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Imprensa Adulta Portuguesa Anos 60-80

P Paula Camargo
04 Jun 2026 8 min leitura 9 visualizacoes
Imprensa Adulta Portuguesa Anos 60-80

A história da imprensa periódica em Portugal inclui um capítulo raramente estudado com o rigor que merece: a evolução das publicações que abordavam, explícita ou implicitamente, a sexualidade — desde as revistas femininas que navegavam os limites da censura estado-novista até às publicações eróticas que floresceram após o 25 de Abril de 1974 e à eventual legalização da pornografia em 1979. Este percurso documenta não apenas uma história de publicações mas uma transformação cultural de largo espectro na sociedade portuguesa do terceiro quartel do século XX.

A Censura do Estado Novo e a Imprensa

A ditadura do Estado Novo (1933-1974) manteve um sistema de censura prévia sobre toda a imprensa periódica durante décadas. A Direcção dos Serviços de Censura, conhecida popularmente como o "lápis azul" pelo instrumento com que os censores riscavam o texto proibido, exercia uma vigilância sistemática sobre o conteúdo editorial de jornais e revistas. As questões sexuais eram um dos domínios mais sensíveis: qualquer referência explícita à sexualidade, ao corpo feminino ou a temáticas como o adultério ou o divórcio devia ser aprovada pela censura ou era simplesmente proibida.

O Diário de Notícias e outros jornais de referência operavam sob esta vigilância constante, produzindo um jornalismo que evitava sistematicamente qualquer abordagem frontal das questões sexuais. A cobertura noticiosa de crimes sexuais seguia um código de linguagem eufemística — "ultraje ao pudor", "ofensa à moral pública" — que tornava os textos quase incompreensíveis para o leitor contemporâneo mas era perfeitamente compreendido pelo público da época.

As revistas femininas portuguesas dos anos 1950-60, como a Crónica Feminina (fundada em 1958), navegavam com cuidado entre o interesse das suas leitoras por temáticas de relacionamento, beleza e sexualidade implícita e os limites impostos pela censura. A Crónica Feminina desenvolveu ao longo dos anos uma linguagem editorial que abordava questões de relacionamento de forma suficientemente velada para passar pela censura mas suficientemente clara para as leitoras — um equilíbrio que exigia habilidade editorial considerável. Com a Revolução, a revista reinventou-se e passou a abordar directamente temas antes proibidos.

A Revista Eros e as Publicações de Fronteira

Antes do 25 de Abril, a imprensa periódica com conteúdo erótico explícito era simplesmente inexistente em Portugal, uma das diferenças mais marcantes face a países como a França ou a Alemanha onde revistas eróticas circulavam legalmente há décadas. As publicações importadas eram apreendidas nas alfândegas e a venda de material pornográfico era crime.

A revista Eros, lançada nos anos imediatamente anteriores ao 25 de Abril numa zona de ambiguidade que a censura tardia de Marcello Caetano (1968-1974) permitia com mais tolerância do que o salazarismo clássico, foi uma das primeiras publicações portuguesas a abordar explicitamente a sexualidade. O seu conteúdo mantinha-se dentro de limites aceitáveis para a censura — fotografia de moda com nudez parcial, artigos sobre relacionamento, colunas de consultório sentimental — mas sinalizava uma abertura que reflectia a liberalização relativa do marcelismo.

A circulação de publicações estrangeiras — revistas francesas, alemãs e italianas com conteúdo mais explícito — era tolerada de forma crescentemente laxa nos últimos anos do Estado Novo, criando uma dupla realidade: a imprensa doméstica censurada e o mercado paralelo de publicações importadas que circulavam em determinados quiosques e livrarias de Lisboa e Porto.

A Revolução de Abril e a Explosão Editorial

O 25 de Abril de 1974 eliminou a censura prévia de um dia para o outro. A Constituição de 1976 consagrou a liberdade de imprensa e expressão como direito fundamental. O resultado foi uma explosão editorial sem precedentes em Portugal, que incluiu uma proliferação de publicações com conteúdo erótico e sexual que o público português, privado durante décadas, absorveu com grande avidez.

A revista Maria, lançada em 1978 pelo grupo Impresa, representou um novo modelo de revista feminina que abordava directamente a sexualidade feminina, o prazer, o corpo e os relacionamentos sem os constrangimentos da censura. A Maria tornou-se uma das publicações de maior circulação em Portugal nas décadas seguintes e contribuiu de forma significativa para a transformação das representações públicas da sexualidade feminina na sociedade portuguesa.

