O Artista e a Musa: Pinceladas de Desejo
O atelier de Xavier ficava no último andar de um prédio em Santos, com uma claraboia que deixava entrar a luz perfeita para pintar. As paredes estavam cobertas de telas — retratos, paisagens, abstrações — mas o cavalete no centro da sala estava vazio há meses. Xavier não pintava desde que a última exposição fracassara, e o bloqueio criativo era tão denso quanto as camadas de tinta seca nas paletas.
Margarida apareceu por acaso. Era actriz — teatro, não televisão — e procurava alguém para pintar um cenário. Uma amiga comum deu-lhe o contacto, e ela subiu as escadas do prédio sem saber que ia mudar a vida de alguém.
Quando Xavier abriu a porta e a viu, sentiu algo que não sentia há meses: vontade de pintar. Não pelo rosto dela — embora fosse bonito, com olhos verdes e maçãs do rosto altas — mas pela forma como a luz da claraboia a iluminava, criando sombras que ele queria captar antes que desaparecessem.
— Posso pintar-te? — perguntou, antes mesmo de dizer olá.
Margarida, habituada à excentricidade dos artistas, concordou. Voltou no dia seguinte, e no seguinte. As sessões começaram formais — ela sentada numa cadeira, vestida, a ler guiões enquanto ele pintava. Mas à medida que os dias passavam, a formalidade dissolvia-se como tinta em aguarrás.
Xavier pedia-lhe para mudar de posição constantemente. "Vira a cabeça para a esquerda." "Fecha os olhos." "Pensa em algo que te faça sorrir." E Margarida obedecia, e cada instrução era uma forma de intimidade, uma invasão consentida do espaço pessoal.
Na quinta sessão, ele pediu-lhe para soltar o cabelo. Na sexta, para tirar os sapatos. Na sétima, após uma pausa longa, disse:
— Preciso de pintar a tua pele. A luz muda quando o tecido se interpõe.
Margarida olhou para ele — para os olhos escuros que a estudavam com a mesma intensidade com que estudavam uma tela — e começou a desabotoar a blusa. Devagar, sem desviar o olhar, como se despir-se fosse uma cena numa peça e ela fosse a protagonista.
Xavier pintou como possuído. O pincel voava na tela, misturando cores com uma urgência que não tinha há meses. Margarida, seminua sob a luz da claraboia, sentia o olhar dele como um toque — percorrendo-lhe os ombros, a curva dos seios, a linha da cintura — e cada passagem do olhar deixava um rasto de calor.
— Mexe-te — pediu ele subitamente. — Não fiques parada. Quero pintar o movimento.
Margarida levantou-se e moveu-se pelo atelier como se dançasse. A actriz dentro dela emergiu — cada gesto era expressão, cada pausa era dramaturgia. Xavier largou os pincéis e pegou no carvão, desenhando-a em traços rápidos, capturando o movimento, a energia, a vida.
Quando ela parou à frente dele, ofegante da dança, os rostos ficaram a centímetros. As mãos dele — sujas de tinta e carvão — tocaram-lhe o rosto, deixando marcas nos malares que pareciam maquilhagem tribal.
— Estou a sujar-te — disse ele.
— Não me importo — respondeu ela.
Beijaram-se com mãos sujas de arte. Xavier deixou marcas de tinta no corpo dela — azul no ombro, ocre na cintura, carmesim no peito — e cada marca era uma assinatura, uma reivindicação. Margarida tornou-se a tela, e ele pintou-a com as mãos, com os lábios, com o corpo.
Amaram-se no chão do atelier, entre tubos de tinta e pincéis espalhados, com a luz da claraboia a banhá-los como um holofote teatral. Os corpos misturaram-se com as cores — pele e tinta, suor e aguarrás, gemidos e o som húmido dos pincéis que caíam do cavalete com cada embate.
Depois, Xavier olhou para Margarida — deitada, coberta de marcas de cor, com um sorriso satisfeito — e soube que tinha encontrado o que procurava. Não era uma musa. Era a razão para pintar.
O quadro que nasceu daquela sessão — um nu abstracto em tons de azul e carmesim — foi a peça central da sua exposição seguinte. Vendeu no primeiro dia. Mas Xavier nunca o teria vendido se Margarida lho pedisse.
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