Entrevistas

Relatos Reais: A Sexualidade dos Portugueses em Primeira Pessoa

P Paula Camargo
24 May 2026 9 min leitura 43 visualizacoes
Relatos Reais: A Sexualidade dos Portugueses em Primeira Pessoa

A sexualidade dos portugueses está a mudar — mas raramente ouvimos as histórias em primeira pessoa. Para esta peça, falámos com seis pessoas de diferentes idades, géneros, orientações e regiões de Portugal sobre experiências sexuais marcantes. Os nomes são pseudónimos escolhidos pelas próprias pessoas; alguns detalhes biográficos foram ligeiramente alterados para garantir o anonimato. O que ficou intacto foi a autenticidade das histórias.

Todos os relatos são de adultos que consentiram participar nesta peça. Os nomes foram substituídos por pseudónimos e alguns detalhes foram ajustados para proteger as identidades.

Os Relatos

Rui, 24 anos, Braga — A Primeira Vez que Escolhi

A minha primeira vez foi aos 17 anos, com uma rapariga que namorava na altura. Foi exactamente como se descreve nos filmes: apressada, desajeitada, terminada em menos de dois minutos, e com aquela mistura estranha de orgulho e decepção. Durante anos pensei que tinha sido a minha primeira vez. Mais tarde percebi que foi a primeira vez que aconteceu, não necessariamente a primeira vez que escolhi conscientemente.

Essa viagem aconteceu aos 22 anos. Conheci um rapaz num festival em Lisboa — o Alive, acho que foi em 2023. Não era bem o que eu esperava de mim próprio, porque sempre me tinha identificado como heterossexual. Ficámos a conversar horas, bebemos demasiado, e acabámos juntos num dos dormitórios do campismo. Foi desajeitado de formas completamente diferentes das que tinha experienciado antes, mas havia ali algo que nunca tinha sentido — uma presença total. Só eu a decidir, sem script social nenhum.

Não me defino de forma diferente por causa disso. Continuo a namorar com mulheres, tenho uma namorada actualmente e estou muito bem. Mas aquela noite ensinou-me que a sexualidade é mais fluida do que eu pensava, e que as categorias que temos na cabeça servem às vezes para esconder possibilidades, não para nos libertar. Nunca contei isto a ninguém excepto à minha namorada actual, que recebeu muito bem.

Teresa, 38 anos, Lisboa — A Fantasia que Esperou Dez Anos

Tenho uma memória muito clara de, aos 28 anos, partilhar com o meu ex-marido uma fantasia de ménage à trois com outra mulher. A reacção dele foi de desconforto visível, mudou de assunto, e nunca mais toquei no tema. Guardei aquilo numa gaveta mental e fingi que não existia.

Dez anos depois, separada há dois, comecei a namorar com o Frederico, um informático do Porto. Numa noite de conversa mais íntima sobre desejos, contei-lhe a história da gaveta. Ele ouviu até ao fim, ficou calado um momento, e disse: "Eu também. Como organizamos isto?" Caí a rir. Levou mais três meses de conversas e fronteiras estabelecidas antes de concretizarmos. Conhecemos a Sandra através de uma plataforma online — o tipo de encontro em que há uma honestidade à partida que desarmou todos os nervos.

A experiência foi diferente do que imaginara — mais emotiva, menos acrobática, com muito mais gargalhadas do que o imaginário pornográfico sugere. O que ficou não foi propriamente a memória física mas a sensação de ter sido finalmente honesta comigo própria sobre o que queria. E de ter encontrado um parceiro que não fugiu dessa honestidade.

Jorge, 55 anos, Porto — Redescoberta Depois do Divórcio

Divorciei-me aos 51 anos depois de vinte e dois anos de casamento. Os primeiros dois anos depois foram os mais solitários da minha vida adulta. Não me lembrava de como se encontravam pessoas. O meu círculo social era de casais, e de repente era o intruso solteiro em todos os jantares. As filhas estavam na universidade. Era eu, o apartamento, e o trabalho.

Um colega mais novo insistiu que criasse um perfil numa aplicação de encontros. Achei ridículo — tinha 53 anos, uma fotografia razoável, e zero experiência com aquele formato. A primeira conversa séria foi com uma mulher de 49 anos, separada também. Combinámos jantar. Correu bem. Não fui para a cama com ela nessa noite — não estava pronto, honestamente — mas percebi que era possível começar de novo.

A relação sexual depois do divórcio foi uma surpresa. Esperava sentir-me fora de tempo, desactualizado. O que senti foi o oposto: sem a acumulação de ressentimentos de um casamento longo, havia uma leveza que não recordava ter sentido. Aprendi que o desejo não envelhece da forma que temia. Tenho actualmente uma relação com uma mulher de 52 anos — ambos independentes, ambos com vidas estabelecidas — e é a relação mais equilibrada que tive. Aos 55 anos, finalmente sei o que quero de um parceiro. Levou tempo a saber, mas valeu a pena.

Catarina, 29 anos, Faro — O Encontro Online que Não Era Suposto Acontecer

Criei o perfil numa plataforma de encontros numa noite de sábado de Dezembro, meio a brincar, depois de uma conversa com amigas sobre aplicações. Não esperava encontrar nada de especial — talvez uns matches engraçados para mostrar na segunda-feira. Acabei por trocar mensagens durante três horas com um homem de Tavira, 34 anos, que trabalhava em arquitectura paisagística.

