A Massagem Tântrica: Conto Sensual
Aviso: este conto contém conteúdo adulto sensual e explícito. Destinado a leitores com 18 anos ou mais. Todos os personagens são adultos fictícios que agem com pleno consentimento. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
I. O Corpo Esquecido
Sofia tinha quarenta anos e a íntima convicção de que o seu corpo tinha deixado de existir como entidade própria. Existia funcionalmente — transportava-a de reunião em reunião, suportava o peso de dois filhos adolescentes, acordava às seis e adormedecia depois da meia-noite — mas havia muito que parara de a surpreender. Havia muito que ela parara de o escutar.
O divórcio completara-se há dois anos, sem drama mas com a melancolia específica das coisas que se dissolve por erosão lenta em vez de ruptura. Paulo era um homem decente, e por isso a dissolução levara mais tempo do que devia. Quando finalmente ficou sozinha, Sofia descobrira que não sabia muito bem o que fazer com a solidão que encontrara, porque a solidão era estranhamente mais sua do que qualquer coisa que a partilha obrigatória do casamento lhe permitira ter.
A massagem tântrica surgiu por acidente. A sua terapeuta — uma mulher prática de Cascais que intercalava as sessões de psicoterapia com recomendações concretas — dissera-lho numa tarde de Outubro com a placidez de quem sugere um médico de clínica geral: — Tens de voltar ao teu corpo, Sofia. Não por obrigação nem por ninguém. Por ti. Há um rapaz em Lisboa, chama-se Daniel, que faz este trabalho com muito respeito. Pensa nisso.
Sofia passou horas nessa noite a explorar o assunto online — artigos, fóruns, perfis de massagens eróticas em Lisboa que descreviam o tantra como ritual de presença. Acabou por adormecer com o portátil aberto e três separadores ainda por ler.Sofia pensou durante três semanas antes de telefonar.
A conversa inicial durou quarenta minutos. Daniel tinha uma voz tranquila que não era sedutora mas era, de alguma forma, absolutamente segura — como falar com um médico que sabe exactamente o que está a dizer. Explicou a filosofia do tantra não como misticismo mas como presença: a ideia de que o prazer não é um destino mas uma forma de habitar o momento. Explicou os limites, o ritmo, o que ela podia esperar e o que estava sempre fora de questão. E quando ela disse, com alguma dificuldade, que não se sentia no seu corpo há muito tempo, ele respondeu sem hesitação: — É exactamente para isso que serve.
II. O Estúdio
O estúdio ficava num apartamento no Príncipe Real, segundo andar, com janelas que davam para uma figueira no jardim interior. Sofia chegou com dez minutos de antecedência e ficou na rua durante cinco desses dez minutos, a convencer-se de que entrar era a coisa certa.
Daniel tinha talvez quarenta e cinco anos, cabelo grisalho apesar de não ter mais do que isso, e a postura de alguém que passou muito tempo a aprender a estar quieto. Recebeu-a com um chá de gengibre e vinte minutos de conversa numa sala que cheirava a sândalo e tinha almofadas no chão e música de corda que Sofia reconheceu vagamente como indiana.
— Há algo que não queres que aconteça? — perguntou ele, com a simplicidade de quem faz a pergunta mais importante do mundo.
Sofia pensou. — Não quero sentir-me avaliada.
Ele acenou com a cabeça. — Mais alguma coisa?
— Não quero ter de fazer nada. Só quero estar.
— É exactamente isso. Mais alguma coisa?
Ela pensou de novo. — Não sei se consigo relaxar.
— Isso não é uma coisa que queiras que não aconteça. É uma preocupação. A preocupação pode ficar aqui fora — disse ele, com um gesto para a porta. — Dentro, só o que existe existe.
A sala de massagem era simples: uma mesa aquecida coberta com um lençol de flanela, velas em três cantos, e a mesma música mais suave. Daniel saiu para ela se desvestir e deitar, indicando onde deixar a roupa. Sofia despiu-se com a eficiência de quem está no médico, cobriu-se com o lençol, e ficou a olhar para o tecto durante o minuto que levou a perceber que o ritmo de respiração que tinha não era o ritmo de respiração que queria ter.
