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Entrevista: Criador OnlyFans Masculino em Portugal

P Paula Camargo
17 May 2026 8 min leitura 29 visualizacoes
Entrevista: Criador OnlyFans Masculino em Portugal

Nomes alterados e detalhes biográficos compostos para proteger a privacidade.

A conversa pública sobre criadores de conteúdo adulto em plataformas de subscrição centra-se quase exclusivamente em mulheres. Os criadores masculinos existem, têm audiências variadas e enfrentam desafios específicos que raramente são analisados. Falámos com Diogo M., 27 anos, licenciado em marketing, que há dois anos gere um perfil de criador de conteúdo adulto numa plataforma de subscrição, a par de um trabalho de meio-dia numa agência de comunicação.

O Começo

Como foi a decisão de criar um perfil de criador de conteúdo adulto?

Fiz um cálculo. Tinha o perfil físico, tinha conhecimento de marketing digital — sei como funciona o funil de conversão, SEO de perfis, gestão de redes sociais — e precisava de complementar o rendimento. Vi que havia criadores masculinos com audiências interessantes, principalmente direccionadas a mulheres heterossexuais e a homens gay, e percebi que era um mercado menos saturado do que o feminino. Fiz pesquisa durante um mês sobre o que funcionava, que tipo de conteúdo tinha melhor desempenho, que ferramentas usar para proteger a minha identidade. Lancei o perfil com um investimento mínimo — câmara razoável que já tinha, ring light, um fundo neutro.

Como protegeste a tua identidade desde o início?

É a primeira coisa que qualquer criador deve estabelecer antes de publicar um único conteúdo. Criei um pseudónimo completo sem qualquer ligação ao meu nome real. Nunca mostro o rosto completo nos conteúdos — há um ângulo específico que funciona esteticamente e que não permite identificação. Tenho contas de e-mail e redes sociais separadas associadas ao pseudónimo, com dispositivos diferentes onde possível. Falei com um advogado sobre as implicações legais antes de começar. Essa preparação custou tempo mas nunca tive nenhum problema de identificação não autorizada.

A Audiência

Quem te segue? Tens dados sobre a tua audiência?

As plataformas de subscrição fornecem dados demográficos básicos. A minha audiência divide-se aproximadamente em dois grupos: mulheres entre os 25 e os 45 anos, maioritariamente de países anglófonos — Reino Unido, Estados Unidos, Austrália — e homens gay entre os 20 e os 40, com uma base mais dispersa geograficamente. A audiência portuguesa é pequena — menos de cinco por cento — o que é típico neste mercado: os criadores raramente têm uma audiência grande no seu próprio país, tanto por questões de língua como por questões de proximidade que tornam a descoberta mais arriscada.

Como encontras novos subscritores?

Sobretudo através de redes sociais com perfis de teaser — conteúdo não explícito mas sugestivo — e de colaborações com outros criadores. O Reddit é uma fonte importante para quem sabe navegar as comunidades certas. O Twitter/X foi historicamente o principal canal de promoção para criadores adultos, mas a instabilidade da plataforma nos últimos anos obriga a diversificar. Em Portugal, plataformas como o EncontrosX em Braga têm algum potencial para criadores que querem uma audiência local, embora o meu foco seja principalmente internacional. O SEO do próprio perfil na plataforma — título, descrição, tags — é subestimado pela maioria dos criadores e foi onde o meu background em marketing me deu vantagem real.

A Produção

Como é o processo de produção de conteúdo?

Tenho um calendário editorial semanal. Publico conteúdo regular — fotografias e vídeos curtos — mais conteúdos personalizados a pedido de subscritores que pagam mais. A parte mais trabalhosa não é a produção em si — que leva talvez duas a três horas por semana — mas a gestão da comunicação com subscritores: responder a mensagens, personalizar interacções, gerir expectativas. É essa comunicação que cria retençao e fidelização. Um subscritor que se sente ignorado cancela. Um que recebe atenção genuína fica meses ou anos.

Quanto tempo por semana dedicas a esta actividade?

Entre quinze a vinte horas semanais contando tudo: produção, edição, publicação, gestão de redes sociais de teaser, comunicação com subscritores e contabilidade. É um segundo emprego a tempo parcial. As pessoas que pensam que é uma actividade passiva onde se publica uma fotografia e o dinheiro entra estão completamente enganadas. Os meses em que reduzi o investimento de tempo por excesso de trabalho na agência viram-se imediatamente numa queda de receita.

