Entrevista: Gestora de uma Casa de Swing em Portugal
As casas de swing existem em Portugal há décadas, mas continuam a operar na discreta penumbra entre a legalidade e o tabu social. Para perceber o que se passa realmente por detrás das portas fechadas, falámos com Maria S., 44 anos, gestora de um clube de swing na zona da Grande Lisboa há mais de doze anos. Maria pediu que não divulgássemos o nome nem a localização exacta do espaço; o resto, contou com uma franqueza surpreendente.
Os nomes foram alterados e alguns detalhes biográficos ajustados para proteger a privacidade da entrevistada.
A Entrada no Mundo Swing
Como é que chegaste a gerir uma casa de swing? Não é o percurso profissional mais comum.
Não, de todo. Comecei como cliente. O meu ex-marido e eu frequentávamos um clube em Lisboa há uns quinze anos, e quando esse clube fechou por problemas com o senhorio, havia um grupo de casais habituais que ficou sem espaço. Um deles conhecia um imóvel disponível, outro tinha algum capital para investir, e eu tinha experiência em gestão de eventos — tinha trabalhado anos em hotelaria. Juntámos os pontos e decidimos criar algo melhor do que aquilo que existia. Comecei como co-gestora e, ao fim de três anos, fiquei com a gestão principal.
O que te surpreendeu mais quando passaste para o lado da gestão?
A quantidade de trabalho operacional que ninguém vê. As pessoas pensam que gerir um clube de swing é glamoroso ou, pelo menos, divertido a tempo inteiro. A realidade é que passas grande parte do tempo a tratar de fornecedores, a gerir stocks de consumíveis, a resolver conflitos entre membros, a fazer controlo de qualidade da limpeza — que tem de ser impecável, é inegociável — e a lidar com questões de renovação de licenças. A parte social é a menor fatia do trabalho.
O Perfil dos Clientes
Que tipo de pessoas frequenta um clube de swing em Portugal?
A esmagadora maioria são casais heterossexuais entre os 30 e os 55 anos, com formação académica e rendimentos acima da média. Médicos, advogados, professores universitários, empresários, quadros técnicos. Isso não é um julgamento de valor — é simplesmente o perfil que resulta do nosso modelo de preços e do nível de discrição que oferecemos. Temos também um grupo significativo de casais bissexuais, sobretudo mulheres bissexuais com parceiros heterossexuais, e um número menor de solteiros — que têm regras de entrada mais exigentes para garantir equilíbrio de género no espaço.
Nota diferenças geracionais? A geração mais jovem tem uma atitude diferente face ao swing?
Há diferenças, sim. Os casais mais jovens, digamos entre 28 e 38 anos, chegam geralmente mais informados — leram sobre o assunto, têm conversas mais abertas entre si sobre limites e expectativas, e estão menos sujeitos a scripts rígidos do tipo "a mulher é a fantasia do homem". Muitos chegam como projecto conjunto genuíno. A geração mais velha, que entrou neste meio nos anos noventa ou dois mil, trouxe frequentemente dinâmicas diferentes — às vezes há uma assimetria na motivação que eu consigo detectar ao fim de cinco minutos de conversa. Não é necessariamente um problema, mas é algo que acompanho.
As Regras da Casa
Quais são as regras fundamentais do clube?
As regras são poucas mas absolutas. Primeira: o não é sempre não, e não precisa de explicação. Qualquer pessoa pode recusar qualquer interacção com qualquer outra pessoa sem justificar. Segunda: preservativo obrigatório em todos os actos penetrativos, sem excepção e sem negociação. Terceira: proibição total de fotografias ou gravações dentro do espaço — levamos isto muito a sério e temos câmeras nas zonas comuns para garantir o cumprimento. Quarta: álcool moderado — não servimos shots, não há open bar ilimitado, e quem chegar visivelmente embriagado não entra. Quinta: a higiene pessoal é obrigatória — temos chuveiros e pedimos que sejam usados antes de entrar nas áreas privativas.
Já tiveste de expulsar alguém? Como se gere isso?
Já. Ao longo de doze anos, aconteceu umas quinze vezes em situações sérias. A maioria dos casos envolveu desrespeito pelo "não" — alguém que insistiu depois de uma recusa, ou que tocou em alguém sem convite claro. Nestes casos, a expulsão é imediata e permanente, sem reembolso e sem discussão. Temos também uma lista negra que partilhamos informalmente com outros gestores da cena. A comunidade é pequena — as más notícias circulam depressa. Isso é, aliás, um dos melhores mecanismos de auto-regulação que existe.