III. A Sessão
Daniel voltou sem fazer barulho e ficou de pé ao lado da mesa durante um momento. Sofia sentiu a presença dele antes de o ouvir — uma atenção dirigida que não era voyeurista mas era absolutamente completa, como ser o sujeito de um olhar que não te quer nada excepto bem.
— Vou começar pelas mãos — disse ele.
Pegou-lhe na mão direita com as duas dele e ficou simplesmente a segurar durante trinta segundos. Era um gesto estranho na sua mundanidade. Sofia esperava movimento, técnica, e em vez disso encontrou presença — a sensação de que havia outra pessoa completamente ali, sem pressa, sem agenda, apenas a segurar.
Depois começou a mover os polegares em círculos lentos na palma da mão, percorrendo os tendões, as montanhas carnosas dos dedos, os ossos que ela nunca notara ter. Era como ser lida numa língua que não sabia que existia. Subiu pelo pulso, pelo antebraço, pelo cotovelo, com uma pressão que variava entre o toque e o calor, e a cada centímetro que percorria, Sofia sentia qualquer coisa descongelar.
Quando o lençol se moveu e as mãos dele encontraram os ombros tensos — dois nós de tensão acumulada que ela nem sabia que carregava — Sofia soltou um som involuntário que era quase um soluço. Não de dor. De reconhecimento.
— Estou aqui — disse ele, suavemente.
A sessão durou noventa minutos e foi, simultaneamente, a experiência mais íntima e a menos sexual que Sofia alguma vez tivera. Daniel trabalhava o corpo com a precisão de um músico a afinar um instrumento — encontrando as tensões, negociando com elas, propondo alternativas. Havia momentos em que as mãos dele mal tocavam a pele, apenas pairavam a milímetros de distância, e Sofia sentia-os como se fossem o toque mais pesado do mundo.
Quando chegou à linha do ventre — logo acima dos quadris, uma zona que Sofia nem sabia que existia como zona — ela arquejou e as mãos de Daniel pausaram imediatamente.
— Continuo? — perguntou ele.
— Sim — disse ela, com uma firmeza que a surpreendeu.
O que se seguiu não tinha nome em nenhuma linguagem que ela conhecesse. Era prazer mas era também memória — o corpo a lembrar-se de si próprio, de que tinha nervo e sangue e calor, de que fora construído para sentir. Sofia não tentou controlar o que sentia. Deixou-o acontecer com a mesma confiança com que se deixa acontecer a chuva, sabendo que não molha para além da pele.
Quando o prazer a percorreu em onda — lento, profundo, como uma maré que subia sem urgência — não havia ninguém a ver excepto ela própria. E isso, descobriu, era o ponto.
IV. O Depois
Daniel saiu da sala para ela se vestir. Trouxe-lhe mais chá quando voltou, e sentaram-se em silêncio durante alguns minutos. Sofia olhava para as suas próprias mãos, notando como pareciam diferentes — mais presentes, mais reais.
— Como te sentes? — perguntou ele.
Ela pensou seriamente na pergunta. — Como se me tivessem devolvido algo que não sabia que tinha perdido.
Ele acenou, sem surpresa. — É frequente. O corpo não esquece. Só precisa de ser ouvido.
Saiu para a rua do Príncipe Real com o sol de tarde a dourar os prédios pombalinos, os miúdos a jogar à bola no jardim, a vida da cidade a continuar no seu ritmo próprio. Sofia caminhou devagar, sem destino, permitindo-se simplesmente existir no espaço entre uma coisa e a próxima. Havia um café que conhecia na Rua Dom Pedro V. Pediu uma bica, tirou o telemóvel, e marcou uma segunda sessão para a semana seguinte.
Não era uma obsessão. Era uma decisão: voltar ao próprio corpo com a mesma seriedade com que voltaria a qualquer coisa que importasse.
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