Conto Erótico: A Enfermeira de Plantão
Gonçalo estava no hospital há quatro dias com uma fractura do tornozelo que não era grave mas era inconveniente o suficiente para o prender ali. Era um quarto individual, tinha o telemóvel carregado e livros suficientes, e tinha desenvolvido ao longo dos dias uma relação de familiaridade com o ritmo do serviço — as refeições às horas certas, as rondas, o silêncio que descia nos corredores depois das dez da noite e que tornava o hospital num lugar com uma qualidade diferente da do dia.
Susana era enfermeira do turno da noite, tinha uns trinta anos, e havia nela uma eficiência tranquila que Gonçalo admirara desde o primeiro dia — a forma como fazia o seu trabalho sem ruído desnecessário, sem a urgência performativa que alguns profissionais exibem. Quando verificava os sinais vitais às duas da manhã, fazia-o com uma atenção que era profissional mas também genuinamente humana.
A Madrugada
Na quarta noite, Gonçalo estava acordado quando ela entrou — tinha dormido mal, o tornozelo doía o suficiente para o manter no limiar entre o sono e a vigília. Ela notou que estava acordado, verificou os dados com a sua habitual eficiência, e depois, em vez de sair como fazia normalmente, ficou um momento à beira da cama.
— Precisa de mais analgésico? — perguntou ela, com o tom de quem pergunta com atenção real e não por protocolo.
Não precisava. Mas disse-lhe que estava com dificuldade em dormir, e ela ficou mais cinco minutos. Falaram pouco — sobre os sons do hospital de noite, sobre como as madrugadas têm uma qualidade suspensa que tanto pode ser angustiante como estranhamente serena. Ela disse-lhe que preferia os turnos nocturnos por isso, por essa forma de o tempo funcionar de modo diferente.
Quando ela saiu, Gonçalo ficou com a consciência de que havia ali algo que não era possível confundir com mais nada — uma atracção simples e clara, do tipo que nasce do toque no que é genuíno nas pessoas.
A Última Noite
Na sua última noite no hospital, Susana entrou às duas como sempre. Desta vez havia um livro na mão — um que ela tinha visto na mesinha-de-cabeceira de Gonçalo e mencionado dias antes. Ele dissera-lhe que podia ficar com ele quando saísse. Ela disse que não, mas que queria saber do que tratava.
Ficou meia hora. A conversa foi sobre o livro — uma colecção de contos de Sophia de Mello Breyner — e depois sobre a forma como a literatura consegue fazer o que a memória não faz: preservar as coisas com toda a sua qualidade emocional intacta. Gonçalo percebeu que estava a ver uma pessoa completa, não um papel profissional, e que ela o via de volta da mesma forma.
Fora dos Limites
Saiu do hospital no dia seguinte de manhã. Dois dias depois, por razões que eram honestas e não calculadas, voltou à recepção do hospital com o livro de Sophia embrulhado. Deixou-o com uma nota simples que tinha apenas o seu número de telemóvel.
Susana enviou mensagem nessa tarde. Não começou com obrigada — começou com o título de um poema de Sophia que Gonçalo conhecia. Era, reconheceu ele imediatamente, a resposta certa.
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