Desafios Legais e Operacionais
Como é a situação legal de um clube de swing em Portugal? Operam numa zona cinzenta?
É uma questão que me fazem muito. A resposta honesta é: depende de como o espaço está constituído. Em Portugal não existe legislação específica que proíba clubes de swing entre adultos que pagam uma quota de associação — não se trata de trabalho sexual. O problema está nos enquadramentos colaterais: licenças de estabelecimento, classificação ASAE, regulamentos municipais sobre espaços de diversão. Nós funcionamos como associação privada de acesso restrito a membros, o que nos dá uma protecção legal considerável. Ainda assim, há uma incerteza permanente, e por isso temos sempre um advogado de confiança a par da nossa actividade. Conheço gestores que foram surpreendidos por fiscalizações e fecharam. Nós temos tudo em ordem, mas o stress nunca desaparece completamente.
A pandemia afectou muito o negócio?
Foi um golpe duríssimo. Fechámos durante quase dezoito meses. Sem rendimento, com rendas e seguros a pagar. Perdemos cerca de um terço dos membros históricos — alguns casais separaram-se, outros mudaram de cidade, outros simplesmente perderam o hábito. Quando reabrimos, foi quase como começar do zero em termos de construção de comunidade. O que me surpreendeu positivamente foi que a geração mais jovem chegou em força durante 2022 e 2023 — acho que dois anos de restrições sociais criaram uma apetência por experiências mais intensas e abertas.
A Cena Swinger em Portugal
Como caracterizas a evolução da cena swinger em Portugal na última década?
Houve uma profissionalização clara. Quando comecei, a maioria dos espaços era improvisado — salas de estar de casas particulares, festas de apartamento com cinquenta pessoas em quarenta metros quadrados. Hoje existem espaços com investimento real: decoração cuidada, áreas temáticas, sistemas de climatização adequados, sanitários em número suficiente. Os eventos também evoluíram — há festas temáticas, noites de idade restrita, eventos para casais novatos com um ambiente mais suave. Para além disso, o aparecimento de plataformas online como o EncontrosX com o seu guia de swing em Portugal ajudou muito a que as pessoas se informassem e chegassem aos espaços físicos já com noção do que esperar, o que melhora a experiência de toda a gente.
Portugal compara-se bem com outros países europeus neste aspecto?
Estamos a ganhar terreno. A Alemanha, a Holanda e a República Checa têm uma tradição muito mais estabelecida e uma aceitação social maior. Em França há uma cultura swing muito activa, especialmente em Paris e na Côte d'Azur. Em Portugal ainda somos um país católico com uma camada de culpa a revestir muitas conversas sobre sexo. Mas nas grandes cidades — Lisboa, Porto, Faro no Verão — há uma abertura crescente. O perfil dos meus clientes em 2024 é claramente diferente do de 2012. Falam mais abertamente, negociam melhor os limites, e há muito menos vergonha na cara quando chegam pela primeira vez.
Que conselho darias a um casal que está a considerar visitar um clube de swing pela primeira vez?
Três conselhos. Primeiro: conversem muito antes de entrar. Não só "queres experimentar?" mas perguntas concretas — o que estamos dispostos a fazer? O que está fora de questão? O que fazemos se um de nós quiser ir embora a meio da noite? Segundo: a primeira visita é de observação. Não há obrigação de participar em nada — podem ir, ver o espaço, beber alguma coisa, conversar com outros casais e perceber se o ambiente vos diz algo. Um bom clube não pressiona ninguém. Terceiro: escolham um espaço com reputação verificável. Há muitos grupos informais que não têm as mínimas condições de segurança e higiene. Perguntem na comunidade online, leiam recensões, e não entrem em nenhum sítio que não vos permita visitar antes de pagar uma quota.
Reflexão Final
Maria S. despediu-se com um comentário que ficou a ecoar: "O swing não salvou nenhum relacionamento que já estivesse partido. Mas enriqueceu muitos que já eram sólidos." É, no fundo, a melhor síntese possível do que este universo representa para quem o pratica de forma consciente e responsável.
Se tens curiosidade sobre a cena swinger em Portugal e queres conhecer outros casais com interesses semelhantes, o EncontrosX tem uma comunidade activa e discreta onde podes começar a explorar ao teu ritmo.