Conto Erótico: O Role-Play
A ideia surgiu de uma conversa banal sobre filmes. Estavam os dois no sofá depois do jantar, a discutir um thriller que tinham visto — Vera e Afonso, três anos juntos, a vida doméstica bem oleada mas com uma área de experimentação que ainda não tinham muito explorado. Vera dissera que achava interessante como os actores habitavam personagens completamente diferentes de si próprios. Afonso dissera, sem grande planificação: — Alguma vez pensaste em fazer isso comigo?
Vera olhou para ele com atenção. — Tipo como?
— Inventarmos personagens. Uma situação. Ver onde vai.
Havia na ideia algo que a agradava e algo que a intimidava — o agradável era a criatividade, o intimidante era a vulnerabilidade de jogar sem saber exactamente as regras. Mas a confiança nos três anos que tinham era suficiente para arriscar. — Precisamos de um guião ou inventamos?
— Inventamos — disse ele. — É mais divertido.
A Personagem que Revela
Combinaram um cenário simples: desconhecidos num bar, ela era correspondente internacional de passagem em Lisboa, ele era o dono do bar que fechava tarde. As personagens eram apenas variações amplificadas de coisas reais — a Vera mais aventureira do que a vida permitia, o Afonso mais misterioso do que o quotidiano deixava ser.
O que descobriram ao jogar — e isto surpreendeu-os a ambos — é que as personagens revelavam aspectos reais de si próprios que a vida estruturada não dava muito espaço. A Vera-correspondente era mais directa no que queria. O Afonso-dono-do-bar era mais contemplativo e menos apressado. E havia naquelas versões amplificadas uma verdade que as versões quotidianas continham mas não expressavam.
— Podes chamar-me Sofia esta noite — disse Vera, dentro do jogo, com uma voz ligeiramente diferente da habitual.
— Sofia — repetiu ele, como se fosse a primeira vez que ouvia o nome. — O que te trouxe a Lisboa?
A Fronteira que Existe para Ser Cruzada
O jogo tinha a qualidade do improviso teatral — cada resposta abria possibilidades, cada escolha definia o que vinha a seguir. E quando a ficção deu lugar à realidade — porque inevitavelmente dá, porque eles eram eles por baixo de tudo — foi com uma suavidade que tornava a transição quase imperceptível.
De manhã, no café, Afonso perguntou: — Como foi para ti?
Vera pensou durante um momento. — Descobri coisas que não sabia que queria. — Pausa. — Isso é bom ou mau?
— É óptimo — disse ele. — Significa que podemos continuar a descobrir.
Jogar a ser outra pessoa com alguém em quem confias é uma das formas mais criativas de te conheceres a ti próprio. Vera e Afonso repetiram o jogo — com personagens diferentes, cenários diferentes — e cada vez encontravam territórios novos que eram, afinal, sempre seus.
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