Saúde & Vida Sexual

Pós-FIV: Libido e Relacionamento do Casal

P Paula Camargo
13 Jun 2026 6 min leitura 15 visualizacoes
Pós-FIV: Libido e Relacionamento do Casal

Este artigo é informativo e não substitui consulta médica especializada. Em caso de sintomas, contacte o seu médico ou ligue para SNS 24 (808 24 24 24).

FIV e Sexualidade: Uma Dimensão Negligenciada dos Tratamentos de Fertilidade

A fertilização in vitro (FIV) representa para muitos casais o ponto de chegada de um longo percurso de infertilidade — carregado de esperança, ansiedade, luto por gestações perdidas e pressão crescente. O foco clínico dos tratamentos é, naturalmente, a obtenção de uma gravidez. Mas o impacto da FIV na sexualidade do casal — na libido, na espontaneidade, no prazer e no vínculo emocional — é uma dimensão frequentemente negligenciada pelos profissionais de saúde e pelos próprios casais.

Paradoxalmente, o processo que visa criar vida pode temporariamente esvaziar a intimidade da sua dimensão de prazer e conexão. Compreender este fenómeno é o primeiro passo para redescobrir a sexualidade depois da FIV — seja qual for o resultado do tratamento.

O Impacto dos Protocolos de Estimulação Ovárica

Os protocolos de estimulação ovárica controlada envolvem injecções diárias de gonadotrofinas durante 8 a 14 dias, monitorização ecográfica frequente e suplementação com progesterona após a transferência embrionária. Este processo tem efeitos físicos e hormonais directos na sexualidade feminina:

  • Distensão abdominal e desconforto pélvico: O aumento do volume ovárico durante a estimulação provoca sensação de peso, pressão e dor pélvica que reduz o desejo e torna o sexo desconfortável ou doloroso.
  • Síndrome de hiperestimulação ovárica (SHO): Nos casos mais graves, a SHO causa ascite, distensão abdominal marcada e dor intensa — tornando qualquer actividade física, incluindo a sexual, impossível por semanas.
  • Alterações hormonais: Os níveis suprafisiológicos de estrogénio e progesterona durante os protocolos, seguidos da descida abrupta se a gravidez não se estabelece, produzem labilidade emocional, fadiga e redução da libido.
  • Secura vaginal e dispareunia pós-transferência: A suplementação com progesterona vaginal (óvulos ou gel) altera o ambiente vaginal, podendo causar irritação local, secura e dor durante o coito. A abstinência sexual é frequentemente recomendada nos dias seguintes à transferência embrionária, criando uma pausa forçada que pode gerar ansiedade relacional.

A Medicalização do Sexo

Um dos impactos mais insidiosos dos tratamentos de FIV é a transformação do sexo num acto médico e instrumental. O casal habituou-se — durante meses ou anos de tentativas naturais ou de inseminações — a associar a relação sexual à procriação: janelas de fertilidade monitorizadas, coitos programados, testes de gravidez ansiosos. Esta medicalização da intimidade retira ao sexo a sua dimensão de prazer, espontaneidade e conexão emocional.

Muitos casais reportam que, mesmo após o fim dos tratamentos (com ou sem gravidez), é difícil "desligar" esta associação e redescobrir o sexo como fonte de prazer descomprometida da procriação. A disfunção sexual resultante — diminuição da libido, dificuldade de excitação, evitamento da intimidade — é frequentemente reactiva ao contexto psicológico e não tem causa orgânica. Para casais em Lisboa que procuram redescobrir a intimidade num espaço de suporte emocional, os serviços de acompanhantes em Lisboa com formação em bem-estar do casal podem oferecer uma perspectiva externa e não clínica.

Stress Emocional e o Seu Impacto na Libido

O stress crónico associado à infertilidade e aos tratamentos de FIV tem efeitos fisiológicos directos na libido: aumenta os níveis de cortisol, que suprime o eixo hipotálamo-hipofisário-gonadal, reduzindo a produção de testosterona (na mulher, o principal androgénio que regula o desejo) e de estrogénio. O ciclo é vicioso: o stress reduz o desejo, a ausência de intimidade amplifica o distanciamento emocional, que por sua vez aumenta o stress relacional.

Nos casos de FIV falhada — especialmente após múltiplas tentativas ou após abortos de repetição — o luto pode ser profundo e prolongado. Alguns casais entram em fases de luto assíncronas, em que cada elemento processa a perda de forma diferente e em momentos diferentes, criando mal-entendidos e afastamento emocional que se reflectem na vida sexual.

Diferenças Entre os Elementos do Casal

As mulheres tendem a reportar maior impacto na libido e maior necessidade de processamento emocional antes de poderem retomar a intimidade sexual. Os homens, por seu lado, podem interpretar a retoma da actividade sexual como uma forma de reconexão emocional — criando um desfasamento nas expectativas e necessidades do casal. Esta diferença de sincronização é fonte frequente de conflito e deve ser abordada abertamente, de preferência com o apoio de um terapeuta de casal.

Como Redescobrir a Intimidade Após a FIV

  • Restaurar a espontaneidade: Começar por formas de proximidade física não orientadas para o coito — massagem, beijo, contacto físico — sem pressão de "chegar ao fim". Reintroduzir o prazer como objectivo em si.
  • Comunicação aberta: Partilhar com o parceiro as expectativas, os medos e as necessidades sem julgamento. A terapia de casal pode ser o espaço seguro para este diálogo, especialmente após tratamentos falhados.
  • Terapia sexual: Com um sexólogo certificado, o casal pode trabalhar a desmontagem das associações entre sexo e procriação, a reintrodução do prazer e a resolução de disfunções sexuais reactivas ao contexto de infertilidade.
  • Cuidar da saúde individual: Exercício físico regular, sono adequado, alimentação equilibrada e redução do stress (yoga, mindfulness) têm impacto directo na libido e no bem-estar sexual.
  • Dar tempo ao tempo: O corpo e a mente precisam de tempo para recuperar dos protocolos. Não forçar a retoma da actividade sexual enquanto o desejo não for espontâneo.

Para casais que procuram um contexto de reconexão emocional e de apoio ao bem-estar, os serviços de acompanhantes disponíveis em Lisboa com formação em bem-estar do casal podem ser um complemento ao processo terapêutico formal.

Quando Procurar Ajuda Especializada

  • Ausência persistente de desejo sexual após o fim dos tratamentos (mais de 3–6 meses).
  • Dispareunia persistente após o fim dos protocolos hormonais.
  • Conflito relacional significativo relacionado com a sexualidade ou com o luto pela infertilidade.
  • Sintomas de depressão ou ansiedade que afectem a qualidade de vida e o relacionamento.

Referências

  1. Domar AD, et al. (2005). The relationship between stress and infertility. Dialogues Clin Neurosci. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22034268
  2. NHS UK (2024). IVF — Overview, treatment and emotional impact. National Health Service. nhs.uk
  3. Mayo Clinic (2024). In vitro fertilization (IVF) — What you can expect and emotional aspects. Mayo Foundation for Medical Education and Research. mayoclinic.org
  4. PubMed / National Library of Medicine (2023). Pesquisa: IVF sexual dysfunction couple relationship infertility treatment. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  5. Direção-Geral da Saúde — DGS (2024). Reprodução Medicamente Assistida — Orientações e Apoio em Portugal. Ministério da Saúde, Portugal. dgs.pt
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