Surf na Ericeira: Ondas de Paixão
A Ericeira em junho era um paraíso para surfistas e um inferno para quem tentava concentrar-se noutra coisa. Matilde estava na praia de Ribeira d'Ilhas a trabalhar — era jornalista freelancer e escrevia um artigo sobre a comunidade surf portuguesa — quando uma prancha quase lhe acertou na cabeça.
— Desculpa! Desculpa! — O dono da prancha saiu da água a correr, com o fato de neoprene aberto até à cintura e uma expressão de pânico genuíno. — Estás bem? A leash partiu-se, eu...
Matilde olhou para ele — molhado, descabelado, com sal a brilhar nos ombros bronzeados — e decidiu que estava bem. Muito bem.
— Sem problema — disse ela. — Mas ficas a dever-me um café.
Chamava-se Gil, tinha vinte e oito anos e vivia na Ericeira desde que largara o emprego num escritório de advogados para dar aulas de surf. O café transformou-se num almoço, que se transformou numa tarde inteira sentados na esplanada a falar de ondas, de liberdade e de como às vezes é preciso coragem para seguir o que nos faz feliz.
— Já surfaste alguma vez? — perguntou ele.
— Nunca. Tenho medo do mar.
— Então amanhã vou curar-te desse medo.
A aula de surf na manhã seguinte foi um desastre glorioso. Matilde caiu da prancha mais vezes do que se levantou, engoliu água salgada suficiente para encher um aquário, e riu tanto que os abdominais doíam. Gil segurava-a pela cintura para a ajudar a equilibrar-se, e cada toque — profissional, técnico — era uma descarga eléctrica.
Quando finalmente se manteve de pé durante três segundos — antes de cair espetacularmente — Gil gritou de entusiasmo e abraçou-a na água. Os corpos molhados colaram-se, o neoprene era uma segunda pele que deixava sentir tudo, e quando os lábios se encontraram — salgados, sorridentes — a onda que os derrubou pareceu orquestrada pelo destino.
Saíram da água de mãos dadas, com os fatos de neoprene a escorrerem e o sol a secar-lhes a pele. A carrinha de Gil — uma Volkswagen T3 restaurada com cama atrás — estava estacionada no topo da falésia.
— Preciso de trocar de roupa — disse ele, abrindo a porta lateral.
— Eu também — disse Matilde, subindo para dentro.
Dentro da carrinha, com as cortinas corridas e a luz filtrada pelo tecido, despiram os fatos de neoprene — uma operação que envolveu puxões, gargalhadas e inevitavelmente mãos na pele errada no momento certo. Quando ficaram nus, o riso parou e algo mais intenso tomou o seu lugar.
A cama da carrinha era estreita mas suficiente. Gil beijou-a com o sabor do mar nos lábios, e Matilde sentiu o corpo dele — esculpido pelo surf, quente do sol — contra o seu como uma onda que a envolvia. Ele tinha a paciência de quem espera pela onda perfeita, e quando a encontrou, cavalgou-a com a mestria de quem conhece o mar.
Matilde agarrou-se à estrutura da carrinha quando o prazer se tornou demasiado grande para conter. A T3 balançava suavemente, e através das cortinas via-se o oceano, infinito e indiferente ao que acontecia ali dentro.
Depois, deitados na cama estreita com as pernas entrelaçadas, Gil abriu a porta lateral e o som das ondas encheu a carrinha.
— Ainda tens medo do mar? — perguntou ele.
— Já não tenho medo de nada — respondeu ela.
Matilde ficou na Ericeira mais duas semanas. O artigo sobre a comunidade surf ficou extraordinário. Mas a melhor história que viveu nesse verão nunca foi publicada.
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