Entrevista: Sexualidade Depois dos 40 com Helena, 52 Anos
Quando pensamos em sexualidade, raramente pensamos em mulheres com mais de 50 anos — e quando pensamos, é quase sempre através de um filtro de declínio e resignação. Helena F., 52 anos, professora de matemática no Alentejo, divorciada há cinco anos, veio desfazer esse mito de forma eloquente. Conhecemo-la numa conversa que começou sobre menopausa e acabou a falar de liberdade.
O nome foi alterado e alguns detalhes biográficos ajustados para proteger a privacidade da entrevistada.
A Vida antes dos 40
Helena, como descreves a tua vida sexual antes dos 40?
Competente, mas pouco explorada. Casei aos 27 anos com o primeiro namorado sério. Tínhamos uma vida sexual regular, afectuosa, sem grandes problemas — mas também sem grande aventura. Nunca me tinha perguntado muito o que queria eu, ao certo. Era o que funcionava para nós dois. Hoje percebo que passei quase vinte anos a ser uma boa parceira sem ser uma boa observadora de mim própria. Não critico o casamento — foi genuíno na maioria do tempo. Mas havia uma Helena por descobrir que eu não sabia que existia.
O divórcio aos 47 foi uma ruptura ou uma libertação?
As duas coisas, em sequência. Durante o primeiro ano foi pura ruptura — o luto de uma vida, de uma identidade. Eu era "a mulher do Carlos", "a mãe da Inês e do Tomás", "a professora de Évora". Sem o casamento, quem era eu? Foi um período difícil. Depois, algures no segundo ano, comecei a sentir algo que nunca esperava: leveza. Podia tomar decisões completamente sozinha. Podia ir jantar fora na terça-feira porque me apetecia. Podia, pela primeira vez na vida adulta, perguntar-me o que é que eu, Helena, gostava em termos de intimidade. Essa pergunta abriu uma porta que ainda não fechei.
A Menopausa
Entraste na menopausa durante este período. Como foi essa experiência?
Comecei com sintomas perimenopáusicos aos 48 — irregularidades no ciclo, suores nocturnos, irritabilidade que me surpreendia a mim própria. A menopausa plena chegou aos 51. Seria fácil pintar isto como um pesadelo, mas a minha experiência foi mais matizada. Os primeiros meses foram difíceis: a secura vaginal foi o sintoma mais impactante na vida sexual, e a fadiga afectou o desejo. Fui ao ginecologista, fiz análises, e comecei terapia hormonal de substituição de baixa dosagem — foi transformador. Não para todas as mulheres, há quem não possa ou não queira, mas para mim resultou muito bem.
Sentiste que os profissionais de saúde te levaram a sério quando falaste de sexualidade na menopausa?
Nem sempre. Há uma tendência para tratar a sexualidade na menopausa como um problema menor — "é normal diminuir", "na sua idade é natural". Essa postura é frustrante e desrespeitadora. A minha ginecologista actual é uma excepção: fala abertamente sobre libido, lubrificação, e a importância do orgasmo para a saúde do pavimento pélvico. Disse-me algo que nunca esqueci: "Usar é a melhor forma de não perder." Estava a falar de função sexual, mas aplicava-se a muita coisa na vida. Acho que as mulheres da minha geração mereciam ter tido essa conversa muito antes.
A Redescoberta
Como foi redescobrir a sexualidade depois do divórcio e da menopausa?
Comecei com o autoconhecimento físico — parece básico, mas nunca me tinha dedicado realmente a isso. Comprei um vibrador aos 48 anos pela primeira vez na vida. Ri-me muito sozinha nesse dia. Comecei a perceber o meu corpo de uma forma nova, sem a pressão de agradar a outra pessoa, sem tempo limite, sem a voz na cabeça a perguntar "estará ele a gostar?" Essa fase foi muito importante — aprendi mais sobre o que me dá prazer nesses meses do que em vinte anos de casamento.
E quando voltaste a ter parceiros?
O primeiro encontro depois do divórcio foi constrangedor, vou ser honesta. Tinha 49 anos e sentia que tinha de re-aprender as regras do jogo. Como se encontravam pessoas hoje? O meu contexto social — Évora, escola, filhos adolescentes — não era propício. Uma amiga convenceu-me a criar um perfil numa plataforma online. Custou-me muito — sentia que era uma coisa para pessoas mais novas. Mas foi através daí que conheci o Paulo, um arquitecto de Lisboa, 55 anos, também divorciado. Ficámos juntos quase dois anos. Foi a relação mais igualitária e mais honesta que tive na vida — talvez porque ambos chegámos a ela já formados, sem precisar de nos moldar ao outro.
O que mudou na forma como abordas a intimidade agora, comparado com antes dos 40?
Tudo. Antes era reactiva — respondia ao que o parceiro propunha. Agora sou activa — sei o que quero, digo o que quero, e não tenho paciência para relações onde a comunicação falha. Antes ficava sem orgasmo e não dizia nada para não "complicar". Hoje se não estou a gostar de algo, digo. Isso parece simples mas foi uma revolução interior. A outra coisa que mudou é a relação com o meu corpo. Tenho celulite, tenho a barriga que a maternidade deixou, tenho os sinais de cinquenta e dois anos. Durante muito tempo isso era motivo de vergonha ou pelo menos de desconforto. Hoje é simplesmente o meu corpo, que funciona muito bem obrigada.
Relacionamentos e Expectativas
Procuras um relacionamento estável ou estás bem como estás?
Estou bem como estou, com abertura para o que vier. Isso é uma postura que nunca teria conseguido ter aos 30. Aos 30, a pressão social — casamento, filhos, casa — era ensurdecedora. Hoje faço o que me apetece. Tenho um encontro ocasional com alguém que vivo na mesma cidade, sem compromisso formal mas com afecto genuíno. Tenho amizades profundas. Os meus filhos são já adultos jovens e temos relações maravilhosas. Seria fantástico encontrar alguém especial para partilhar esta fase — mas não preciso disso para me sentir realizada. Essa distinção entre querer e precisar foi o maior crescimento da minha vida adulta.
O que dirias a mulheres na casa dos 40 que sentem que a sua vida sexual está a declinar?
Diria que é mentira que tem de ser assim. O declínio não é inevitável — é frequentemente o resultado de não investir nesta área da vida, de não falar com os parceiros, de não ir ao médico, de não se autoconhecer. Há mudanças físicas reais que acontecem — a menopausa existe, a lubrificação muda — mas são desafios com soluções, não sentenças. O que mais me arrependo é não ter começado mais cedo a fazer as perguntas certas sobre o que eu queria. Se pudesse dizer algo às mulheres de 40 anos seria: não esperem pelo divórcio ou por uma crise para se descobrirem. Comecem agora. Falem com o parceiro. Falem com o médico. Leiam sobre o tema. O melhor sexo da minha vida aconteceu depois dos 50 — e não estou a exagerar.
Reflexão Final
Helena despediu-se com uma gargalhada quando lhe perguntámos se tinha alguma última coisa a acrescentar: "Digam às mulheres que os cinquenta anos podem ser os melhores anos. Não os mais fáceis — mas os mais livres."
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