Educação Sexual

Assexualidade vs Baixo Desejo: Diferenças Clínicas

P Paula Camargo
09 May 2026 8 min leitura 10 visualizacoes
Assexualidade vs Baixo Desejo: Diferenças Clínicas

Uma das questões mais frequentes e clinicamente relevantes no campo da saúde sexual é a distinção entre assexualidade e disfunção sexual hipoativa — o chamado "baixo desejo". São dois fenómenos completamente diferentes, com causas distintas, implicações distintas e, crucialmente, respostas adequadas distintas. Confundi-los tem consequências reais: pode levar a que pessoas assexuais sejam medicadas ou tratadas para uma "condição" que não têm, ou que pessoas com disfunção sexual não recebam o apoio clínico que precisam.

Este artigo explora as diferenças clínicas entre as duas realidades, os critérios diagnósticos actualizados e a forma como os sistemas de saúde — incluindo o português — podem responder de forma adequada a ambas.

Definições de Base

Assexualidade: uma Orientação Sexual

Como explorado no nosso guia completo sobre assexualidade, a assexualidade é uma orientação sexual caracterizada pela ausência de atração sexual por outras pessoas. É uma característica estável da forma como a pessoa experiencia (ou não experiencia) atração — não é uma perda, não é um défice e não causa sofrimento intrínseco.

A assexualidade não é o mesmo que ausência de libido: uma pessoa assexual pode ter impulso sexual (que satisfaz individualmente) sem sentir atração por outras pessoas. A distinção entre libido e atração sexual é fundamental para esta discussão.

Baixo Desejo Sexual Hipoativo (BDSH): uma Disfunção Sexual

O baixo desejo sexual hipoativo (em inglês, Hypoactive Sexual Desire Disorder — HSDD) é uma disfunção sexual reconhecida clinicamente, caracterizada pela ausência ou redução persistente de fantasias sexuais e desejo de actividade sexual, que causa sofrimento clinicamente significativo à pessoa.

Há três elementos fundamentais nesta definição:

  1. Ausência ou redução de desejo: comparativamente ao que era habitual para a pessoa ou ao esperado para a sua situação.
  2. Persistência: não é um episódio pontual mas um padrão estável.
  3. Sofrimento: a pessoa sente sofrimento por causa da situação — perturbação, angústia, impacto na relação que é vivido como problemático.

A Distinção Crítica: Sofrimento e Ego-Distonia

A diferença mais clinicamente relevante entre assexualidade e BDSH é o sofrimento e a ego-distonia.

Uma pessoa assexual, quando bem informada sobre a sua identidade, não sente sofrimento por não sentir atração sexual — a ausência de atração é congruente com quem é (ego-sintónica). O sofrimento que pessoas assexuais frequentemente reportam não vem da assexualidade em si, mas da reação social à assexualidade: pressão para ter sexo, invalidação da identidade, relações incompatíveis.

Uma pessoa com BDSH, por contraste, sente sofrimento por causa da mudança no seu desejo. Havia um padrão anterior de desejo sexual que desapareceu ou diminuiu significativamente, e essa mudança é vivida como uma perda, uma disfunção, algo incongruente com quem a pessoa é (ego-distónica).

O ICD-11 e o Reconhecimento da Distinção

A Classificação Internacional de Doenças na sua 11.ª revisão (ICD-11), publicada pela Organização Mundial de Saúde e em vigor desde 2022, introduziu uma mudança significativa: o BDSH deixou de se aplicar a pessoas que se identificam como assexuais.

O ICD-11 especifica explicitamente que o diagnóstico de disfunção sexual de desejo não se aplica quando a ausência de desejo é consistente com a identidade assexual da pessoa e não é vivida como um problema. Esta é uma mudança fundamental — reconhece formalmente que assexualidade é uma variante normal da sexualidade humana, não uma disfunção a tratar.

A investigação de referência que sustenta esta distinção inclui trabalhos de Anthony Bogaert (que estimou a prevalência de assexualidade em cerca de 1% da população no estudo publicado no Journal of Sex Research em 2004) e de Lori Brotto, que desenvolveu instrumentos de avaliação que distinguem assexualidade de BDSH com base em sofrimento e história de atração.

