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Entrevista: Ex-Acompanhante Reconversão Profissional

P Paula Camargo
22 Apr 2026 9 min leitura 27 visualizacoes
Entrevista: Ex-Acompanhante Reconversão Profissional

Os nomes foram alterados e detalhes biográficos compostos para proteger a privacidade. Esta entrevista é fictícia, baseada em arquétipos profissionais reais.

Há muito mais relatos sobre entrar numa profissão do que sobre sair dela. Quando a profissão é o acompanhamento, essa escassez é ainda mais acentuada. Filipa, 36 anos, aceitou contar a história da saída — como a planeou, como a executou, o que foi mais difícil, e onde está hoje. Trabalhou oito anos como acompanhante independente em Lisboa, parou há dois anos, e vive agora em Cascais, onde trabalha como consultora de bem-estar e tem uma prática de coaching em desenvolvimento. Falámos durante uma tarde inteira.

Os Oito Anos

Filipa, conta-nos brevemente como foram os oito anos de actividade. Não para contextualizar a saída.

Comecei aos 26 anos, recém-chegada a Lisboa de Coimbra, com uma licenciatura em Psicologia que não estava a usar. Os primeiros dois anos foram exploratórios — aprendi como funciona o mercado, construí uma base de clientes regulares, desenvolvi os protocolos de segurança que me mantiveram segura. Do terceiro ao sexto ano foi o período mais estável: trabalhava com consistência, ganhava bem, tinha uma rotina que funcionava. Os últimos dois anos antes de sair foram de transição interna: comecei a sentir que a motivação mudou, que estava a trabalhar por inércia em vez de por escolha activa. Esse é, para mim, o sinal de que é tempo de mudar — quando a escolha se torna hábito irrefletido.

Quando soubeste que era tempo de sair?

Não houve um momento único. Foi um processo de meses em que várias coisas convergiram. O desgaste emocional que antes era gerível foi ficando mais pesado. Um cliente habitual com quem tinha uma boa relação profissional disse-me algo que ficou — "tens um dom para pôr as pessoas à vontade, devias usar isso de outra forma". Não foi um conselho não pedido — foi uma observação genuína. E eu já pensava nisso. Depois comecei uma formação em coaching, primeiro como curiosidade, e percebi que era exactamente o tipo de trabalho que me movia: ajudar pessoas a clarificarem o que querem e a encontrarem o caminho para lá. A saída não foi uma fuga — foi uma escolha para algo melhor.

O Planeamento da Saída

Como planeaste a transição? Foi uma decisão repentina ou houve preparação?

Preparação de quase dois anos. Sabia que queria sair antes de saber exactamente para onde. O primeiro passo foi financeiro: criei um fundo de transição — doze meses de despesas fixas poupados antes de dar o último passo. Isso deu-me a liberdade de não tomar decisões apressadas por pressão económica. O segundo passo foi formativo: terminei a certificação de coaching, fiz uma pós-graduação em Psicologia Positiva na FPCE Lisboa, e comecei a construir um portfólio de conhecimento antes de ter clientes. O terceiro passo foi relacional: fui reconstruindo uma rede profissional "convencional" que, por razões óbvias, não tinha desenvolvido com a mesma intensidade durante os oito anos anteriores.

A parte financeira era realmente uma barreira? Como a geriste durante a actividade?

Fui muito disciplinada nisto desde cedo, por influência de uma colega mais velha que me disse no início: "Trata isto como se fosse acabar amanhã, porque pode acabar amanhã." Contribuí para a Segurança Social como trabalhadora independente durante os oito anos — não sempre o máximo, mas sempre algo. Tinha uma conta poupança separada da conta de uso diário. Não vivi de forma extravagante — apartamento arrendado, carro médio, viagens duas vezes por ano. Isso significava que o fundo de transição de doze meses demorou cerca de dezoito meses a acumular, mas quando saí não tinha pressão financeira imediata. Esse colchão foi o que me permitiu construir a nova actividade sem ansiedade.

Como geriste a questão do currículo? Oito anos com uma lacuna ou com uma categoria vaga?

É a pergunta prática mais difícil. O que usei foi uma combinação de honestidade parcial e enquadramento estratégico. No meu CV, os oito anos aparecem como "prestação de serviços independente na área de acompanhamento social e eventos" — que é tecnicamente correcto. Em entrevistas de emprego, se a pergunta surgiu com mais detalhe, disse que trabalhara de forma independente numa área de serviços pessoais e de acompanhamento, que aprendi muito sobre comunicação interpessoal, sobre gestão de expectativas e sobre a psicologia das relações. As competências são reais e transferíveis. Ninguém aprofundou mais. Em contextos onde o coaching é a actividade principal, a questão do CV não se coloca da mesma forma — o historial relevante é a formação certificada e as referências de clientes actuais.

