Educação Sexual

Restauração Portuguesa e Sexualidade na Corte Século XVII

P Paula Camargo
05 Jun 2026 9 min leitura 13 visualizacoes
Restauração Portuguesa e Sexualidade na Corte Século XVII

O século XVII português, dominado pelo esforço da Restauração da Independência (1640) e pelos reinados da dinastia de Bragança, foi um período de intensa actividade cortesã em que a sexualidade — das relações régias às dinâmicas monásticas — ocupava um lugar central tanto na política como na crónica social. A historiografia sobre a corte portuguesa do período tem explorado estas dimensões com crescente interesse nas últimas décadas, beneficiando da digitalização de fontes documentais que permitem um acesso sem precedentes aos registos da época. Este artigo examina a sexualidade na corte portuguesa do século XVII com base em cronistas, correspondência diplomática e investigação académica recente.

D. João IV e a Corte da Restauração

D. João IV (r. 1640-1656), o primeiro rei da dinastia de Bragança, ascendeu ao trono num contexto de conflito militar permanente com Espanha e de diplomacia activa para obter reconhecimento internacional da independência portuguesa. A sua vida pessoal foi marcada por um casamento com D. Luísa de Gusmão que os cronistas descrevem como genuinamente afectuoso — uma raridade entre os casamentos dinásticos da Europa do século XVII. D. Luísa desempenhou um papel político significativo, governando como regente após a morte do marido (1656-1662) durante a menoridade de D. Afonso VI.

A corte lisboeta da Restauração era consideravelmente mais modesta do que as grandes cortes europeias do período — a de Luís XIV em Versalhes ou a de Carlos II em Londres — mas desenvolvia as suas próprias práticas cortesãs, incluindo relações extraconjugais que as crónicas do período registam com maior ou menor discrição. Os documentos diplomaticos conservados nos arquivos europeus — particularmente os despachos dos embaixadores franceses e ingleses acreditados em Lisboa — são uma fonte preciosa de informação sobre a vida íntima da corte portuguesa, pois os diplomatas estrangeiros tinham menos constrangimentos em registar o que os cronistas portugueses omitiam por razões de prudência ou lealdade dinástica.

D. Afonso VI: O Rei Recluso e o Casamento Anulado

D. Afonso VI (r. 1656-1668 efectivamente, 1683 formalmente) foi um dos casos mais extraordinários da história dinástica portuguesa. Parcialmente incapacitado por uma doença na infância que afectou o seu lado esquerdo e, segundo algumas fontes, a sua capacidade sexual, D. Afonso foi afastado do poder pelo irmão D. Pedro e acabou por ter o seu casamento com D. Maria Francisca de Sabóia anulado por impotência. D. Pedro casou-se subsequentemente com a ex-cunhada — um arranjo que necessitou de dispensas papais e que escandalizou as cortes europeias mas serviu os interesses dinásticos de Portugal.

O processo de anulação do casamento de D. Afonso VI é documentado nos arquivos vaticanos e na correspondência diplomática do período. A questão da impotência régia — avaliada através de procedimentos jurídico-canónicos que envolviam o testemunho de damas de honor e, em alguns casos, exames físicos — era um assunto de estado de primeira ordem, dado que a incapacidade de gerar herdeiros punha em risco a continuidade dinástica. Os debates jurídicos e teológicos em torno desta questão são um exemplo vivo das intersecções entre sexualidade, poder e lei na Europa do Antigo Regime.

D. Pedro II: Amantes e Política Cortesã

D. Pedro II (r. 1683-1706), que governou primeiro como príncipe regente e depois como rei, foi um monarca de temperamento mais vigoroso do que o irmão, com uma vida amorosa activa que os cronistas do período documentaram. As relações extraconjugais dos reis portugueses do século XVII eram uma realidade amplamente conhecida na corte, que as normas da época toleravam enquanto não perturbassem a ordem política — as amantes régias não tinham, em Portugal, o estatuto semi-oficial que as maîtresses royales ocupavam na França do Antigo Regime, mas a sua existência era aceite como facto da vida cortesã.

A correspondência de D. Pedro II, parcialmente publicada por historiadores do século XIX e XX, documenta a dimensão política e diplomática dos seus reinados mas preserva um silêncio relativamente cuidadoso sobre as relações pessoais, coerente com as convenções da época. Os despachos dos embaixadores estrangeiros, novamente, são mais informativos sobre estes aspectos.

Os Conventos como Espaços de Vida Social: A Lenda das Freiras de Odivelas

Os conventos femininos do século XVII português ocupam um lugar particular na imaginação histórica e nas fontes documentais da época. Instituições como o Mosteiro de Odivelas — fundado no século XIII por D. Dinis — tinham ao longo dos séculos desenvolvido uma vida social intensa que misturava devoção religiosa, vida aristocrática e, segundo as fontes, liberdades consideráveis nos costumes.

A associação entre o Mosteiro de Odivelas e a vida amorosa de D. João V (rei no século XVIII, não no XVII) é a mais famosa das histórias sobre a vida secular dos conventos portugueses. Embora D. João V seja um monarca do século XVIII e não do XVII que é o foco deste artigo, a sua relação com o Mosteiro de Odivelas — de onde terá tido filhos ilegítimos, segundo uma tradição que não tem confirmação documental absolutamente segura mas que é consistente com o padrão de relacionamento entre a coroa e os conventos femininos — é um símbolo da permeabilidade entre vida conventual e vida secular.

