Saúde & Vida Sexual

Linfogranuloma Venéreo (LGV): Guia Completo

P Paula Camargo
17 Jun 2026 7 min leitura 14 visualizacoes
Linfogranuloma Venéreo (LGV): Guia Completo

Este artigo é informativo e não substitui consulta médica especializada. Em caso de sintomas, contacte o seu médico ou ligue para SNS 24 (808 24 24 24).

O Que É o Linfogranuloma Venéreo

O linfogranuloma venéreo (LGV) é uma infecção sexualmente transmissível (IST) causada pelos serovares L1, L2 e L3 de Chlamydia trachomatis. Estes serovares invasivos distinguem-se dos serovares D-K responsáveis pela clamídia urogenital habitual pela sua capacidade de penetrar profundamente nos tecidos linfáticos, causando linfangite e granulomas destrutivos nos gânglios linfáticos regionais.

Historicamente considerada uma IST tropical (endémica em África subsariana, Ásia do Sudeste e América Latina), o LGV registou um ressurgimento epidémico na Europa a partir de 2003, com surtos documentados em redes de homens que têm sexo com homens (HSH), frequentemente co-infectados com o VIH. Em Portugal, tal como em outros países da União Europeia, os casos de LGV têm aumentado progressivamente, com o Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC) a classificá-lo como uma IST emergente de saúde pública na Europa. O LGV é de declaração obrigatória em Portugal.

Fases Clínicas do LGV

Fase Primária

A lesão inicial surge no local de inoculação — genitais, recto ou faringe — 3 a 30 dias após a exposição. Manifesta-se como uma pequena pápula ou vesícula que evolui para úlcera superficial. Esta lesão primária é tipicamente indolor, de dimensões reduzidas e cura espontaneamente em poucos dias, passando frequentemente despercebida. É precisamente esta fase "silenciosa" que contribui para o atraso diagnóstico e para a transmissão inadvertida.

Fase Secundária

Duas a seis semanas após a lesão primária, os serovares L1-L3 disseminam pelos vasos linfáticos para os gânglios regionais, causando as manifestações mais características do LGV:

  • Síndrome inguinal (em infecções genitais): Adenopatia inguinal unilateral dolorosa, com gânglios que confluem em massa palpável ("bubão"). O sinal do sulco (groove sign) — adenopatia inguinal e femoral separada pelo ligamento inguinal — é patognomónico quando presente. Os bubões podem fistulizar, drenando pus através de múltiplos trajéctos.
  • Síndrome anorrectal (em infecções rectais, predominante nos HSH): Proctocolite grave com dor rectal intensa, tenesmo, descarga mucopurulenta ou hemorrágica, obstipação e, nos casos mais graves, úlceras rectais profundas. Esta apresentação é frequentemente confundida com doença inflamatória intestinal (DII) — nomeadamente doença de Crohn — o que atrasa significativamente o diagnóstico correcto.
  • Sintomas sistémicos: febre, mal-estar, artralgia, podem acompanhar a fase secundária.

Em Lisboa e noutras cidades portuguesas, a apresentação com proctite grave em HSH deve levantar imediatamente a hipótese de LGV, especialmente em doentes com história de sexo anal receptivo sem preservativo. Para quem procura informação sobre práticas sexuais seguras em Lisboa, os recursos disponíveis em plataformas como acompanhantes em Lisboa que promovem comportamentos de prevenção são um complemento informativo.

Fase Terciária

Se não tratado, o LGV pode evoluir para a fase crónica — meses a anos após a infecção inicial — com destruição progressiva dos tecidos linfáticos e complicações graves:

  • Elefantíase genital: Por fibrose linfática crónica, com edema progressivo e deformação dos genitais externos.
  • Estenose rectal: Estreitamento cicatricial do recto por fibrose, que pode progredir para suboclusão intestinal e requerer intervenção cirúrgica.
  • Fístulas anorrectais e rectovaginais: Complicações devastadoras que afectam profundamente a qualidade de vida e a função sexual.

Diagnóstico

O diagnóstico laboratorial do LGV requer a distinção entre serovares L1-L3 e os serovares D-K de Chlamydia trachomatis. O método de referência é a genotipagem por PCR de amostras rectais (zaragatoa rectal) ou de aspirado de bubão. Muitos laboratórios de rotina detectam apenas a presença de C. trachomatis mas não distinguem os serovares — pelo que é essencial solicitar especificamente a genotipagem LGV quando existe suspeita clínica.

