Saúde Masculina

Criptorquidia: Impacto na Fertilidade e Sexualidade

P Paula Camargo
28 May 2026 7 min leitura 37 visualizacoes
Criptorquidia: Impacto na Fertilidade e Sexualidade

Este artigo é informativo e não substitui consulta com urologista ou médico de família. Em caso de sintomas, contacte um urologista ou ligue para SNS 24 (808 24 24 24).

O Que É a Criptorquidia?

A criptorquidia é a ausência de um ou ambos os testículos no escroto devido a falha na sua descida ao longo do canal inguinal durante o desenvolvimento fetal. É a malformação urogenital mais frequente no recém-nascido masculino, com incidência de cerca de 3% em recém-nascidos de termo e até 30% em prematuros. Em muitos casos, a descida espontânea ocorre nos primeiros meses de vida — cerca de 70–77% dos casos resolvem espontaneamente até aos 6 meses. Após este período, a resolução espontânea é improvável e a intervenção cirúrgica é recomendada.

Para apoio emocional relacionado com questões de saúde reprodutiva em adultos, podem contactar acompanhantes em Évora.

Tipos de Criptorquidia

A localização do testículo não descido varia:

  • Testículo palpável (80% dos casos): Localizado no canal inguinal ou na entrada do escroto, acessível ao exame físico. É a forma mais comum e de tratamento mais simples.
  • Testículo não palpável (20% dos casos): Pode estar intra-abdominal, atrófico ou ausente (testículo evanescente — provavelmente resultado de torção in utero). Requer laparoscopia para localização e diagnóstico definitivo.
  • Testículo retrátil: Desce ao escroto em condições de relaxamento mas retrai ao anel inguinal com estímulo (frio, ansiedade). Não é verdadeira criptorquidia, mas requer seguimento para excluir ascensão progressiva.

Diagnóstico

O diagnóstico é clínico, efectuado no exame neonatal e nas consultas de vigilância pediátrica. O exame deve ser realizado com a criança relaxada e em ambiente aquecido. A ecografia escrotal pode confirmar testículos palpáveis e avaliar o volume testicular, mas tem limitações na localização de testículos intra-abdominais. A laparoscopia é o padrão-ouro para testículos não palpáveis.

Tratamento: Orquidopexia

A orquidopexia — fixação cirúrgica do testículo no escroto — é o tratamento padrão. As directrizes actuais recomendam intervenção entre os 6 e os 18 meses de idade, com benefícios claros sobre a espermatogénese quando efectuada antes dos 2 anos. A janela óptima é considerada entre os 6 e os 12 meses.

A cirurgia precoce visa:

  • Preservar a espermatogénese, que requer temperatura testicular 2–4°C abaixo da temperatura corporal
  • Reduzir (mas não eliminar) o risco de cancro testicular
  • Permitir vigilância física regular do testículo — impossível quando este está intra-abdominal
  • Corrigir a hérnia inguinal frequentemente associada
  • Evitar complicações como torção testicular

Impacto na Fertilidade

O impacto da criptorquidia na fertilidade depende do tipo (unilateral vs. bilateral), da posição original e da idade de correcção cirúrgica.

Criptorquidia Unilateral Corrigida Precocemente

Com orquidopexia antes dos 2 anos, a maioria dos homens tem fertilidade normal ou próxima do normal. Estudos mostram parâmetros seminais ligeiramente reduzidos face à população geral, mas taxas de gravidez natural semelhantes.

Criptorquidia Bilateral

O risco de infertilidade é significativamente maior na forma bilateral. Mesmo após correcção precoce, a azoospermia ou oligospermia grave são mais frequentes. O acompanhamento andrológico na idade adulta é recomendado, com espermograma quando o casal planeia concepção.

Correcção Tardia (após 2 anos)

A correcção após os 2 anos está associada a maior dano na espermatogénese. A cirurgia tardial ainda justifica-se para reduzir o risco oncológico e permitir vigilância, mas os benefícios para a fertilidade são menores.

Risco de Cancro Testicular

Esta é a complicação mais relevante a longo prazo. Homens com história de criptorquidia têm um risco de cancro testicular 4 a 10 vezes superior à população geral — com risco absoluto estimado de 1–5% ao longo da vida (vs. 0,3–0,5% na população geral).

