Comboio Noturno: Lisboa a Madrid
O Lusitânia Comboio Hotel partiu de Santa Apolónia às nove da noite. Camila encontrou a sua cabine — uma couchette com dois beliches — e instalou-se no beliche de baixo com um livro e a esperança de que ninguém ocupasse o de cima. A esperança durou exactamente dois minutos.
A porta abriu-se e entrou um homem com uma mala de viagem e um sorriso de desculpa. Alto, pele morena, sotaque espanhol quando disse "buenas noches" antes de se corrigir para "boa noite". Chamava-se Pablo, era espanhol de Sevilha, e ia para Madrid visitar a família.
A cabine era ridiculamente pequena. Quando os dois estavam de pé ao mesmo tempo, era impossível não se tocarem. Pablo subiu para o beliche de cima com alguma ginástica, e Camila tentou ler enquanto o comboio ganhava velocidade e deixava Lisboa para trás.
— Não consegues dormir? — A voz dele veio de cima, suave e próxima no espaço minúsculo.
— Nunca consigo em comboios. E tu?
— Também não. Mas gosto do balançar. Faz-me pensar em coisas.
— Que coisas?
Houve uma pausa. — Coisas que é melhor não dizer a uma estranha com quem se partilha uma cabine.
Camila sentiu o rubor mesmo no escuro. O comboio balançava suavemente, ritmicamente, e ela compreendia perfeitamente a que "coisas" ele se referia.
— Posso confessar uma coisa? — disse ela. — Sempre tive uma fantasia com comboios noturnos. Acho que vi demasiados filmes.
— Que tipo de filmes? — A voz dele estava mais baixa, mais grave.
— Do tipo em que duas pessoas se encontram num comboio e fazem algo que nunca fariam em terra firme. É o movimento, talvez. Ou o facto de saber que em algumas horas estão em cidades diferentes e nunca mais se vão ver.
O silêncio que se seguiu estava carregado de possibilidade. Depois, Camila ouviu o som dele a descer do beliche. Estava de pé ao lado da cama dela no escuro, e ela sentia o calor dele sem o ver.
— Posso sentar-me? — perguntou ele.
Sentou-se na beira do beliche de baixo. No escuro total — só as luzes das estações que passavam criavam flashes momentâneos — Camila sentiu a mão dele procurar a dela. Os dedos encontraram-se, e a electricidade do toque foi amplificada pelo escuro e pelo balançar do comboio.
— Se te beijar — disse ele, com o sotaque espanhol mais carregado pela emoção —, prometo que não é porque nunca mais nos vamos ver. É porque quero.
— Beija-me — respondeu ela.
A boca dele encontrou a dela no escuro — primeiro o canto dos lábios, depois um ajuste, depois um beijo completo que soube a café e a aventura. O balançar do comboio adicionava movimento a cada gesto, como se os corpos dançassem ao ritmo das carruagens nos carris.
No beliche estreito, com o tecto a centímetros da cabeça, despiram-se em câmara lenta. Cada peça de roupa removida era uma fronteira que se dissolvia — não apenas entre corpos, mas entre países, entre línguas, entre o português e o espanhol que se misturavam nos sussurros.
Pablo murmurava em espanhol coisas que Camila compreendia mais com o corpo do que com o ouvido. "Eres preciosa", "aquí", "más", "así". As palavras eram mais sonoras em castelhano, mais urgentes, e misturavam-se com os sons do comboio — rodas nos carris, apitos distantes, o ranger da madeira — numa sinfonia nocturna.
Amaram-se ao ritmo do comboio, o balançar natural da carruagem a ditar o compasso. O beliche rangia em contraponto, e Camila abafava os gemidos no ombro dele para não acordar os passageiros das cabines vizinhas. O prazer chegou como a fronteira — gradual e depois súbito, uma passagem de um estado para outro que a deixou diferente do lado de lá.
De madrugada, com o comboio a atravessar a Extremadura espanhola, ficaram abraçados no beliche, com as pernas entrelaçadas e o cobertor grosso a cobri-los.
— Em Madrid — disse ele —, posso levar-te a tomar chocolate com churros?
— Em Madrid — respondeu ela — podes levar-me a onde quiseres.
O Lusitânia chegou a Chamartín às oito da manhã. Saíram juntos, de mãos dadas, e Camila descobriu que certas viagens não terminam na estação de destino.
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