No século XVII, que nos ocupa, os conventos femininos portugueses eram frequentemente locais onde as famílias aristocráticas colocavam filhas que não podiam casar por falta de dote adequado. Esta prática criava comunidades conventual com uma composição social aristocrática e com ligações familiares e afectivas ao mundo exterior que tornavam a separação completa do século muito difícil de manter. Os relatos de cronistas e as visitas pastorais documentam recorrentemente a presença de visitas masculinas nos conventos, a circulação de cartas e presentes e uma vida social que ultrapassava o estritamente espiritual.

A Literatura Erótica Portuguesa do Século XVII

O século XVII português produziu literatura de carácter erótico ou sexualmente explícito que circulava em manuscrito — nunca impresso, dado o controlo da Inquisição e da censura — entre as elites letradas. A poesia obscena atribuída a autores como António Ribeiro Chiado (activo no século XVI mas cuja influência se prolonga) e a tradição satírica que parodiava costumes sexuais da sociedade são documentadas nos manuscritos conservados nas bibliotecas portuguesas, nomeadamente na Biblioteca Nacional de Portugal e na Biblioteca da Ajuda.

Esta literatura manuscrita é uma fonte histórica de valor para compreender as normas e os seus desvios, os estereótipos sociais sobre sexualidade e a vida quotidiana das classes letradas portuguesas do período. A sua edição e estudo académico, ainda incompletos, fazem parte do projecto de investigação sobre a literatura portuguesa do Antigo Regime que diversas universidades portuguesas têm desenvolvido.

A história da sexualidade na corte portuguesa do século XVII é um campo de investigação em desenvolvimento, com fontes ricas e uma historiografia que tem progredido significativamente nas últimas décadas. Para quem procura compreender esta dimensão da história portuguesa, as publicações da Imprensa da Universidade de Coimbra e da Imprensa Nacional-Casa da Moeda incluem estudos académicos relevantes.

Para quem visita Lisboa e procura companhia adulta, o EncontrosX disponibiliza acompanhantes em Lisboa verificadas numa plataforma segura e discreta. Conheça os perfis de escorts em Lisboa disponíveis no EncontrosX, a maior plataforma de acompanhantes adultos em Portugal.

Perguntas Frequentes

Quem eram os principais monarcas portugueses do século XVII?

O século XVII português foi dominado pela Casa de Bragança após a Restauração de 1640: D. João IV (1640-1656), D. Afonso VI (1656-1683, efectivamente afastado em 1668) e D. Pedro II (1683-1706). O período foi marcado pela guerra de independência com Espanha e pela afirmação da nova dinastia.

Por que foi anulado o casamento de D. Afonso VI?

O casamento de D. Afonso VI com D. Maria Francisca de Sabóia foi anulado por impotência, avaliada através de procedimentos jurídico-canónicos. D. Pedro, irmão de D. Afonso e futuro D. Pedro II, casou-se subsequentemente com a ex-cunhada. O processo de anulação é documentado nos arquivos vaticanos e na correspondência diplomática da época.

Qual era o papel dos conventos na sociedade portuguesa do século XVII?

Os conventos femininos eram instituições sociais complexas onde as famílias aristocráticas colocavam frequentemente filhas sem dote suficiente para casar. A vida conventual misturava devoção religiosa com vida social activa, incluindo visitas e correspondência com o exterior, que as visitas pastorais documentam recorrentemente.

Existia literatura erótica em Portugal no século XVII?

Sim, circulava em manuscrito entre as elites letradas, dado que a impressão era controlada pela Inquisição e pela censura. A poesia obscena e a sátira de costumes sexuais existiam numa tradição que remontava ao século XVI. Exemplares sobrevivem nas colecções da Biblioteca Nacional de Portugal e da Biblioteca da Ajuda.

Como era a vida amorosa dos reis portugueses no século XVII?

As relações extraconjugais eram uma realidade aceite da vida cortesã, toleradas enquanto não perturbassem a ordem política. As amantes régias não tinham em Portugal o estatuto semi-oficial das maîtresses royales francesas, mas a sua existência era amplamente conhecida. Os despachos dos embaixadores estrangeiros são as fontes mais informativas sobre estes aspectos.

Partilhar:

Artigos Relacionados

Termos BDSM em Português: Dicionário Completo

Termos BDSM em Português: Dicionário Completo

Dicionário completo de terminologia BDSM com adaptações e traduções portuguesas: Dom/sub, safeword, aftercare, SSC, RACK, edgeplay e muito mais. Distingue a terminologia internacional das adaptações usadas na comunidade portuguesa.

Lovemap: O Que É e Como Se Forma a Sexualidade

Lovemap: O Que É e Como Se Forma a Sexualidade

O lovemap é o mapa interno que molda a nossa atracção sexual e os nossos desejos mais profundos. Saiba como se forma na infância, o que a investigação diz sobre a sua plasticidade e por que razão compreendê-lo transforma a vida amorosa.