Pontos importantes:

  • A orquidopexia precoce reduz o risco oncológico mas não o elimina completamente
  • O risco é maior para testículos de localização mais proximal (intra-abdominal)
  • Em criptorquidia unilateral, o testículo contralateral normalmente descido tem também risco ligeiramente aumentado
  • A auto-palpação testicular mensal é fortemente recomendada a todos os homens com história de criptorquidia

Impacto na Sexualidade

Quando a criptorquidia foi corrigida precocemente e com bom resultado, a função sexual adulta é geralmente normal:

  • Produção de testosterona: O testículo corrigido pode ter capacidade reduzida de produção hormonal se houver dano significativo, mas habitualmente a testosterona total mantém-se em níveis normais, especialmente nas formas unilaterais.
  • Função eréctil e libido: Não são directamente afectadas pela criptorquidia corrigida.
  • Auto-imagem: Homens com atrofia testicular marcada pós-correcção ou com prótese testicular podem ter preocupações relacionadas com a aparência genital. O acompanhamento psicossexual pode ser útil.
  • Prótese testicular: Quando o testículo é atrófico ou ausente, a implantação de prótese testicular de silicone pode ser oferecida por razões psicológicas e cosméticas, sem função hormonal ou reprodutiva.

Seguimento em Adulto

Homens adultos com história de criptorquidia devem:

  • Realizar auto-palpação testicular mensal e reportar qualquer nódulo ou endurecimento ao médico
  • Efectuar ecografia testicular de vigilância conforme recomendação do urologista
  • Realizar espermograma ao planear paternidade, especialmente nas formas bilaterais
  • Informar o urologista do historial de criptorquidia em qualquer consulta urológica futura

Perguntas Frequentes

A criptorquidia pode resolver-se sem cirurgia em adulto?

Não. Em adulto, a descida espontânea não ocorre. O tratamento é sempre cirúrgico — orquidopexia se o testículo for viável, orquidectomia se estiver muito atrófico e com risco oncológico elevado (sobretudo em criptorquidia intra-abdominal de detecção tardia).

A cirurgia na infância garante fertilidade normal?

Aumenta significativamente as probabilidades, mas não garante. O timing (antes dos 2 anos é melhor) e o tipo de criptorquidia (unilateral vs. bilateral) são os principais determinantes do prognóstico reprodutivo.

O cancro testicular associado à criptorquidia é tratável?

Sim. O cancro testicular tem taxas de cura superiores a 95% quando diagnosticado precocemente. A auto-palpação regular é a ferramenta mais eficaz de detecção precoce.

A prótese testicular tem riscos?

As próteses testiculares modernas de silicone sólido ou gel têm perfil de segurança favorável. As complicações (infecção, migração) são raras. A decisão deve ser discutida com o urologista, considerando os aspectos psicológicos e as preferências individuais.

A criptorquidia afecta os níveis de testosterona?

Em criptorquidia unilateral correctamente tratada, os níveis de testosterona são geralmente normais. Em formas bilaterais com dano significativo, pode ocorrer hipogonadismo — que deve ser avaliado analiticamente pelo médico assistente.

Devo informar o médico sobre criptorquidia na infância?

Sim, sempre. O historial de criptorquidia é clinicamente relevante para a vigilância oncológica testicular ao longo de toda a vida adulta.

Conclusão

A criptorquidia é uma condição com implicações a longo prazo na fertilidade e no risco oncológico. A cirurgia precoce na infância é fundamental. Em adulto, a vigilância testicular regular e o acompanhamento andrológico são as ferramentas mais importantes para preservar a saúde reprodutiva e detectar precocemente o cancro testicular.

Referências

  1. EAU Guidelines (2026). Sexual and Reproductive Health — Cryptorchidism. uroweb.org
  2. NHS UK (2024). Undescended testicles. nhs.uk
  3. Mayo Clinic (2025). Undescended testicle — Symptoms and causes. mayoclinic.org
  4. PubMed / NCBI (2024). Cryptorchidism, fertility and testicular cancer risk — long-term follow-up. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  5. DGS — Direcção-Geral da Saúde (2024). Saúde Infantil e Juvenil — Vigilância Urológica. dgs.pt
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