Entrevista: Acompanhante Feminina, 50 Anos de Experiência
Os nomes foram alterados e detalhes biográficos compostos para proteger a privacidade. Esta entrevista é fictícia, baseada em arquétipos profissionais reais.
É difícil encontrar alguém que tenha visto tanto de Portugal como Manuela R., 71 anos, reformada há quatro. Filha de uma família operária do Barreiro, começou a trabalhar como acompanhante em 1974 — o ano em que Portugal se libertou de uma ditadura de quase meio século — e só parou aos 67 anos, quando as pernas e o cansaço acumulado lhe disseram que era tempo. Cinquenta anos na profissão. Dois regimes políticos. Cinco décadas de clientes, de cidades, de histórias que guarda com uma mistura de orgulho discreto e humor seco. Encontrámo-la em Setúbal, onde vive hoje numa casa pequena e arrumada com uma gata chamada Salomé.
Os Começos — Portugal em 1974
Manuela, como foi começar nesta profissão no ano da Revolução dos Cravos?
Foi ao contrário do que se pensa. As pessoas imaginam que o 25 de Abril abriu tudo de repente, mas na prática as coisas mudaram devagar. Em 1974 tinha 20 anos, estava no Barreiro, a minha família não tinha dinheiro, o meu pai tinha acabado de morrer, e uma vizinha mais velha fez-me a proposta. Fui para Lisboa. O que havia era muito diferente de hoje — não havia internet, não havia telemóvel, havia casas onde se recebia, havia ruas específicas, havia intermediários que ficavam com uma parte. Era um sistema mais hierárquico e mais exposto do que o que existe agora. As mulheres tinham muito menos controlo sobre as condições de trabalho. Aprendi isso rapidamente.
Como é que passaste de um sistema controlado por intermediários para trabalhar de forma independente?
Demorei uns anos. Aos 25 ou 26 percebi que o que eu ganhava não era justo face ao que a casa onde estava a trabalhar recebia. Comecei a guardar dinheiro em segredo — literalmente debaixo do colchão, como nos filmes — e quando tive o suficiente para pagar dois meses de renda de um quarto em Lisboa, saí. Foi meado dos anos oitenta. Portugal estava a mudar, havia mais liberdade, as mulheres estavam a ganhar mais voz em tudo, e essa mudança chegou também à nossa área, embora de forma menos visível. Passei a trabalhar por conta própria e nunca mais voltei atrás.
Quais foram as décadas que sentiste mais diferença — nos clientes, nas condições, na sociedade?
Os anos noventa foram uma viragem. A SIDA mudou tudo — trouxe medo, mas também trouxe consciência. Fui das primeiras a impor preservativo em todos os encontros, sem negociação. Perdi alguns clientes por isso. Não me importei. Sobrevivi. Muitas colegas não sobreviveram — não à doença, mas ao estigma que veio com ela, à pressão para não usar protecção. Depois a internet, nos anos dois mil, mudou a estrutura inteira da profissão: deixou de ser preciso estar na rua ou numa casa; podias anunciar, receber contactos, fazer a triagem antes de abrir a porta. Isso foi uma revolução de segurança enorme. E hoje — hoje é diferente outra vez, mais transparente de algumas formas, mais complicado de outras.
Os Clientes ao Longo de Cinco Décadas
Ao longo de cinquenta anos, como mudou o perfil dos homens que te procuravam?
Mudou muito, e também ficou muito igual. O que ficou igual é a solidão. Isso nunca mudou — a maioria dos homens que me procuravam, em 1974 como em 2020, procuravam alguma coisa que não encontravam nas suas vidas. Atenção, escuta, presença sem julgamento. O que mudou foi o contexto: nos anos setenta e oitenta havia muito homem casado num casamento que nunca quis, preso por religião ou pressão familiar. Nos anos noventa e dois mil começaram a aparecer mais divorciados, mais homens que viviam sozinhos por escolha. Nos últimos dez anos comecei a ver muito mais homens que conhecem bem o que querem e chegam já a comunicar isso de forma clara — o vocabulário mudou, a vergonha diminuiu, embora não tenha desaparecido.
Houve clientes que se tornaram importantes para ti ao longo dos anos?
Vários. Tive clientes regulares durante décadas — um médico de Coimbra que veio ver-me durante vinte e dois anos, até se reformar e mudar para o Alentejo. Não era amor, não era uma relação romântica — era algo para que não temos nome perfeito. Uma confiança profunda, um afecto real, uma constância que muitas relações "normais" não têm. Quando ele parou de vir, sem aviso, sem despedida, senti falta. Ainda hoje sinto às vezes. Aprendi que o facto de uma relação ter condições específicas não a torna menos real nas emoções que envolve.
E houve situações que te marcaram negativamente? Violência, perigo?
Ao longo de cinquenta anos, mais de uma vez. Duas situações sérias, algumas menos sérias mas assustadoras. Aprendi desde cedo que o instinto é para ouvir sempre. Se algo não parece bem, sai. Se alguém te faz sentir pequena antes de entrar no quarto, não entres. Fui suficientemente sortuda para sair das situações difíceis sem consequências físicas graves. Nem todas as minhas colegas tiveram essa sorte. É uma realidade da profissão que não se deve romantizar: o perigo existe, e a sociedade protege muito pouco as mulheres nesta situação. A polícia não era um recurso — hoje talvez seja mais, mas a cultura de culpabilização da vítima ainda está muito presente.
