O Chef e a Crítica: Sabores e Tentações
O restaurante chamava-se Maré e ficava num primeiro andar na Rua do Alecrim, com vista para o Tejo. Tinha uma estrela Michelin, lista de espera de três meses, e um chef que era tão famoso pelo talento quanto pelo temperamento. Gabriela, crítica gastronómica do jornal mais lido do país, estava prestes a descobrir ambos.
A reserva foi feita com nome falso — os críticos sérios nunca se anunciam. Sentou-se numa mesa discreta ao canto, pediu o menu de degustação e preparou-se para ser surpreendida ou desiludida. O primeiro prato — uma ostra com espuma de limão e pimenta rosa — foi surpreendente. O segundo — polvo grelhado sobre puré de batata-doce fumada — foi revelador. Ao quinto prato, Gabriela sabia que estava perante algo especial.
Pediu para falar com o chef. O empregado hesitou — o chef Rodrigo não gostava de ser interrompido — mas Gabriela insistiu. Minutos depois, ele apareceu: alto, de avental sujo, com as mangas arregaçadas e uma expressão que misturava curiosidade e impaciência.
— O seu polvo — começou ela — é a melhor coisa que comi este ano.
Ele ergueu uma sobrancelha. — E quem é a senhora para me dizer isso?
— Gabriela Neves. Coluna gastronómica do Expresso.
A expressão dele mudou — não para bajulação, mas para alerta. Sentou-se na cadeira à frente dela sem ser convidado e cruzou os braços.
— A mesma Gabriela Neves que destruiu o restaurante do meu amigo Carlos com uma crítica?
— A mesma Gabriela Neves que escreveu a verdade sobre uma cozinha medíocre. O seu caso é diferente. O seu caso merece elogios.
Ele estudou-a durante um momento longo. Depois, para surpresa dela, sorriu. — Então venha provar a sobremesa na cozinha. Quero ver a sua cara quando a comer.
A cozinha era um teatro de aço inoxidável e fogo controlado. A brigada trabalhava em silêncio, com a disciplina de um exército. Rodrigo preparou a sobremesa pessoalmente — um fondant de chocolate negro com gelado de azeite e flor de sal — e entregou-lho com uma colher.
Gabriela provou. Fechou os olhos. Quando os abriu, Rodrigo estava a olhar para ela com uma intensidade que nada tinha a ver com culinária.
— Bom? — perguntou ele.
— Obsceno — respondeu ela. — É obscenamente bom.
A cozinha foi esvaziando à medida que o serviço terminava. A brigada saiu um a um, e quando ficaram sozinhos, a atmosfera mudou. A tensão que existira desde o primeiro momento — ela, a crítica que podia destruí-lo; ele, o artista que se recusava a ser julgado — transformou-se em algo diferente. Mais quente. Mais perigoso.
Rodrigo abriu uma garrafa de vinho que guardava para ocasiões especiais — um Barca Velha de 2008 — e serviu dois copos. Brindaram em silêncio, avaliando-se mutuamente como faziam profissionalmente: ela julgando a composição, ele a técnica.
— Queres provar mais uma coisa? — perguntou ele, mergulhando o dedo no fondant que restava e levando-o aos lábios dela.
Gabriela lambeu o chocolate do dedo dele sem quebrar o contacto visual. Sentiu o sabor intenso do chocolate misturar-se com o sal da pele dele, e algo dentro dela — o profissionalismo, a distância, o controlo — derreteu tão completamente quanto o fondant.
Beijaram-se contra a bancada de inox, com o sabor do chocolate e do vinho nos lábios. As mãos dele — habituadas a criar beleza com ingredientes — percorreram-lhe o corpo com a mesma precisão com que compunha pratos. Cada toque era deliberado, cada carícia tinha intenção.
Rodrigo sentou-a na bancada fria, e o contraste entre o aço gelado e a boca quente dele fez Gabriela arquear-se como um soufflé que sobe. Ele provou-a como provava os seus pratos — com atenção, com pausa, ajustando a técnica em função da reacção.
Fizeram amor na cozinha fechada, entre panelas de cobre e facas de chef, com a precisão e a paixão que ambos punham nos seus ofícios. Gabriela agarrou-se à estante de especiarias e frascos caíram no chão, espalhando aromas de canela e noz-moscada que se misturaram com o cheiro dos corpos.
De madrugada, sentados no chão da cozinha com restos de fondant e a garrafa de Barca Velha quase vazia, Gabriela disse:
— Vou ter de recusar-me a escrever esta crítica. Conflito de interesses.
— Ou podes escrever a melhor crítica da tua vida — respondeu ele. — Porque agora sabes exactamente como sabem as coisas na minha cozinha.
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