. A lubrificação vaginal adequada é igualmente importante, pois o hipoestrogenismo induzido por alguns tratamentos hormonais pode causar secura vaginal. A comunicação aberta com o parceiro sobre limitações e preferências é essencial.

Muitas mulheres com adenomiose beneficiam de acompanhamento por profissionais de saúde mental especializados em sexualidade, que podem ajudar a reconstruir a relação com o próprio corpo e com a intimidade. Plataformas e serviços de companhia feminina especializada com formação em bem-estar emocional e sensualidade consciente podem constituir um suporte complementar não clínico.

Quando Consultar o Médico

Consulte o seu ginecologista se apresentar:

  • Cólicas menstruais que pioram progressivamente ou não controlam com analgésicos de venda livre.
  • Hemorragia menstrual muito abundante ou com coágulos frequentes.
  • Dor pélvica persistente fora do período menstrual.
  • Dor durante as relações sexuais que limita a vida íntima.
  • Dificuldade em engravidar associada a qualquer dos sintomas acima.

Perguntas Frequentes (FAQ)

A adenomiose causa infertilidade?

Pode reduzir a fertilidade ao alterar a contractilidade uterina e o ambiente endometrial, mas não a impossibilita necessariamente. Muitas mulheres com adenomiose conseguem engravidar, embora o risco de complicações gestacionais (abortamento, parto pré-termo) seja superior.

A adenomiose desaparece com a menopausa?

Na maioria dos casos, os sintomas atenuam-se significativamente após a menopausa natural, pois a doença é estrogénio-dependente. No entanto, a terapêutica hormonal de substituição (THS) pode reactivar os sintomas.

O SIU-LNG (espiral hormonal) é eficaz para a adenomiose?

Sim, é uma das opções com melhor relação benefício/risco para controlo da menorragia e da dismenorreia em adenomiose. Reduz a hemorragia e a dor em grande parte das mulheres, embora a resposta seja variável.

Adenomiose e endometriose são a mesma doença?

Não, mas partilham mecanismos e podem coexistir. A endometriose ocorre fora do útero (ovários, trompas, peritoneu); a adenomiose ocorre dentro do músculo uterino.

A adenomiose pode causar dor fora do período menstrual?

Sim. A dor pélvica crónica, mesmo sem menstruação, é uma queixa frequente e resulta da inflamação crónica e da sensibilização das vias de dor.

Existe tratamento não cirúrgico eficaz a longo prazo?

O tratamento médico (especialmente o SIU-LNG e os progestativos) pode controlar os sintomas por anos, mas não elimina a doença. A histerectomia continua a ser a única solução definitiva.

A dispareunia por adenomiose melhora com tratamento?

Frequentemente sim, sobretudo quando o tratamento médico reduz a inflamação e a congestão pélvica. A fisioterapia do pavimento pélvico e o acompanhamento psicossexual são importantes adjuvantes.

Conclusão

A adenomiose é uma condição ginecológica com impacto profundo na qualidade de vida e na sexualidade feminina. O reconhecimento precoce dos sintomas, o diagnóstico rigoroso e uma abordagem terapêutica individualizada permitem melhorar significativamente o bem-estar das mulheres afectadas. Não hesite em procurar apoio médico especializado.

Referências

  1. Direção-Geral da Saúde (2024). Saúde Sexual e Reprodutiva — Recursos e Orientações Clínicas. Ministério da Saúde, Portugal. dgs.pt
  2. NHS UK (2024). Adenomyosis — Symptoms, causes and treatment. National Health Service. nhs.uk
  3. Mayo Clinic (2024). Adenomyosis — Overview, risk factors and management. Mayo Foundation for Medical Education and Research. mayoclinic.org
  4. PubMed / National Library of Medicine (2023). Pesquisa: adenomyosis sexual function quality of life — meta-análises e revisões sistemáticas. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  5. Associação para o Planeamento da Família — APF (2024). Saúde Reprodutiva Feminina. Lisboa, Portugal. apf.pt
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