Hipogonadismo: Diagnóstico e Terapia de Substituição (TRT)
Este artigo é informativo e não substitui consulta médica. Em caso de sintomas, contacte um urologista ou ligue para a linha SNS 24 (808 24 24 24).
O Que É o Hipogonadismo Masculino?
O hipogonadismo masculino é uma condição clínica definida pela incapacidade dos testículos em produzir quantidades adequadas de testosterona, espermatozóides, ou ambos. Manifesta-se através de uma constelação de sintomas que afectam a saúde física, mental e sexual do homem. Estima-se que afecte entre 2% e 6% dos homens adultos, com prevalência crescente com a idade.
A testosterona é o principal androgénio masculino e desempenha funções cruciais: massa muscular e óssea, libido, função eréctil, humor, energia e cognição. A sua deficiência tem, por isso, consequências amplas e frequentemente subtis que podem ser confundidas com envelhecimento normal.
Tipos de Hipogonadismo
Hipogonadismo Primário (Hipergonadotrófico)
A causa está nos testículos. O hipotálamo e a hipófise funcionam normalmente e produzem LH e FSH em excesso (por feedback negativo), mas os testículos não respondem adequadamente. Causas comuns: síndrome de Klinefelter, orquite vírica (parotidite), traumatismo testicular, criptorquidia não corrigida, quimioterapia ou radioterapia.
Hipogonadismo Secundário (Hipogonadotrófico)
A causa está no hipotálamo ou hipófise, com produção insuficiente de GnRH, LH ou FSH. Consequentemente, os testículos não recebem estímulo adequado. Causas: hiperprolactinemia, adenoma hipofisário, hemocromatose, síndrome de Kallmann, obesidade severa, uso de anabolizantes exógenos.
Hipogonadismo de Início Tardio (Late-Onset)
A forma mais comum no homem adulto. Declínio gradual da testosterona com o envelhecimento, agravado por obesidade, diabetes, doença cardiovascular e sedentarismo. Não é simplesmente consequência da idade — é uma condição tratável.
Sintomas
Os sintomas do hipogonadismo são variados e inespecíficos, o que frequentemente retarda o diagnóstico:
- Diminuição da libido e da frequência de erecções espontâneas
- Disfunção eréctil
- Fadiga persistente e falta de energia
- Diminuição da massa muscular e aumento da gordura visceral
- Osteopenia ou osteoporose
- Humor deprimido, irritabilidade, dificuldade de concentração
- Ginecomastia (desenvolvimento de tecido mamário)
- Redução do volume testicular
- Anemia ligeira
- Sudorese nocturna e afrontamentos (menos comuns)
Diagnóstico
O diagnóstico requer correlação clínico-laboratorial. Não basta um valor baixo de testosterona — é necessário que coexistam sintomas compatíveis.
Avaliação Laboratorial
- Testosterona total sérica: Deve ser colhida entre as 7h e as 11h (pico circadiano). Dois valores baixos em dias diferentes confirmam a deficiência.
- Testosterona livre e SHBG: Importante em casos de obesidade ou doença hepática, onde a SHBG está alterada.
- LH e FSH: Diferenciam hipogonadismo primário de secundário.
- Prolactina: Excluir hiperprolactinemia.
- Hemograma, função renal e hepática, PSA.
Os valores de referência variam entre laboratórios, mas considera-se deficiência de testosterona quando os níveis totais estão abaixo de 300–350 ng/dL (10,4–12,1 nmol/L).
Terapia de Substituição de Testosterona (TRT)
A TRT está indicada quando existe confirmação laboratorial de deficiência de testosterona associada a sintomas clínicos e após exclusão de contra-indicações. O objectivo é restabelecer níveis fisiológicos de testosterona, não suprafisiológicos.
Formas de Administração
- Géis transdérmicos: Aplicação diária na pele (axila, ombro). Cómodos, mas requerem cuidado para evitar transferência a terceiros (especialmente crianças e mulheres grávidas).
- Injecções intramusculares: Undecanoato de testosterona (Nebido) em injecção profunda a cada 10–14 semanas, ou enantato de testosterona de 2 em 2 semanas. Modalidade mais utilizada em Portugal.