A Cabeça-no-Ar, lançada no período pós-revolucionário com um perfil mais irreverente e assumidamente erótico do que a Maria, representava o flanco mais explícito da nova imprensa feminina. Outras publicações do período — muitas delas efémeras — exploravam as novas liberdades editoriais num mercado que estava simultaneamente a descobrir a liberdade de imprensa e a desenvolver os seus mecanismos de autorregulação.

A Legalização da Pornografia em 1979

A legalização da pornografia em 1979 foi um passo que distinguiu Portugal de muitos outros países europeus com democracias mais antigas. O diploma legal enquadrou juridicamente a produção e distribuição de material pornográfico para adultos, estabelecendo mecanismos de controlo de acesso por menores e criando o quadro legal dentro do qual funcionariam nas décadas seguintes os sex shops, as livrarias para adultos e, mais tarde, os clubes de alterne e outras actividades relacionadas com a indústria do sexo.

Este enquadramento legal foi relativamente progressista no contexto europeu da época. A produção doméstica de material pornográfico em Portugal manteve-se muito limitada nas décadas seguintes, mas a importação e distribuição de material estrangeiro cresceu rapidamente, alimentada pela penetração dos videocassetes nos lares portugueses nos anos 1980.

O Mercado da Imprensa Erótica nos Anos 80

Nos anos 1980, Portugal dispunha de um mercado de imprensa erótica relativamente desenvolvido para os padrões da época, com publicações que cobriam desde o erotismo soft até conteúdo mais explícito. A censura dos costumes, exercida agora através de mecanismos de regulação de mercado e de acesso por menores em vez da censura prévia estatal, delimitava o espaço editorialmente possível.

Os quiosques de Lisboa e Porto dos anos 1980 exibiam uma variedade de publicações eróticas importadas e domésticas que teria sido impensável uma década antes. A transformação era tanto cultural como comercial: a sexualidade tornara-se um produto editorial legítimo e a imprensa portuguesa tinha integrado plenamente esta realidade no seu ecossistema.

A história desta imprensa, com as suas publicações muitas vezes efémeras e os seus percursos editoriais frequentemente esquecidos, constitui uma fonte primária importante para a história cultural e social de Portugal na segunda metade do século XX. O Arquivo Público do Estado, as colecções da Biblioteca Nacional e o acervo da Hemeroteca Municipal de Lisboa conservam exemplares que permitem reconstituir este percurso.

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Perguntas Frequentes

Como funcionava a censura à imprensa no Estado Novo?

A censura prévia obrigava os jornais e revistas a submeter o conteúdo a revisão antes da publicação. Os censores da Direcção dos Serviços de Censura riscavam com lápis azul os textos não autorizados. As questões sexuais eram particularmente sensíveis e qualquer abordagem explícita da sexualidade era sistematicamente eliminada.

Quando foi legalizada a pornografia em Portugal?

A pornografia para adultos foi legalizada em Portugal em 1979, através de legislação que enquadrou juridicamente a produção e distribuição de material pornográfico e estabeleceu mecanismos de controlo de acesso por menores. Este enquadramento legal foi relativamente progressista no contexto europeu da época.

O que foi a revista Crónica Feminina?

A Crónica Feminina foi uma revista feminina portuguesa fundada em 1958 que navegou habilmente os limites da censura estado-novista, abordando questões de relacionamento e sexualidade implícita de forma suficientemente velada para passar pela censura mas compreensível para as leitoras. Após o 25 de Abril, reinventou-se e passou a abordar directamente os temas anteriormente proibidos.

Qual o impacto do 25 de Abril na imprensa portuguesa?

A eliminação imediata da censura prévia após o 25 de Abril de 1974 desencadeou uma explosão editorial sem precedentes. A Constituição de 1976 consagrou a liberdade de imprensa. O resultado incluiu uma proliferação de publicações com conteúdo erótico e sexual, incluindo revistas como a Maria e a Cabeça-no-Ar, que transformaram a representação pública da sexualidade em Portugal.

Onde se podem encontrar exemplares de publicações eróticas portuguesas dos anos 70-80?

O acervo da Hemeroteca Municipal de Lisboa, as colecções da Biblioteca Nacional de Portugal e o Arquivo Público do Estado conservam exemplares de publicações periódicas do período, incluindo publicações de conteúdo erótico. O acesso é académico e sujeito às condições normais de consulta de fundo histórico.

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