Causas do Baixo Desejo: O Que Pode Estar por Trás

Ao contrário da assexualidade — que é uma orientação sem causa patológica — o BDSH tem causas identificáveis que merecem investigação clínica:

  • Causas hormonais: baixos níveis de testosterona (em todos os géneros), problemas da tiroide, menopausa, andropausa.
  • Causas psicológicas: depressão, ansiedade, burnout, stress crónico, história de trauma sexual.
  • Causas relacionais: conflito não resolvido no casal, perda de intimidade emocional, rotina que eliminou o desejo.
  • Causas medicamentosas: antidepressivos (especialmente SSRIs), antipsicóticos, contraceptivos hormonais podem reduzir o desejo sexual.
  • Causas físicas: dor crónica, doenças crónicas, fadiga.

Como Distinguir Clinicamente: Questões-Chave

Para um profissional de saúde (ou para uma pessoa a reflectir sobre a sua experiência), algumas questões orientadoras ajudam a distinguir assexualidade de BDSH:

  • Houve alguma vez atração sexual por outras pessoas? Se nunca houve, a hipótese de assexualidade é mais forte.
  • A ausência de atração causa sofrimento? Se não causa sofrimento intrínseco (apenas o sofrimento da pressão social), aponta para assexualidade.
  • Houve uma mudança? O desejo diminuiu em relação a como era antes? Uma mudança abrupta ou gradual aponta para BDSH.
  • Há outros factores presentes? Depressão, medicação, stress? Estes podem estar na origem de BDSH.

Saúde Sexual em Portugal: Onde Obter Apoio

Para quem quer explorar estas questões com apoio profissional, a APF (Associação para o Planeamento da Família) tem clínicas de saúde sexual e consultas de sexologia em várias cidades de Portugal. Os profissionais da APF estão familiarizados com a distinção entre assexualidade e disfunção sexual e podem oferecer um contexto não-patologizante para explorar estas questões.

Para quem procura conexões afetivas que respeitem a diversidade de orientações e experiências sexuais, o EncontrosX em Lisboa é um espaço inclusivo que acolhe a diversidade do espectro assexual.

Perguntas Frequentes

O médico pode confundir assexualidade com BDSH?

Pode, especialmente se não estiver familiarizado com a distinção. O ICD-11 clarifica que assexualidade não deve ser diagnosticada como disfunção. Se sentir que a sua identidade está a ser patologizada, tem o direito de pedir uma segunda opinião.

Uma pessoa assexual pode ter BDSH?

Tecnicamente, sim — uma pessoa assexual pode desenvolver uma disfunção que afecte a libido ou outras dimensões da sexualidade. Mas o BDSH diagnosticável requer sofrimento relacionado com a mudança, o que é diferente da assexualidade estável.

Antidepressivos podem causar assexualidade?

Não causam assexualidade (uma orientação), mas podem reduzir o desejo sexual ou a libido. Se a redução é vivida como sofrimento e representa uma mudança do padrão anterior, pode ser BDSH iatrogénico (causado pela medicação). Falar com o médico sobre alternativas terapêuticas é o passo adequado.

A assexualidade tem cura?

Não é uma doença e não tem cura, nem precisa. Tentativas de "curar" a assexualidade através de terapia de conversão são prejudiciais e contraindicadas por organizações de saúde internacionais.

Onde posso saber mais sobre BDSH em Portugal?

A APF tem recursos sobre saúde sexual e sexólogos/as que podem ajudar a explorar questões de desejo de forma não-patologizante. O SNS tem consultas de sexologia em alguns hospitais.

O ICD-11 está em uso em Portugal?

Portugal adoptou o ICD-11 progressivamente. O reconhecimento da assexualidade como não-disfunção já está reflectido em directrizes clínicas actualizadas.

Conclusão

A distinção entre assexualidade e baixo desejo sexual hipoativo é clinicamente importante e eticamente necessária. Tratar uma orientação como uma disfunção causa dano — e ignorar uma disfunção tratável também. O ICD-11 reconhece formalmente esta diferença, mas a sua aplicação correcta depende de profissionais informados e de pessoas que conhecem os seus direitos.

Para mais informação sobre assexualidade como orientação, consulte o nosso guia completo sobre o espectro aspec. Para apoio clínico em Portugal, a comunidade inclusiva do EncontrosX pode ser um ponto de partida para conexões que respeitam toda a diversidade de orientações.

Referências

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