A Transição Emocional

Como foi a transição a nível emocional? Havia expectativa de alívio, mas também perdas?

As perdas foram reais e surpreenderam-me. Esperava sentir alívio imediato — e houve algum. Mas houve também um vazio que não esperava. A actividade, com toda a sua complexidade, tinha estrutura: sabia o que fazer, era boa nisso, tinha reconhecimento — os clientes que me diziam que a sessão tinha feito diferença para eles. De repente estava a começar do zero numa área onde era principiante. A síndrome do impostor foi intensa nos primeiros seis meses. Quem sou eu para ser coach? Tenho formação, tenho experiência de vida, mas ainda não tenho historial comprovado. Gerir essa insegurança foi o trabalho emocional mais difícil da transição.

O acompanhamento psicológico foi parte do processo?

Essencial. Tenho acompanhamento psicológico desde os anos de actividade, por iniciativa própria. Quando decidi sair, intensifiquei as sessões para quase semanal durante um ano. Ter um espaço seguro para processar tanto a saída como a construção de uma nova identidade profissional foi crucial. Recomendo sem reservas a qualquer pessoa que esteja a gerir uma transição profissional significativa — não apenas nesta área, em qualquer área onde a identidade está muito ligada ao trabalho. A identidade que construímos ao redor de uma profissão não desaparece de um dia para o outro; tem de ser desconstruída e reintegrada conscientemente.

Contaste a pessoas próximas o que fizeste durante esses oito anos? Como é que essa revelação foi gerida?

A pessoas muito próximas, sim. O meu parceiro actual soube antes de ficármos juntos — foi uma condição minha de honestidade desde o início. A minha irmã soube há um ano, quando já estava na nova vida e havia contexto suficiente para a conversa não ser apenas sobre o passado. Os meus pais não sabem e provavelmente nunca saberão — não por vergonha, mas porque não há nada a ganhar e há potencial real de sofrimento para eles. Com amigos, é caso a caso. Já não me escondo, mas também não anuncio. Se a conversa surgir de forma natural e houver confiança suficiente, digo. Se não surgir, não provoco.

A Nova Vida

Em que consiste o teu trabalho actual?

Tenho uma prática de coaching individual focada em transições de carreira e em pessoas que estão a redefinir a sua identidade profissional — o que inclui, mas não se limita a, pessoas em situações semelhantes à minha. Tenho também consultoria de bem-estar para empresas pequenas e médias — workshops sobre comunicação interpessoal, gestão emocional, fronteiras saudáveis. E tenho um projecto de conteúdos online sobre desenvolvimento pessoal que está a crescer lentamente mas de forma consistente. Não ganho ainda o que ganhava nos melhores anos da actividade anterior, mas estou no percurso certo e a diferença vai-se esbatendo.

Que competências dos oito anos de actividade levaste contigo e que são valiosas hoje?

Muitas. A capacidade de ler rapidamente o estado emocional de outra pessoa e adaptar a comunicação — isso é ouro em coaching. A gestão de fronteiras: aprendi a dizer não de forma clara e sem culpa, a estabelecer limites sem hostilidade, a manter acordos. A inteligência emocional desenvolvida em situações de alta intensidade: quando passaste anos a gerir encontros com pessoas em estados emocionais muito variados, o teu calibre de empatia e leitura humana é diferente. E a capacidade de estar completamente presente — que é uma das competências mais difíceis de desenvolver e uma das mais valiosas em qualquer profissão relacional.

O que aconselharias a uma acompanhante que está a considerar sair da profissão?

Primeiro: não saias por pressão de fora — o timing tem de ser teu. Sair porque a família pressiona, porque um parceiro exige, porque sentes vergonha — essas motivações externas não sustentam uma transição saudável. Sair porque escolhes algo diferente é completamente diferente. Segundo: planeia financeiramente antes de sair — um ano de almofada mínimo. Terceiro: começa a construir a próxima vida enquanto ainda estás na actual — formação, rede de contactos, exploração de interesses. Quarto: trata as competências que desenvolveste como reais e transferíveis, porque são. Não precisas de fingir que os oito anos não aconteceram — precisas de traduzir o que aprendeste para linguagem que o mundo convencional reconhece. E quinto: investe em acompanhamento psicológico. A transição de identidade é o trabalho mais difícil e não precisas de o fazer sozinha.

Reflexão Final

Filipa levantou-se para ir quando a tarde já estava a escurecer. Antes de sair, perguntámos se tinha uma última coisa a dizer. Pensou um momento: "O que quero que as pessoas saibam é que sair foi uma escolha de crescimento, não de arrependimento. Sou quem sou por causa de tudo o que vivi — não apesar disso."

É, talvez, a síntese mais honesta que se pode fazer de uma vida pouco convencional navegada com inteligência e intenção.

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