Conto Erótico: Férias Proibidas no Algarve
Beatriz tinha chegado à Praia da Bordeira com um saco cheio de livros e a determinação de não falar com ninguém durante cinco dias. Tinha saído de Lisboa com a sensação de que precisava de ar — não o ar da cidade nem o ar condicionado dos escritórios, mas ar verdadeiro, o tipo que cheira a sal e alecrim e que o Algarve guarda no Sudoeste de forma que o resto do país não consegue imitar. Alugara uma casa pequena perto dos penhascos, tinha víveres para a semana, e tinha a clareza de quem tomou uma boa decisão.
A praia da Bordeira tem aquela qualidade de grandiosidade que o Sudoeste algarvio especialmente possui — vasta, deserta, com dunas altas e um vento que no verão ainda é suave mas que carrega já a memória do inverno. Beatriz chegava cedo, ficava horas, lia pouco porque o horizonte era mais interessante do que qualquer livro.
O Encontro
Martim apareceu na praia ao terceiro dia, no início da tarde. Era evidente que também estava ali sozinho — tinha o mesmo ritmo descuidado de quem não tem a quem dar satisfações, o mesmo olhar voltado para a água sem urgência. Ficou a uma distância respeitável, nadou, voltou a deitar-se, dormiu talvez. Beatriz reparou nele com a periferalidade com que se repara nas coisas que não se quer analisar demasiado.
No dia seguinte estava na mesma zona da praia. E no dia depois. No quarto dia, quando ela passou perto de onde ele estava para ir ao mar, ele disse-lhe algo sobre a maré — um pormenor prático, a corrente no lado direito — e ela agradeceu com a abertura de quem recebe informação útil. Quando regressou da água, parou um momento. Começaram a falar.
Martim era de Braga, tinha quarenta anos, trabalhava em gestão de empresas e estava ali pela mesma razão vaga que a maior parte das pessoas dá para as férias sozinho: para descomprimir. Havia nele uma serenidade que não era indiferença — uma espécie de paz activa, como de alguém que chegou a um ponto de resolução com a própria vida sem que isso o tornasse inerte.
As Noites do Sudoeste
O Algarve de verão tem noites que são feitas de outra substância — quentes até tarde, cheias do barulho dos grilos, com céus que nas áreas sem luz artificial têm uma profundidade que as cidades apagaram. Beatriz e Martim jantaram na primeira noite numa tasca do Carrapateira, na segunda na casa dela com peixe comprado na vila.
Havia entre eles a leveza específica dos encontros que não têm passado comum nem futuro previsto — apenas o presente das férias, com a sua permissão implícita para ser outra versão de si próprio, menos guardada, mais permeável. As conversas foram para onde as conversas de praia vão: sobre o que importa, sobre o que se falhou, sobre o que se quer ainda.
O Quinto Dia
No quinto dia, Beatriz acordou cedo e foi sozinha à praia ver o nascer do sol. A luz entrava pelo Atlântico com aquela cor que não existe em nenhum outro lugar exactamente da mesma forma — rosa e ouro sobre o oceano escuro, e a areia ainda fria sob os pés.
Martim chegou vinte minutos depois, com dois cafés em copos de papel. Sentaram-se nas dunas e ficaram em silêncio durante muito tempo, com Lisboa e Braga e as vidas respectivas algures muito longe. Havia o Algarve e o oceano e a forma como a luz muda de minuto a minuto até tudo ficar dourado e comum.
Era exactamente o que as férias deviam ser.
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