O Personal Trainer: Conto de Tentação
Andreia contratou o personal trainer porque o médico lhe disse que precisava de exercício. Não porque quisesse ficar a olhar para o Rafael durante uma hora, três vezes por semana. Isso foi um bónus — um bónus perigoso que a fazia sair de cada treino mais excitada do que cansada.
Rafael era o tipo de personal trainer que faz as pessoas inscreverem-se no ginásio: alto, com músculos definidos mas não exagerados, sorriso fácil e uma paciência que contrastava com a intensidade dos treinos que planeava. Tinha vinte e nove anos, formação em desporto, e uma forma de tocar — para corrigir a postura, claro — que fazia Andreia perder a concentração no exercício.
— Contrai o core — dizia ele, pousando a mão na barriga dela durante os agachamentos. E Andreia contraía, sim, mas não era o core que respondia primeiro.
— Ombros para trás — instruía, ajustando-lhe a posição com ambas as mãos. E o calor que irradiava do corpo dele, de pé atrás dela, era mais intenso do que qualquer exercício cardiovascular.
Ao fim de seis semanas, Andreia estava em melhor forma — e em pior estado emocional. Sonhava com ele. Ia para os treinos com a roupa mais ajustada que tinha. Chegava mais cedo para o ver a terminar a sessão anterior. Era patético e ela sabia, mas o desejo tem pouco respeito pela dignidade.
O momento de ruptura aconteceu num treino ao final do dia, quando o ginásio já estava quase vazio. Rafael estava a ajudá-la com o peso morto — um exercício que exigia posição perfeita — e pôs-se atrás dela para corrigir o alinhamento das ancas.
As mãos dele seguraram-lhe os quadris. Os corpos estavam alinhados — o peito dele contra as costas dela, as ancas coladas. Andreia sentiu a respiração dele no pescoço e o controlo que mantivera durante semanas evaporou-se.
— Rafael — disse ela, a voz quase irreconhecível —, ou tiras as mãos, ou fazemos algo que não está no plano de treino.
Ele não tirou as mãos. Ficou imóvel durante dois segundos — dois segundos em que o profissionalismo e o desejo lutaram visivelmente no rosto dele — e depois os dedos apertaram-lhe ligeiramente os quadris. Não era uma correcção postural.
— Tenho um estúdio privado — disse ele. — No andar de cima. Para sessões individuais.
O estúdio era uma sala pequena com colchões de exercício, espelhos numa parede e uma iluminação mais suave do que o ginásio principal. Rafael fechou a porta, virou-se para ela, e a máscara profissional caiu.
— Seis semanas — disse ele. — Seis semanas a corrigir-te a postura e a tentar não pensar no que queria realmente fazer.
— Mostra-me — disse Andreia.
Ele beijou-a contra o espelho, e ela viu-se refletida — corada, ofegante, com as mãos dele no corpo — e a imagem excitou-a tanto quanto o toque. Despiram-se com a eficiência de quem tira roupa de desporto — elásticos e licra que cedem facilmente — e os corpos atléticos encontraram-se com a precisão de dois atletas que finalmente disputam o mesmo jogo.
Rafael conhecia anatomia. Sabia exactamente onde ficava cada músculo, cada tendão, cada ponto nervoso. E esse conhecimento, aplicado não ao exercício mas ao prazer, era devastador. Tocava-a nos sítios que faziam os músculos contrair involuntariamente, beijava-a nos pontos que tiravam a força das pernas.
Amaram-se no colchão de exercício, nos espelhos que multiplicavam as imagens, na posição de prancha que subitamente tinha outro significado. A resistência física de ambos significava que podiam durar — e duraram — com a intensidade de um treino de alta intensidade e o prazer de um desporto que vale a pena praticar.
Quando finalmente caíram lado a lado no colchão, ofegantes e sorridentes, Rafael olhou para ela e disse:
— Acho que vou ter de te transferir para outro personal trainer.
— Porquê?
— Porque não consigo ser profissional contigo. — Pausa. — Mas posso ser outras coisas.
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