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Entrevista: Criadora OnlyFans Feminina Portugal

P Paula Camargo
20 Apr 2026 9 min leitura 26 visualizacoes
Entrevista: Criadora OnlyFans Feminina Portugal

Os nomes foram alterados e detalhes biográficos compostos para proteger a privacidade. Esta entrevista é fictícia, baseada em arquétipos profissionais reais.

O OnlyFans tornou-se, em poucos anos, uma das plataformas mais lucrativas para criadores de conteúdo adulto no mundo. Em Portugal, o número de criadores activos cresceu significativamente desde 2020, mas raramente se ouvem as suas histórias em primeira pessoa — o que não é surpreendente, considerando os riscos de privacidade. Beatriz, 28 anos, natural do Porto mas residente em Lisboa, aceitou falar connosco sob anonimato. Trabalha como criadora de conteúdo adulto há dois anos, tem uma base de subscritores que considera "confortável", e gere o negócio com uma seriedade empresarial que surpreende quem associa a plataforma apenas a conteúdo espontâneo.

O Começo

Beatriz, como é que chegaste ao OnlyFans?

Tinha acabado de sair de um emprego numa agência de marketing digital onde ganhava 950 euros por mês e trabalhava dez horas por dia. Uma colega que já tinha conta na plataforma mencionou os seus rendimentos ao fim de seis meses. Fiquei em choque — eram mais do que o dobro do que eu ganhava. Passei dois meses a fazer pesquisa séria: lí sobre criadores bem-sucedidos, sobre estratégias de crescimento, sobre os riscos de privacidade, sobre a fiscalidade. Só depois de ter um plano razoável é que criei a conta. Não foi uma decisão impulsiva.

O que descobriste nessa pesquisa que mais te surpreendeu?

A quantidade de trabalho que está por trás do sucesso. A narrativa pública é de que é fácil — tiras umas fotos, poses, e o dinheiro aparece. A realidade é que o OnlyFans é um negócio de conteúdo como qualquer outro, com as mesmas regras: qualidade consistente, comunidade activa, marketing eficaz, e muito trabalho invisível de bastidores. Os criadores que têm sucesso real passam entre quatro a seis horas por dia no negócio — produção de conteúdo, edição, gestão de mensagens, promoção nas redes sociais, análise de dados. É um trabalho a tempo inteiro.

Marketing e Crescimento

Como cresceste a tua base de subscritores? Que estratégias funcionaram?

As redes sociais são a porta de entrada para quase todos os subscritores. Tenho perfis em plataformas que permitem conteúdo sugestivo — Twitter/X, Reddit, algumas outras — onde publico conteúdo gratuito que serve como amostra e direciona para a subscrição paga. A consistência é o factor mais importante: publicar nos mesmos dias, à mesma hora, cria hábito nos seguidores. A segunda estratégia que resultou muito bem foi a interacção directa — responder a comentários, fazer polls sobre que tipo de conteúdo querem, criar um sentido de comunidade. Os subscritores que ficam mais tempo são os que sentem que há uma relação bidireccional.

Quanto tempo demora a construir uma base sustentável?

No meu caso, demorou cerca de oito meses a atingir um rendimento que cobria todas as minhas despesas. Os primeiros três meses foram muito difíceis — pouco retorno pelo muito trabalho. Há um efeito de bola de neve que só começa depois de atingir uma massa crítica de subscritores: eles partilham, recomendam, e o crescimento acelera. Conheço pessoas que desistiram ao fim de três meses porque esperavam resultados mais rápidos. É uma área onde a paciência é realmente uma competência profissional.

Trabalhas com uma agência ou és completamente independente?

Independente, por escolha. Há agências de gestão de OnlyFans em Portugal — ficam com uma percentagem entre 20 e 40 por cento dos rendimentos em troca de gestão de marketing, comunicação com subscritores, e estratégia. Para algumas pessoas faz sentido, especialmente no início. Para mim não fez: tenho o background de marketing, prefiro controlo total, e a comissão que poupei foi o que me permitiu investir em equipamento melhor nos primeiros meses. O trade-off é que trabalho muito mais horas. É uma escolha pessoal.

Privacidade e Segurança

A privacidade é a maior preocupação de quem trabalha nesta área. Como a geres?

Com muita deliberação. Nunca mostro o rosto — é uma decisão que tomei antes de criar a conta e que mantive de forma absoluta. Uso um nome de trabalho completamente diferente do meu nome real. Tenho um número de telefone separado para o negócio. Os pagamentos são geridos através de uma conta bancária separada. As localizações de fotografias e vídeos são sempre neutras — nunca há referências visuais que permitam identificar a cidade ou o bairro. Faço verificações periódicas de imagem invertida para detectar conteúdo que tenha sido partilhado sem autorização — o chamado "leak", que é o maior risco de reputação nesta área.

Já tiveste conteúdo partilhado sem autorização?