A Profissão por Dentro
O que é que as pessoas de fora menos entendem sobre esta profissão?
Duas coisas. A primeira é que há um trabalho emocional enorme que não é reconhecido. As pessoas pensam que é só o físico. Mas uma grande parte do que se oferece é presença: ouvir, criar um espaço onde o outro se sente aceite sem julgamento, encontrar o que aquela pessoa específica precisa naquele momento. Isso é trabalho real, que cansa, que exige atenção e energia. A segunda coisa que as pessoas não entendem é a gestão financeira e logística. Renda de apartamento, consumíveis, saúde, higiene, publicidade, segurança — tudo sai do bolso. Quem não tem disciplina financeira, e vi muitas assim, fica sem nada ao fim de alguns anos. Eu tenho reforma porque contribuí para a Segurança Social durante décadas, o que não era comum nem era fácil mas decidi que era necessário.
Contribuíste para a Segurança Social durante a carreira toda?
A partir dos anos noventa, sim. Como trabalhadora independente, recibos verdes de "prestação de serviços de acompanhamento social e de eventos" — era o que se conseguia enquadrar. Não era perfeito, havia anos em que declarava menos do que ganhava, mas sempre contribuí algo. Hoje tenho uma reforma pequena, duzentos e tal euros, mas tenho. As colegas que não fizeram isso dependem dos filhos ou de assistência social. Eu sou independente. Para mim isso foi sempre o objectivo: nunca depender de ninguém para sobreviver.
Como geriste a privacidade ao longo de décadas? A família, os vizinhos, os amigos?
Com muito cuidado e com algumas perdas. A minha mãe soube mas nunca falou abertamente sobre isso — havia um acordo tácito de silêncio que funcionou até ela morrer. Os meus dois filhos cresceram a saber que eu "trabalhava por turnos em eventos", que era a história que eu contava. Quando o mais velho tinha uns 30 anos, disse-me que sempre tinha percebido mas que nunca tinha querido perguntar. Tivemos uma conversa difícil. Hoje aceitam, respeitam, e a relação é boa. Demorou. Mas chegou. Os amigos de longa data — os verdadeiros — ficaram. Os que não ficaram não eram amigos, eram conhecidos com condições.
Conselhos e Legado
O que dirias a uma jovem de 20 anos que está a pensar entrar nesta profissão hoje?
Muitas coisas. Primeiro: entra por razões tuas, não pela pressão de ninguém. Se há alguém a empurrar-te para isto, foge disso como da peste. Segundo: segurança primeiro, sempre, antes do dinheiro. Nunca saltes um protocolo para ganhar mais num encontro. Terceiro: cuida do dinheiro desde o primeiro dia — poupa, contribui, planeia a saída. Quarto: não deixes que esta vida te isole completamente. Mantém amizades, mantém hobbies, mantém uma identidade fora do trabalho. E quinto, que é o mais importante: tu tens o direito de definir os teus limites e de os manter. Ninguém te paga o suficiente para fazeres algo que não queres fazer.
Tens algum arrependimento?
Tenho. Não da profissão em si, mas de algumas escolhas dentro dela. Há clientes que deveria ter recusado e não recusei. Há anos que deveria ter descansado mais. Há conversas que deveria ter tido com os meus filhos mais cedo em vez de os proteger de uma realidade que eles acabaram por descobrir na mesma. O arrependimento maior é o isolamento que escolhi durante tanto tempo — achei que era necessário para sobreviver, e às vezes era, mas levei-o longe de mais. Hoje tenho amigas, tenho os meus filhos, tenho a Salomé. É uma vida tranquila. Ganhou-se.
Como olhas para os cinquenta anos que passaste nesta profissão? Com que sentimento predominante?
Com orgulho de ter sobrevivido de forma digna. Com paz por nunca ter dependido de ninguém para pagar a renda. Com tristeza pelas colegas que não tiveram a mesma sorte — que morreram jovens, que foram exploradas, que ficaram sem nada. Com gratidão pelos clientes que me trataram com respeito durante décadas. E com uma certa satisfação de velha: vi Portugal mudar mais do que a maioria das pessoas imagina que é possível mudar num país. Vi as mentalidades moverem-se, lentamente, mas moverem-se. Não é o suficiente, nunca é o suficiente, mas é mais do que havia em 1974.
Reflexão Final
Manuela R. acompanhou-nos até à porta com a Salomé ao colo. Disse que raramente conta estas histórias — não por vergonha, mas porque "as pessoas geralmente não ouvem, ouvem o que já decidiram ouvir". Esperamos ter sido uma excepção.
Cinquenta anos de profissão correspondem a uma história de Portugal que raramente é contada nos livros — a história de mulheres que trabalharam nas margens da respeitabilidade e que, apesar disso, construíram vidas com significado, dignidade e, no caso de Manuela, uma paz que muitos não encontram em percursos muito mais convencionais.
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