Saúde Feminina

Síndrome Genito-Urinária Menopausa: Guia Clínico

P Paula Camargo
19 May 2026 8 min leitura 20 visualizacoes
Síndrome Genito-Urinária Menopausa: Guia Clínico

Este artigo é informativo e não substitui consulta com ginecologista, urologista ou médico de família. Em caso de sintomas, contacte o seu médico ou ligue para SNS 24 (808 24 24 24).

O Que É a Síndrome Genito-Urinária da Menopausa?

A síndrome genito-urinária da menopausa (SGM) — anteriormente denominada atrofia vulvovaginal ou atrofia urogenital — é um conjunto de sinais e sintomas crónicos, progressivos e intimamente relacionados com o hipoestrogenismo que acompanha a menopausa. Abrange alterações vulvares, vaginais e do trato urinário inferior decorrentes da privação estrogénica. Ao contrário dos afrontamentos e das suores nocturnas, que tendem a atenuar-se com o tempo, a SGM agrava-se progressivamente se não tratada.

A prevalência é elevada: estima-se que 40–60% das mulheres na pós-menopausa apresentem sintomas clinicamente significativos de SGM, mas apenas uma minoria procura ajuda médica — frequentemente por vergonha ou por julgarem erroneamente que os sintomas são inevitáveis e irreversíveis. A síndrome genito-urinária da menopausa é tratável e o tratamento melhora significativamente a qualidade de vida e a vida sexual. Para mulheres que procuram apoio no bem-estar íntimo durante e após a menopausa, recursos como os disponíveis em acompanhantes femininas com sensibilidade para a sexualidade madura podem ser um complemento ao tratamento médico.

Definição Clínica e Fisiopatologia

A SGM resulta da privação de estrogénio (principalmente estradiol) após a menopausa natural, cirúrgica ou iatrogénica (quimioterapia, radioterapia pélvica, análogos GnRH). Os estrogénios são fundamentais para a manutenção da mucosa vaginal, da lubrificação, do pH vaginal ácido protector, do epitélio uretral e da integridade do músculo do pavimento pélvico.

Sem estrogénio, o epitélio vaginal torna-se mais fino (atrófico), menos elástico e menos lubrificado; o pH vaginal aumenta (de ácido para alcalino), favorecendo infecções; e o trato urinário inferior perde parte da sua integridade anatómica e funcional.

Sintomas da SGM

Os sintomas agrupam-se em dois domínios principais:

Domínio Vulvovaginal

  • Secura e atrofia vaginal
  • Ardor, irritação ou prurido vulvovaginal
  • Dispareunia (dor durante ou após as relações sexuais)
  • Hemorragia pós-coital por fragilidade do epitélio
  • Diminuição da lubrificação durante a excitação sexual
  • Perda de elasticidade e redução do calibre vaginal

Domínio Urinário

  • Urgência e frequência urinária
  • Disúria (ardor ao urinar)
  • Infecções urinárias de repetição
  • Incontinência urinária de urgência ou de esforço

Diagnóstico

O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado na história e no exame ginecológico. O exame objectivo evidencia epitélio vaginal pálido, liso, com perda das rugosidades; introito vaginal estreitado; pH vaginal elevado (frequentemente ≥5). A colposcopia ou a biópsia raramente são necessárias, mas podem ser indicadas para excluir patologia de sobreposição (como o líquen escleroso).

Instrumentos de avaliação validados, como a escala VAS de secura e dispareunia e o Female Sexual Distress Scale (FSDS), ajudam a quantificar o impacto clínico.

Opções de Tratamento

Tratamento de Primeira Linha: Estrogénio Tópico

O estrogénio tópico vaginal (creme, óvulos, anel) é considerado o tratamento de primeira linha da SGM pela maioria das sociedades ginecológicas internacionais. Age localmente, com absorção sistémica mínima, e restaura o trofismo vaginal, o pH ácido e a lubrificação. Está indicado mesmo em mulheres com contra-indicação para terapêutica hormonal de substituição (THS) sistémica, como sobreviventes de cancro da mama — embora neste grupo a decisão deva ser tomada pelo oncologista em conjunto com o ginecologista.

Ospemifeno

O ospemifeno é um modulador selectivo dos receptores de estrogénio (SERM) de administração oral aprovado para o tratamento da SGM moderada a grave. Actua como agonista estrogénico no tecido vaginal sem estimular o endométrio. É uma opção para mulheres que não tolerem ou prefiram evitar aplicações tópicas vaginais.

Laser CO2 Vaginal Fraccionado

O laser CO2 fraccionado (ou laser de érbio) aplicado à mucosa vaginal induz remodelação do colagénio e restauração do epitélio. Estudos clínicos demonstram melhoria da secura vaginal, da dispareunia e dos sintomas urinários, com efeito mantido a médio prazo. É uma opção não hormonal relevante para mulheres com contra-indicações a estrogénios. Está disponível em centros especializados em Portugal.

