A Aventura no Comboio para Faro: Conto Erótico
Aviso: este conto contém conteúdo adulto explícito. Destinado a leitores com 18 anos ou mais. Todos os personagens são adultos fictícios que agem com pleno consentimento. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
I. Oriente, 08:47
O intercidades das nove da manhã para Faro saía da estação do Oriente com a pontualidade imperturbável dos comboios portugueses de longa distância e com um grau de ocupação que, em Agosto, era menos reserva e mais fé. Vera tinha bilhete para o carro dois, lugar 34A, e chegara com seis minutos de antecedência porque era o tipo de pessoa que chegava com seis minutos de antecedência — a mesma pontualidade com que, na semana anterior, passara uma hora a examinar acompanhantes no Algarve por pura curiosidade, sem nunca carregar em nada, fechando o browser com um sorriso oblíquo antes de adormecer.
O carro dois estava quase cheio. Havia famílias com crianças que já reclamavam, um grupo de jovens com mochilas de camping e alta pressão sonora, e uma criança de três anos que estava a chorar em sintonia perfeita com o apito do comboio. O lugar 34A estava livre. O 34B também.
Ficou sozinha durante exactamente os seis minutos que a separavam da partida. Depois o homem apareceu — alto, cabelo castanho cortado curto, uma camisola de linho bege que tinha aquele amachucado específico de roupa boa que viajou. Olhou para o bilhete, olhou para a fila, olhou para ela.
— Acho que sou o teu vizinho de viagem — disse ele, com um sotaque que ela identificou imediatamente como porto — não a cidade, mas aquele afastamento das vogais que era do Norte, de algures entre Braga e Viana.
— Pior podia ser — respondeu ela, e ele riu.
Chamava-se Afonso. Tinha trinta e dois anos, era arquitecto, e ia a Faro a um projecto de reabilitação numa aldeia do sotavento algarvio. Vera tinha trinta anos, era consultora de marketing, e ia às suas últimas férias de verão com uma amiga que a esperava em Olhão. Estas informações foram trocadas nos primeiros vinte minutos, com o Alentejo a começar a aparecer pelas janelas depois do Setúbal — a paisagem a transformar-se de pinheiros e eucaliptos para a planura dourada e seca de Agosto.
II. O Alentejo, 10:30
O comboio atravessava o Alentejo com a paciência que a paisagem exigia. Campos de cortiça com manchas de sombra roxa, planícies onde o trigo já fora colhido e a palha ficara em rolos dourados, e a luz de Agosto que entrava pelas janelas como um líquido quente e inescapável.
Afonso tinha um livro aberto no colo — um romance de José Saramago que Vera reconheceu — mas não estava a lê-lo. Estava a olhar para a paisagem com a concentração de alguém a quem o olhar é trabalho. Às vezes tirava uma caneta e riscava qualquer coisa num caderno de capa preta que tinha ao lado, gestos rápidos que ela tentou perceber sem se inclinar demasiado.
— Arquitecto mesmo — disse ela, eventualmente.
Ele olhou para ela com um sorriso. — Não consigo desligar. O espaço aqui tem uma escala que as pessoas das cidades não entendem. Estás habituada a que os prédios façam a perspectiva por ti. Aqui tens de fazer tudo tu.
— Tens de me explicar isso melhor.
E ele explicou. