Conto Erótico: O Segredo com a Vizinha
Teresa morava no terceiro esquerdo do edifício da Rua do Salitre há quatro anos, e Vítor estava no terceiro direito havia dois. Cruzavam-se nas escadas com a regularidade dos vizinhos que se cumprimentam mas não se conhecem — um bom dia, um comentário sobre o elevador avariado, uma vez uma encomenda que ela recebeu quando ele não estava. Era o tipo de proximidade que as cidades modernas fabricam sem nunca converter em intimidade real.
O condomínio tinha uma varanda comunitária no quarto andar, esquecida pela maior parte dos moradores, com duas cadeiras de jardim e uma vista razoável para os telhados da cidade. Teresa descobrira-a por acidente e usava-a às vezes ao fim do dia. Uma tarde de abril, Vítor apareceu também, com uma cerveja na mão e o ar de quem não esperava encontrar ninguém. Ficou de qualquer forma.
A Varanda
Começaram a encontrar-se ali com uma regularidade que não tinha sido acordada mas que havia, na mesma. Terças e quintas ao final da tarde, quase sempre. Vítor trabalhava em design de interiores e ela em tradução literária, e havia entre as duas actividades uma sobreposição de interesses que tornava as conversas produtivas de uma forma que nenhum dos dois esperava. Falavam sobre espaços e sobre linguagem, sobre a forma como as escolhas de palavras e de materiais moldam a experiência de quem os habita.
Teresa reparou que esperava pelas terças e quintas de uma forma que excedia a antecipação de boa conversa. Havia qualquer coisa na forma como Vítor escutava — com todo o corpo, sem a impaciência discreta que a maioria das pessoas exibe — que a tornava mais articulada do que habitualmente, como se a qualidade da atenção que ele dava elevasse a qualidade do que ela produzia em resposta. Era sedutor sem ser sedução.
A Chuva
Num dia de novembro, a chuva chegou de repente enquanto os dois estavam na varanda. Vítor foi buscar uma cobertura de lona que estava dobrada numa caixa no canto, mas entretanto estavam os dois molhados o suficiente para tornar o gesto inútil. Riram com a leveza das situações que quebram sem esforço qualquer formalidade residual.
Foram para o apartamento de Teresa, que ficava mais perto. Ela preparou chá, ele ficou a olhar para a biblioteca com a atenção profissional de quem analisa um espaço e a atenção humana de quem lê os objectos que as pessoas escolhem para viver. Disse-lhe que havia uma honestidade nas estantes das pessoas que o fascinava sempre.
— O que lês sobre mim? — perguntou ela, com uma curiosidade que não era vaidade.
O que ele disse foi inesperadamente preciso — uma leitura dela a partir dos livros que tinha que acertou em coisas que ela raramente dizia em voz alta. E havia no acto de ser visto com essa exactidão uma vulnerabilidade que era, descobriu, completamente distinta do desconforto.
O Segredo
O que aconteceu entre eles naquela tarde de chuva ficou entre os dois com a naturalidade das coisas que pertencem à privacidade não por vergonha mas por serem demasiado específicas para o espaço público. Continuaram a cruzar-se nas escadas como antes — mas o bom dia tinha agora uma espessura diferente, uma cumplicidade de quem partilha um contexto que os outros não têm acesso.
Era, Teresa pensou tempo depois, o tipo de segredo mais agradável que existe: não o que guarda algo vergonhoso, mas o que protege algo que é demasiado bom para ser diminuído pela exposição.
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