Gouinage: O Que É, Significado e Prática
A sexualidade feminina tem uma história rica e frequentemente silenciada. Termos como gouinage surgem nessa intersecção entre linguagem, cultura e prática sexual — palavras que carregam séculos de tabu e, ao mesmo tempo, de prazer autêntico. Neste artigo exploramos o significado do termo, a sua origem histórica, a sua relação com práticas contemporâneas e o que a investigação científica nos diz sobre o prazer feminino neste contexto.
O Que Significa Gouinage
Gouinage é um termo de origem francesa que designa práticas sexuais entre mulheres — mais especificamente, a fricção genital entre duas mulheres como forma de prazer sexual. Em Portugal e no Brasil, o termo é menos comum do que em França, mas circula em contextos eróticos e de literatura adulta.
A palavra está etimologicamente ligada ao termo pejorativo francês gouine, historicamente usado para designar mulheres lésbicas de forma depreciativa. Com o tempo, como acontece com muitos termos que surgiram como insultos, foi sendo reapropriado por comunidades LGBTQ+ e pelo léxico da sexualidade adulta, perdendo (em muitos contextos) a sua carga negativa original.
Actualmente, o termo é usado principalmente em contextos eróticos e literários — sobretudo na literatura e pornografia em língua francesa — para descrever sexo lésbico, com particular ênfase na prática do tribbing.
Contexto Histórico
As práticas sexuais entre mulheres têm registo em praticamente todas as culturas ao longo da história, embora frequentemente silenciadas ou codificadas de formas indirectas. Na Grécia Antiga, Safo de Lesbos escreveu poesia que celebrava o amor e o desejo entre mulheres — e é do nome da ilha onde nasceu que deriva o termo "lésbica".
No século XVII e XVIII europeu, as relações sexuais entre mulheres eram frequentemente denominadas "amor tribádico" (de tribas, do grego, "aquela que fricciona"). Esta terminologia reflectia precisamente a prática física mais associada ao sexo entre mulheres — a fricção genital.
Na literatura erótica francesa dos séculos XVIII e XIX — um género muito prolífico nesse país — as práticas sexuais entre mulheres, designadas por termos como gouinage ou tribadisme, aparecem com frequência, tanto em obras de carácter erótico como em textos que tentavam "documentar" (frequentemente de forma distorcida) comportamentos considerados desviantes.
Tribbing: A Prática Central
O tribbing (também chamado tribadismo ou, coloquialmente, "scissoring") é a prática de fricção genital entre duas mulheres. Pode ser realizado em diversas posições — deitadas frente a frente, perpendiculares uma à outra em posição de "tesoura", ou com uma parceira sobre a outra — e pode envolver a fricção directa entre clítoris, ou a fricção do clítoris de uma contra o corpo da outra.
Do ponto de vista do prazer, o tribbing estimula directamente o clítoris — o principal órgão de prazer feminino — o que o torna uma prática com elevado potencial de orgasmo para ambas as parceiras. A estimulação mútua simultânea é um dos aspectos que muitas mulheres descrevem como particularmente intenso.
As posições mais comuns incluem:
- Frente a frente deitadas: as duas parceiras em posição lateral, pélvis alinhadas, com movimentos de fricção rítmicos.
- Posição de tesoura: as pernas entrelaçadas de forma a que as vulvas fiquem em contacto directo — requer alguma flexibilidade e coordenação, mas é muito eficaz para estimulação mútua.
- Uma sobre a outra: semelhante à posição do missionário, com movimentos de fricção em vez de penetração.
- Sentada ao colo: uma parceira sentada sobre a outra, com movimentos pélvicos circulares ou para a frente e para trás.
Outras Práticas Incluídas no Conceito
Embora o tribbing seja a prática mais frequentemente associada ao gouinage, o termo abrange de forma mais geral o conjunto de práticas sexuais entre mulheres, incluindo:
Cunnilingus: estimulação oral dos genitais femininos, uma das práticas mais comuns e com maior potencial de orgasmo entre mulheres. Estudos sobre sexualidade feminina mostram consistentemente que o sexo oral é uma das formas de estimulação que mais frequentemente leva ao orgasmo.
Estimulação manual: o uso das mãos e dedos para estimular o clítoris, os lábios e o interior do canal vaginal. Pode ser feito em simultâneo — cada parceira a estimular a outra — ou alternadamente.
Uso de acessórios: vibradores, dildos (incluindo os de dupla ponta, especificamente concebidos para uso simultâneo por duas parceiras), arneses e outros acessórios são frequentemente integrados nas práticas sexuais entre mulheres.
Prazer e Orgasmo nas Práticas Lésbicas
Investigações sobre o orgasm gap — a diferença na frequência de orgasmo entre homens e mulheres em contextos heterossexuais — mostram consistentemente que as mulheres em relações com outras mulheres têm orgasmos com muito maior frequência do que as mulheres em relações heterossexuais. Um estudo publicado no Archives of Sexual Behavior (2017) encontrou que 86% das mulheres que se identificam como lésbicas têm orgasmo sempre ou quase sempre durante o sexo, comparado com 65% das mulheres heterossexuais.
Este dado é atribuído ao maior foco na estimulação clitoriana — as mulheres que têm sexo com mulheres dedicam naturalmente mais atenção ao clítoris, enquanto o sexo heterossexual tende a centrar-se na penetração vaginal, que por si só não leva ao orgasmo na maioria das mulheres.
Para saber mais sobre o orgasmo feminino, consulta o nosso artigo sobre orgasmo no glossário.
Gouinage e tribbing são a mesma coisa?
Tribbing é a prática específica de fricção genital entre mulheres. Gouinage é um termo mais abrangente que pode incluir o tribbing mas também outras práticas sexuais entre mulheres, como sexo oral e estimulação manual.
O tribbing é exclusivo de mulheres lésbicas?
Não. A prática pode ser realizada por qualquer par de pessoas com vulva, independentemente da identidade sexual de cada uma. Mulheres bissexuais ou que experimentam com a sexualidade também podem praticar tribbing.
É possível transmitir infecções sexualmente transmissíveis através do tribbing?
Sim, embora o risco seja geralmente menor do que em práticas que envolvem penetração. ISTs como herpes, HPV e, em menor medida, outras infecções podem ser transmitidas através do contacto genital directo. O uso de barreiras de látex pode reduzir o risco.
O tribbing requer muita flexibilidade?
Depende da posição escolhida. Algumas posições, como frente a frente deitadas, não requerem flexibilidade especial. A posição de "tesoura" requer alguma flexibilidade nos quadris, mas existem variações adaptadas a diferentes corpos e capacidades.
Como melhorar a experiência do tribbing?
Comunicação é fundamental — cada corpo é diferente e o que funciona para uma pessoa pode não funcionar para outra. Lubrificante pode aumentar significativamente o conforto e o prazer. Experimentar diferentes posições e ritmos até encontrar o que funciona melhor para ambas é parte da experiência.