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Táxi da Meia-Noite: Um Encontro no Escuro

P Paula Camargo
26 Dec 2025 4 min leitura 49 visualizacoes
Táxi da Meia-Noite: Um Encontro no Escuro

Chovia torrencialmente em Lisboa quando Daniela conseguiu finalmente parar um táxi no Cais do Sodré. Abriu a porta de trás e atirou-se para dentro, encharcada — ao mesmo tempo que alguém fazia exactamente o mesmo pela porta oposta.

— Este táxi é meu — disse ela, escorrendo água.

— Eu vi-o primeiro — respondeu uma voz masculina do outro lado do banco traseiro.

O taxista, um homem pragmático que já vira de tudo, resolveu a questão: — Ou partilham ou saem os dois. Não tenho a noite toda.

Ficaram. Daniela ia para o Marquês, o desconhecido para o Saldanha — ficava a caminho. No escuro do banco traseiro, com a chuva a martelar no tecto e os limpa-para-brisas a batalhar contra a tempestade, negociaram uma trégua.

— Marco — apresentou-se ele, estendendo uma mão molhada.

— Daniela — respondeu ela, apertando-lha. A mão dele era grande e quente apesar da chuva.

Na penumbra do táxi, iluminados apenas pelos semáforos e pelos faróis dos carros, Daniela conseguiu ver fragmentos dele: uma boca bem desenhada, um queixo forte, olhos que brilhavam quando os postes de luz passavam. Tinha a camisa colada ao corpo pela chuva, e ela podia adivinhar a forma dos ombros debaixo do tecido molhado.

O trânsito estava impossível — a chuva transformara as ruas em rios. O taxista avisou que iam demorar. Daniela encostou-se no banco e suspirou.

— Noite difícil? — perguntou Marco.

— Noite solitária — respondeu ela, com uma honestidade que a chuva e a escuridão pareciam autorizar. — Jantei sozinha porque o encontro que tinha marcado não apareceu.

— Alguém te deixou plantada? — A incredulidade na voz dele era genuína. — Esse alguém precisa de óculos.

Daniela riu. — E tu? Porque estás encharcado no Cais do Sodré à meia-noite?

— Concerto. A minha banda tocou no Musicbox. Quase não apareceu ninguém por causa da chuva.

— Tocas o quê?

— Guitarra. E canto. Mal, mas com entusiasmo.

A conversa fluiu, ajudada pela intimidade forçada do banco traseiro. O trânsito continuava parado, o taxista tinha ligado a rádio, e no casulo do táxi, Daniela sentiu-se estranhamente protegida. A escuridão dava-lhe coragem.

— É estranho — disse ela — que me sinta mais confortável contigo num táxi do que com o homem com quem devia ter jantado.

— Talvez o universo tenha achado que merecias melhor companhia — respondeu ele, e a mão encontrou a dela no espaço escuro entre os dois.

Não soube quem se aproximou primeiro. No escuro, os lábios encontraram-se quase por acidente — primeiro o canto da boca, depois um beijo tímido, depois um beijo que fez o taxista tossir discretamente e subir o volume da rádio.

A mão de Marco subiu-lhe pela coxa, por baixo do casaco molhado, e Daniela estremeceu — de frio, de desejo, da excitação de estar a fazer algo proibido no banco de trás de um táxi. Os beijos dele no pescoço, abafados pelo cabelo molhado, faziam-na querer gritar num espaço onde só podia sussurrar.

— Vem para minha casa — murmurou ela ao ouvido dele.

— E o Saldanha? — perguntou ele.

— O Saldanha que espere.

Quando chegaram ao apartamento de Daniela no Marquês, estavam mais molhados do que quando tinham entrado no táxi — a chuva durante os dez metros da porta do carro à porta do prédio garantiu isso. Subiram no elevador a rir e a beijar-se, deixando poças de água nos degraus.

Dentro do apartamento, despiram a roupa encharcada com urgência. Os corpos frios da chuva aqueceram-se com o contacto, e o contraste entre a pele gelada e a boca quente criava sensações eléctricas. Marco beijava-a como tocava guitarra — com ritmo, com feeling, com variações que a surpreendiam.

Fizeram amor a ouvir a chuva que não parava, e os gemidos de Daniela misturavam-se com o som da tempestade como um instrumento extra na banda dele. Quando finalmente ficaram em silêncio, abraçados sob os cobertores, a chuva amainou como se tivesse cumprido a sua missão.

De manhã, Marco preparou café e cantou-lhe uma canção que escrevera naquela noite, no bloco de notas do telemóvel, enquanto ela dormia. Era sobre uma rapariga que cheirava a chuva.

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