A colheita de amostras deve ser orientada pela localização das lesões: zaragatoa rectal em casos com proctite, aspirado de bubão na síndrome inguinal, e serologia para C. trachomatis (títulos elevados são característicos do LGV). A endoscopia rectal pode revelar úlceras, friabilidade mucosa e exsudado — lesões que mimetizam a doença de Crohn, enfatizando a importância do diagnóstico diferencial microbiológico.

Em todos os casos de LGV, a rastreagem do VIH, da sífilis e da gonorreia é obrigatória, dada a elevada prevalência de co-infecções. A notificação às autoridades de saúde pública é legalmente obrigatória em Portugal.

Tratamento

O LGV requer antibioterapia prolongada. A doxiciclina durante 3 semanas é o tratamento de primeira linha recomendado pelo CDC, pela OMS e pelo ECDC para todas as formas de LGV. A duração mínima de 21 dias é fundamental para erradicar o organismo intracelular dos tecidos linfáticos profundos. Esquemas mais curtos estão associados a taxas de recidiva mais elevadas. A azitromicina em esquema semanal é uma alternativa com menor evidência de eficácia para o LGV. A prescrição e o seguimento terapêutico são da exclusiva responsabilidade do médico assistente.

Os parceiros sexuais dos últimos 60 dias devem ser identificados, avaliados e tratados. Os bubões flutuantes podem necessitar de drenagem por aspiração (não incisão cirúrgica, que pode criar trajéctos fistulosos). A resposta ao tratamento é monitorizada clinicamente e por PCR de controlo.

LGV e Saúde Pública em Portugal

O LGV em Portugal afecta predominantemente HSH em contextos urbanos. A co-infecção com VIH é muito frequente (>70% dos casos reportados em alguns estudos europeus). As redes de rastreagem de ISTs disponíveis em Portugal — nomeadamente nos centros de aconselhamento e detecção do VIH (CAD) e nas consultas de doenças infecciosas — são fundamentais para o diagnóstico precoce. Para pessoas sexualmente activas em Lisboa que procuram serviços que promovem saúde sexual, os recursos disponíveis em plataformas como acompanhantes disponíveis em Lisboa que incentivam o rastreamento regular são um complemento preventivo.

Prevenção

  • Uso consistente do preservativo em sexo anal, vaginal e oral.
  • Rastreagem regular de ISTs — incluindo Chlamydia trachomatis com genotipagem LGV — em HSH com múltiplos parceiros, com frequência mínima trimestral.
  • Profilaxia pré-exposição ao VIH (PrEP) em populações de alto risco, com acompanhamento médico regular que inclua rastreagem de outras ISTs.
  • Doxiciclina pós-exposição (Doxy-PEP) — estratégia emergente cuja eficácia na prevenção de LGV e outras ISTs bacterianas está a ser avaliada em estudos clínicos. Consultar médico especialista antes de utilizar.

Referências

  1. CDC (2021). Lymphogranuloma Venereum (LGV) — 2021 Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines. Centers for Disease Control and Prevention. cdc.gov
  2. WHO (2021). Guidelines for the management of symptomatic sexually transmitted infections. World Health Organization. who.int
  3. ECDC (2023). Lymphogranuloma venereum — Annual Epidemiological Report. European Centre for Disease Prevention and Control. ecdc.europa.eu
  4. PubMed / National Library of Medicine (2023). Pesquisa: lymphogranuloma venereum Chlamydia trachomatis L2 proctitis MSM Europe. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  5. INSA — Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (2024). Vigilância Epidemiológica de ISTs em Portugal — Dados e Tendências. insa.min-saude.pt
Partilhar:

Artigos Relacionados

Pós-Parto: Quando Retomar a Vida Sexual

Pós-Parto: Quando Retomar a Vida Sexual

O período pós-parto traz mudanças físicas e emocionais que afectam a vida sexual. Saiba quando é seguro retomar, os desafios mais comuns e como navegar esta fase.

Legalidade do CBD em Portugal 2026: Guia

Legalidade do CBD em Portugal 2026: Guia

CBD, canábis medicinal e THC têm estatutos legais diferentes em Portugal. Este guia de 2026 clarifica o que é legal, o que exige prescrição e o que continua controlado.