- Adesivos transdérmicos: Aplicação nocturna, libertação controlada.
- Pellets subcutâneos: Implantação de pellets de testosterona de libertação lenta (cada 3–6 meses). Menos disponível em Portugal.
Benefícios Esperados
Com TRT adequadamente monitorizada, os doentes reportam tipicamente melhoria da libido, do humor, da energia, da composição corporal (mais músculo, menos gordura) e da função eréctil. A recuperação é gradual — os efeitos plenos surgem entre 3 e 6 meses após o início do tratamento.
Riscos e Contra-indicações
A TRT não é isenta de riscos. As principais preocupações incluem:
- Policitemia: Aumento do hematócrito, que aumenta o risco trombótico. Monitorização regular obrigatória.
- Supressão da espermatogénese: A TRT exógena suprime o eixo hipotálamo-hipófise-testículo e reduz ou elimina a produção de espermatozóides. Contra-indicada em homens que desejam fertilidade.
- Cancro da próstata: Contra-indicação absoluta em cancro da próstata activo não tratado. PSA deve ser monitorizado durante a TRT.
- Apneia do sono: Pode agravar apneia obstrutiva.
- Ginecomastia: Por conversão periférica a estrogénios.
TRT e Fertilidade
A TRT suprime a produção endógena de testosterona e a espermatogénese. Homens que pretendam ter filhos devem optar por alternativas que estimulem a produção testicular endógena, como gonadorelina, gonadotrofinas (hCG, FSH) ou clomifeno — sempre sob orientação médica especializada.
Impacto na Vida Sexual
A recuperação da libido e da função eréctil é frequentemente o primeiro benefício percepcionado pelos doentes. Para homens em Faro que atravessam o período de ajuste hormonal, o contacto com acompanhantes em Faro pode ajudar a explorar gradualmente o retorno à intimidade física e emocional.
Quando Consultar
Consulte o seu médico de família ou um endocrinologista/urologista se apresentar vários dos sintomas descritos, especialmente fadiga persistente, diminuição da libido e perda de massa muscular sem causa aparente. O diagnóstico é simples — uma análise ao sangue de manhã — e o tratamento pode transformar a qualidade de vida.
Perguntas Frequentes
A TRT é para toda a vida?
No hipogonadismo primário, geralmente sim. No hipogonadismo secundário ou de início tardio, pode ser possível descontinuar após correcção das causas (perda de peso, tratamento de hiperprolactinemia, etc.).
Posso fazer TRT e manter a fertilidade?
Não directamente com TRT convencional. Existem alternativas que estimulam a produção endógena de testosterona sem suprimir a espermatogénese. Consulte um urologista ou endocrinologista.
A TRT aumenta o risco de cancro da próstata?
A evidência actual não suporta um aumento do risco em homens sem cancro pré-existente. Contudo, o PSA deve ser monitorizado anualmente durante a TRT.
Quanto tempo até sentir os efeitos da TRT?
A libido e o humor melhoram geralmente nas primeiras 3–6 semanas. A composição corporal e a função eréctil demoram 3–6 meses. Os efeitos ósseos requerem mais de 1 ano.
A TRT é comparticipada em Portugal?
Algumas formulações (como o undecanoato injectável) têm comparticipação parcial no SNS. Os géis transdérmicos têm comparticipação mais variável. Consulte o médico assistente.
É possível fazer TRT com médico de família?
O diagnóstico pode ser iniciado pelo médico de família, mas a TRT é geralmente prescrita e monitorizada por endocrinologista ou urologista com experiência nesta área.
Referências
- Mayo Clinic (2025). Male hypogonadism — Symptoms and causes. mayoclinic.org
- NHS UK (2024). Male hypogonadism. nhs.uk
- PubMed / NCBI (2024). Testosterone replacement therapy — clinical guidelines review. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
- DGS — Direcção-Geral da Saúde (2024). Saúde do Homem — Programas de Rastreio. dgs.pt
- WHO (2023). Men's health — Hormonal disorders. who.int