Hidratantes e Lubrificantes Vaginais

Hidratantes vaginais de uso regular (não confundir com lubrificantes de uso pontual) melhoram os sintomas de secura e desconforto sem efeito hormonal. São a primeira abordagem não farmacológica e podem ser combinados com tratamentos hormonais ou a laser.

Terapêutica Hormonal de Substituição Sistémica

A THS sistémica (oral, transdérmica) melhora a SGM ao mesmo tempo que controla outros sintomas climatéricos (afrontamentos, insónia). Deve ser avaliada individualmente pelo médico, pesando benefícios e riscos.

Impacto na Vida Sexual

A dispareunia e a secura vaginal são as principais barreiras à vida sexual satisfatória na pós-menopausa. O tratamento eficaz da SGM traduz-se em melhoria documentada da função sexual, incluindo lubrificação, excitação, satisfação e ausência de dor. A retoma da vida sexual activa após tratamento deve ser gradual, com recurso a lubrificantes e com comunicação aberta com o parceiro sobre ritmo e expectativas. Para mulheres que exploram a sua sexualidade nesta fase de vida, recursos de acompanhantes disponíveis em todo o país com formação em bem-estar e sexualidade adulta podem oferecer suporte complementar.

Quando Consultar o Médico

  • Secura vaginal persistente que causa desconforto diário ou durante a actividade sexual.
  • Dispareunia que limita ou impede a vida sexual.
  • Infecções urinárias de repetição na pós-menopausa.
  • Urgência ou incontinência urinária nova ou agravada.
  • Hemorragia vaginal pós-coital ou espontânea (exige avaliação para excluir patologia endometrial).

Perguntas Frequentes (FAQ)

A SGM é inevitável na menopausa?

A atrofia progressiva é comum sem tratamento, mas não é inevitável. Com tratamento adequado — tópico ou sistémico — é possível manter a saúde vaginal e a qualidade de vida sexual após a menopausa.

O estrogénio tópico é seguro para mulheres com antecedentes de cancro da mama?

Em geral, a absorção sistémica do estrogénio tópico em doses baixas é mínima. No entanto, em mulheres com antecedentes de cancro da mama, a decisão deve ser tomada pelo oncologista em conjunto com o ginecologista, avaliando o perfil individual de risco.

Quantas sessões de laser CO2 são necessárias?

Os protocolos habituais incluem 3 sessões com intervalos de 4–6 semanas, seguidas de sessões de manutenção anuais. Os resultados variam consoante a gravidade da atrofia.

Os hidratantes vaginais substituem o estrogénio tópico?

Os hidratantes melhoram o conforto mas não restauram o trofismo do epitélio vaginal nem normalizam o pH. São complementares, não substitutos, do tratamento hormonal quando este está indicado.

A SGM afecta mulheres jovens?

Sim. Mulheres jovens submetidas a ooforectomia bilateral, a quimioterapia, a radioterapia pélvica ou a tratamentos com análogos GnRH podem desenvolver SGM, com sintomas frequentemente mais intensos pela instalação abrupta do hipoestrogenismo.

A actividade sexual regular protege contra a SGM?

Sim, em parte. A actividade sexual regular (com ou sem parceiro) mantém o fluxo sanguíneo vaginal e a elasticidade, podendo atenuar — mas não substituir o tratamento de — a atrofia vaginal estabelecida.

Conclusão

A síndrome genito-urinária da menopausa é uma condição crónica prevalente, sub-reconhecida e sub-tratada. O diagnóstico atempado e o tratamento individualizado — seja com estrogénio tópico, ospemifeno, laser CO2 ou combinações — permitem reverter os sintomas e preservar a qualidade de vida sexual e urinária. Não hesite em discutir estes sintomas com o seu ginecologista ou médico de família.

Referências

  1. NHS UK (2024). Menopause — Vaginal dryness and urinary symptoms. National Health Service. nhs.uk
  2. Mayo Clinic (2024). Atrophic vaginitis (vaginal atrophy) — Symptoms and causes. Mayo Foundation for Medical Education and Research. mayoclinic.org
  3. Direção-Geral da Saúde (2024). Menopausa e Terapêutica Hormonal — Orientação Clínica. Ministério da Saúde, Portugal. dgs.pt
  4. PubMed / National Library of Medicine (2023). Pesquisa: genitourinary syndrome menopause treatment topical estrogen ospemifene — revisões sistemáticas. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  5. EAU — European Association of Urology (2024). Guidelines on Urinary Incontinence and Female Pelvic Floor Prolapse. Uroweb. uroweb.org
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