Finanças

Como funciona a parte financeira e fiscal?

A plataforma paga por transferência internacional — há sempre comissões e conversões cambiais a considerar. Do lado fiscal português, é rendimento de trabalho independente declarado na categoria B. Tenho contabilista, emito recibos verdes, pago IRS e descontos para a Segurança Social. As pessoas que operam neste mercado sem declarar os rendimentos estão a criar um problema que pode aparecer anos depois numa inspecção tributária — os movimentos bancários regulares internacionais têm visibilidade crescente. A formalização deu-me tranquilidade de espírito que vale mais do que a diferença fiscal.

Podes dar uma ideia de escalas de rendimento sem precisar de concretos?

Há uma variância enorme. A maioria dos criadores masculinos com um a dois anos de actividade e sem uma estratégia de marketing definida fica abaixo dos trezentos euros mensais — não é sustentável como actividade principal. Com estratégia, consistência e um nicho bem definido, os duzentos a quinhentos subscritores representam um rendimento complementar interessante. Acima de mil subscritores, começa a ser uma actividade que pode substituir um emprego médio. Eu estou no intervalo intermédio — um bom complemento, não uma substituição.

Estigma e Vida Pessoal

Como geres a separação entre esta actividade e a tua vida pessoal?

Com fronteiras físicas e digitais rígidas. Dispositivos separados, redes separadas, nunca misturar os dois contextos. Na vida pessoal, sabe uma pessoa — a namorada. Não sabe nenhum amigo, não sabe a família. Não é vergonha no sentido de considerar que estou a fazer algo errado — é pragmatismo. O estigma social existe e não tenho energia para o gerir em cada relação. A namorada entrou no relacionamento já com conhecimento e escolheu ficar. Para todos os outros, sou alguém que trabalha em marketing e tem um projecto paralelo na área digital.

Já sentiste o estigma de forma directa?

Não no contexto da identidade real, graças às protecções que montei. Mas no contexto do pseudónimo, sim — há uma assimetria clara nos comentários que criadores masculinos recebem em comparação com criadores femininos. As mulheres são frequentemente objectificadas; os homens são frequentemente ridicularizados ou questionados sobre a sua masculinidade ou orientação sexual. É uma manifestação diferente do mesmo problema: a sexualidade masculina expressa de forma aberta fora dos scripts normativos cria desconforto social que se manifesta em agressividade. Aprendi a não ler comentários de desconhecidos como feedback útil.

O Mercado em Portugal

Como vês o mercado de criação de conteúdo adulto em Portugal especificamente?

Em crescimento mas ainda muito pequeno. Há um número crescente de criadores portugueses — homens e mulheres — mas a maioria opera para audiências internacionais por razões de escala. O público português é pequeno e há uma resistência cultural ao pagamento por conteúdo digital em geral, não só adulto. As plataformas de encontros e de conteúdo adulto português como o EncontrosX em Braga têm um papel diferente — facilitam encontros reais, não subscrições de conteúdo — mas há uma sobreposição de público que os criadores atentos conseguem explorar. Nos próximos cinco anos espero que o mercado de criadores portugueses cresça, sobretudo se houver maturação cultural em torno do que é trabalho criativo digital.

Que conselho darias a alguém que está a considerar entrar nesta área?

Quatro coisas. Primeiro: investe primeiro em proteger a identidade, só depois em produzir conteúdo. Uma fuga de identidade antes de estares preparado pode ter consequências que duram anos. Segundo: trata isso como um negócio desde o primeiro dia — estratégia, calendário, análise de dados, contabilidade. A maioria que falha falha por falta de estrutura, não por falta de conteúdo. Terceiro: escolhe um nicho específico em vez de tentar agradar a toda a gente — a especificidade constrói audiências mais fiéis. Quarto: regula as expectativas financeiras. Demorou-me catorze meses a ter um rendimento que valesse o investimento de tempo. Quem entra à espera de resultados rápidos sai frustrado ao fim de dois meses.

Reflexão Final

A conversa com Diogo M. deixa uma impressão de alguém que fez escolhas informadas e as gere com pragmatismo. "Não é uma actividade glamorosa nem é vergonhosa. É trabalho com características específicas, que exige competências específicas, e que tem riscos específicos. Como qualquer outro."

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