Tempestade na Cabana: Conto de Isolamento
A tempestade apanhou-os a meio do trilho na Serra da Estrela. Num minuto, o céu estava cinzento mas calmo; no seguinte, o vento uivava e a chuva caía horizontal, transformando o caminho num ribeiro de lama. Aurora e Frederico — que se tinham conhecido no início do trilho, juntos por acaso no mesmo grupo de caminhada — correram para o único abrigo visível: uma cabana de pedra dos pastores, com tecto de telha e uma porta que mal fechava.
Lá dentro, o espaço era minúsculo. Chão de terra batida, uma lareira enegrecida, um banco de pedra e um monte de lenha seca. Frederico — escuteiro na adolescência — acendeu uma fogueira em minutos, e o brilho alaranjado transformou a cabana de refúgio desesperado em abrigo acolhedor.
Estavam encharcados. Aurora tremia de frio, com os lábios azulados e os dedos dormentes. A roupa molhada colava-se ao corpo e roubava-lhe o calor em vez de o conservar.
— Temos de tirar a roupa molhada — disse Frederico, prático. — Hipotermia não é brincadeira.
Aurora sabia que ele tinha razão. Com as costas viradas um para o outro — uma convenção modesta que o espaço tornava quase absurda — despiram as camadas encharcadas e penduraram-nas perto do fogo. Aurora envolveu-se na única manta seca que ele tinha na mochila, e Frederico ficou com um saco-cama aberto como xaile.
Sentaram-se junto à fogueira, lado a lado no banco de pedra, a ouvir a tempestade rugir lá fora. A luz do fogo dançava nas paredes de pedra e nos rostos molhados. Aurora olhou para Frederico — o perfil iluminado pelas chamas, os ombros largos sob o saco-cama, o cabelo que começava a secar em ondas rebeldes — e sentiu algo que não era apenas gratidão pela fogueira.
— Obrigada — disse ela. — Por saberes fazer fogo. Por encontrares a cabana. Por tudo.
— Não me agradeças. Acho que o universo quis que ficássemos presos juntos.
— O universo tem planos estranhos.
— Ou muito bons — respondeu ele, e o olhar que trocaram durou mais do que devia.
O frio era persistente apesar do fogo. Aurora tremia mesmo com a manta, e quando os dentes dela começaram a bater, Frederico tomou uma decisão.
— Calor corporal — disse ele, estendendo o saco-cama no chão perto da lareira. — É a forma mais eficiente. Se estiveres confortável.
Aurora deitou-se ao lado dele debaixo da manta e do saco-cama combinados. Quando a pele fria dela encontrou a pele quente dele, ambos estremeceram — ela de alívio, ele de algo menos nomeável. Frederico abraçou-a, envolvendo-a com o corpo como um casulo, e o calor começou a fluir entre eles.
Os tremores de frio transformaram-se gradualmente em tremores de outra natureza. A boca de Aurora estava junto ao pescoço dele, e cada respiração era uma carícia involuntária. O braço dele à volta da cintura dela era protecção e possessão ao mesmo tempo. Estavam nus, colados, e a fronteira entre necessidade e desejo dissolvia-se a cada segundo.
— Frederico — sussurrou ela.
— Sim?
— Já não estou com frio.
— Eu sei. Eu também não.
O beijo foi inevitável como a tempestade lá fora. Começou suave, quase tímido, mas o calor acumulado entre os corpos deu-lhe combustível. As mãos dele percorreram-lhe as costas, aquecendo cada centímetro de pele, e as mãos dela exploraram o peito largo com uma curiosidade que já não se disfarçava de busca por calor.
Amaram-se no chão da cabana, com a fogueira a estalar ao lado e a tempestade a bramir lá fora. Cada relâmpago iluminava os corpos entrelaçados como um flash fotográfico, e cada trovão abafava os gemidos que nenhum dos dois tentava conter. Havia algo primitivo naquele acto — dois corpos nus, fogo, pedra, tempestade — que os libertava de todas as convenções.
Aurora agarrou-se a ele como se fosse a única coisa sólida num mundo que tremia, e quando o prazer a percorreu como um relâmpago interior, gritou com a mesma força que o vento.
Depois, deitados junto ao fogo que já ardia baixo, com a tempestade a amainar lentamente, Aurora traçava círculos no peito dele enquanto ele lhe acariciava o cabelo que já secara.
— Quando a tempestade passar — disse ela —, promete-me que isto não passa também.
— Prometo — respondeu ele. — Há tempestades que mudam a paisagem para sempre.
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