O que me surpreendeu foi a conversa. Não começou com um cumprimento vazio. Ele perguntou o que eu estava a ler. Eu estava com o telemóvel numa mão e um livro na outra e disse-lhe o título. Daí para a frente foi uma troca real. Marcámos café dois dias depois. Café transformou-se em jantar, jantar transformou-se numa caminhada pelo Parque Natural da Ria Formosa às dez da noite em Dezembro, frio moderado, e aquela tensão específica de dois desconhecidos que já não são totalmente desconhecidos.

Ficámos juntos nessa noite. Não era o guião — eu não sou particularmente impulsiva — mas havia ali uma naturalidade que tornou a hesitação estranha. Passámos o Natal e Ano Novo separados, nas respectivas famílias, e reunimo-nos em Janeiro. Durou um ano e meio. Não deu para a vida toda, mas foi intenso e honesto e ensinou-me que os encontros bons raramente chegam como se espera.

Ana, 44 anos, Coimbra — A Relação Aberta que Salvou o Casamento

O meu marido e eu estávamos juntos há catorze anos quando tivemos a conversa mais difícil da nossa vida. Não havia infidelidade, não havia violência — havia um estagnação profunda. A nossa vida sexual tinha minguado para quase zero, e nenhum de nós sabia como reacender aquilo. Começámos terapia de casal, que ajudou em muita coisa, mas não resolvia o problema central: a atracção entre nós tinha mudado de natureza, não desaparecido, mas tornara-se mais fraternal do que erótica.

Foi o terapeuta que, com muita subtileza, colocou o conceito de não-monogamia consensual em cima da mesa. Levou meses de leitura, de conversas, de medos partilhados, de "e se eu me apaixonar por outra pessoa?", "e se tu ficares com ciúmes?", antes de decidirmos tentar. As regras foram negociadas durante semanas: comunicação total, sem mentiras, sem trazer experiências para casa sem acordo prévio, revisão mensal do acordo.

Três anos depois, continuamos casados e continuamos com a relação aberta. Tive dois encontros significativos; o meu marido teve um. Houve momentos difíceis — o ciúme aparece de formas inesperadas, às vezes não é sobre o sexo mas sobre o tempo ou a atenção. Mas o casamento é hoje mais honesto do que alguma vez foi. Recusamo-nos a fingir que um par humano pode ser tudo para o outro durante décadas sem negociação constante. Esta não é a solução para toda a gente — conheço casais para quem foi desastroso. Para nós, foi o que nos manteve juntos de forma genuína.

Miguel, 33 anos, Lisboa — A Noite das Festas de Santo António

Há uma coisa nas Festas de Santo António em Lisboa que as distingue de qualquer outro evento que conheço: a suspensão temporária das regras sociais habituais. Alfama cheia de gente, sardinhas a grelharem em cada esquina, o cheiro a manjerico, e uma permissividade no ar que é quase tangível. Conheço pessoas casadas que tiveram aventuras nas Festas dos Santos Populares que nunca contaram aos cônjuges, e pessoas solteiras que encontraram parceiros que duraram anos.

A minha história passou-se há quatro anos. Tinha 29 anos, estava solteiro há alguns meses depois de um relacionamento longo. Um amigo levou-me a um arraial privado em Alfama — casa de um fotógrafo com um terraço enorme. Conheci ali a Marta, 31 anos, que vivia em Barcelona e estava em Lisboa a visitar a família. Dançámos. Conversámos sobre coisas que normalmente não se dizem a desconhecidos: o que esperamos da vida, o que deixámos para trás, o que ainda não aconteceu.

A noite acabou no seu apartamento alugado perto da Graça, com a janela aberta e o barulho das festas a chegar de baixo. Trocámos números. Escrevámo-nos durante algumas semanas. Nunca mais nos vimos — ela voltou a Barcelona, eu fiquei em Lisboa, e havia vidas a construir em sítios diferentes. Mas há memórias que ficam não pelo que aconteceu mas pelo que representaram num momento específico. Aquela noite representou o fim de um período triste e o começo de me sentir de novo em paz comigo próprio. As Festas de Santo António, para mim, ficaram para sempre associadas a isso.

Reflexão Final

O que estas seis histórias têm em comum não é o enredo — são radicalmente diferentes em contexto, idade, orientação e resultado. O que partilham é a honestidade: a capacidade de fazer escolhas reais em vez de seguir scripts que a sociedade escreve por nós.

A sexualidade portuguesa está a mudar, mais lentamente do que noutros países, mas está a mudar. As gerações mais jovens chegam a estas conversas com menos vergonha e mais ferramentas. As gerações mais velhas estão a aprender, muitas vezes tardiamente, que nunca é demasiado tarde para se conhecerem melhor.

Se tens a tua própria história e procuras um espaço para encontrar pessoas com quem vivê-la honestamente, o EncontrosX é uma plataforma portuguesa dedicada a encontros entre adultos — discreta, verificada, e construída para quem sabe o que quer.

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