Conto Erótico: Estranhos no Comboio
O comboio Alfa Pendular das 22h47 estava quase vazio quando Catarina entrou na carruagem dois. Escolheu um lugar junto à janela, pousou a mochila no porta-bagagens e observou a escuridão lá fora ganhando velocidade. Não gostava de voar — daí as três horas de viagem para chegar a Porto a tempo da reunião da manhã seguinte. Mas havia algo nos comboios nocturnos que nunca a incomodara: esse estado suspenso entre dois mundos, onde as regras do quotidiano pareciam temporariamente suspensas.
Ele entrou em Entroncamento. Carruagem vazia, e mesmo assim escolheu sentar-se nos dois lugares a seu lado — a janela, ela percebeu logo, estava ocupada do outro lado. Tinha uns quarenta anos, casaco escuro, mala de executivo. Pediu desculpa pela intrusão com um sorriso breve. Catarina acenou que não havia problema e voltou ao livro. Mas havia qualquer coisa no modo como ele a olhara — não com desejo declarado, mas com atenção total — que a fez ficar de antena ligada.
O Que Não se Diz em Voz Alta
Ficaram em silêncio os primeiros vinte minutos. Catarina percorria as páginas do livro sem absorver uma palavra. Ele tinha o computador aberto mas não estava a trabalhar — via-se no reflexo do vidro. A carruagem entrou num túnel e, por um instante, o reflexo tornou-se espelho perfeito: os dois olhos encontraram-se antes de qualquer um ter tempo de desviar o olhar.
— Consegues trabalhar em movimento? — perguntou ela, quebrando o silêncio primeiro. Não sabia bem porquê.
— Finjo que sim — respondeu ele. — O ecrã é desculpa para não ter de estar na cabeça.
Foi essa honestidade inesperada que abriu caminho. Começaram a falar da forma como se fala com estranhos em trânsito — sem filtros sociais, sem o peso da reputação, sem o receio de ver a pessoa no dia seguinte. Ela contou que ia a Porto fugir de uma semana difícil disfarçada de reunião. Ele disse que vivia entre as duas cidades e que o comboio era o único lugar onde se sentia genuinamente sozinho.
A Hora Suspensa entre Coimbra e Aveiro
Algures entre Coimbra e Aveiro, a carruagem estava completamente às escuras — uma avaria momentânea nas luzes que durou uns trinta segundos mas que pareceu muito mais. Nesse escuro, a mão dele encontrou a dela sobre o apoio de braço. Não foi acidente: foi intenção gentil, à espera de resposta.
Catarina não retirou a mão. Ficaram assim — dedos entrelaçados no escuro, respirando o silêncio do comboio que furava a noite — até as luzes voltarem. Quando voltaram, nenhum dos dois se moveu. A mão dele continuou sobre a dela, agora visível, agora declarada.
Quando o comboio parou em Porto Campanhã, trocaram números de telemóvel sem grande cerimónia. Não houve promessas, não houve despedidas elaboradas. Ele saiu primeiro, virou-se uma vez no cais e sorriu. Catarina ficou no lugar mais um momento, sentindo o calor dos dedos dele onde já não havia mão nenhuma.
Algumas histórias não precisam de mais do que isso — o suficiente para lembrares, durante semanas, que ainda és capaz de te surpreenderes.
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