Uma vez, num fórum. Detectei através de um alerta automático que configurei, reportei imediatamente à plataforma e o conteúdo foi removido em quarenta e oito horas. Foi stressante, mas o sistema funcionou. O que aprendi com isso é que a detecção precoce é crucial — quanto mais tempo o conteúdo está disponível, mais vezes foi guardado e redistribuído. Há ferramentas de monitorização que vale muito a pena usar. E a decisão de nunca mostrar o rosto foi validada por esta experiência: sem identificação facial, o impacto de um leak é muito mais limitado.

Como é que a tua família e amigos próximos lidam com isto?

A minha família não sabe. Seria demasiado complicado de explicar de forma que não ficassem preocupados, e a minha mãe teria dificuldade em aceitar. Uns cinco amigos próximos sabem — são pessoas em quem confio absolutamente e que receberam bem. A compartimentação é o preço que pago pela privacidade. Não gosto, mas aceito. O que me incomoda mais não é esconder — é a incapacidade de falar abertamente sobre algo em que sou genuinamente boa e de que me orgulho profissionalmente. Se eu fosse gestora de uma startup, poderia mencionar em qualquer jantar de família. Desta forma, não posso. Isso é uma injustiça, mas é a realidade social em que vivemos.

Fiscalidade e Finanças

Como está organizada a tua situação fiscal? É uma área complicada para criadores em Portugal?

É complicada e ainda está a evoluir. Estou nas Finanças como trabalhadora independente, CAE de "actividades de produção de conteúdos digitais", que é o enquadramento mais próximo que existe actualmente. Emito recibos verdes, faço retenções na fonte, contribuo para a Segurança Social. Tenho um contabilista que está especializado em freelancers digitais e que me ajudou a perceber o que declarar e como. O OnlyFans paga em dólares americanos, o que cria uma camada extra de complexidade — taxa de câmbio, declaração de rendimentos no estrangeiro. Há pessoas que não declaram nada; é um risco que não vale a pena correr, especialmente à medida que os rendimentos crescem.

Os rendimentos são estáveis ou muito variáveis?

Variáveis, mas dentro de uma banda que consigo planear. Tenho subscritores mensais que criam uma base previsível. Em cima disso há as mensagens pagas, os conteúdos personalizados — que são o segmento mais lucrativo —, e as propinas que alguns subscritores enviam. Os meses de Dezembro e Janeiro tendem a ser mais fracos, os de Verão surpreendentemente fortes. Aprendi a não gastar o "extra" dos meses bons e a tratá-los como poupança para os meses mais fracos. A instabilidade é o maior desafio de qualquer actividade freelance, e aqui não é excepção.

A Indústria e o Futuro

Como vês a evolução da plataforma e da indústria de criadores adultos em Portugal?

Com atenção. O OnlyFans já tentou uma vez remover conteúdo adulto — voltou atrás depois da reacção dos criadores — mas a dependência de uma única plataforma é um risco real. Diversifico: tenho presença em plataformas alternativas, e tenho uma lista de e-mail dos subscritores mais fiéis para o caso de alguma mudança abrupta. Em Portugal, a indústria de criadores está a crescer mas falta muito suporte: não há comunidade profissional organizada, não há recursos de formação específicos, não há advogados especializados facilmente acessíveis. Funciona muito no método de tentativa e erro e de partilha informal entre criadores. Há uma oportunidade clara para quem queira desenvolver esses serviços de suporte.

Planeias continuar indefinidamente ou há um horizonte de saída?

Tenho um horizonte de três a cinco anos. Nesse período quero ter poupado o suficiente para investir num negócio próprio na área de marketing digital — o que sempre foi o meu interesse profissional. Esta actividade é um meio para esse fim, não o fim em si. A honestidade sobre isso é importante para mim: não me identifico primariamente como "criadora de conteúdo adulto". Identifico-me como alguém com competências de marketing e de negócio que encontrou uma forma incomum de as aplicar durante um período da sua vida. O estigma que existe em volta desta área não me define, mas seria ingénua se dissesse que não existe ou que não tem impacto em escolhas futuras.

O que aconselharias a alguém que está a pensar começar?

Quatro coisas essenciais. Primeiro: investe na privacidade antes de publicar o primeiro conteúdo — depois de publicar é tarde. Segundo: trata isto como um negócio desde o início, com contabilidade, com planeamento, com objectivos mensuráveis. Terceiro: diversifica plataformas desde o primeiro dia para não ficares dependente de uma única empresa cujas políticas podes não controlar. Quarto: pensa na saída antes de entrar — sabe como é que este período da tua vida vai aparecer (ou não) no teu percurso profissional futuro, e tem um plano para essa transição. A impulsividade é o inimigo nesta área. A preparação é tudo.

Reflexão Final

Beatriz revelou mais competência de negócio nesta conversa do que muitos empreendedores que entrevistámos em sectores "convencionais". O que fica desta conversa é o retrato de alguém que escolheu um percurso não convencional com os olhos abertos, que gere os riscos com seriedade, e que se recusa a deixar que o estigma social defina a narrativa da sua própria história.

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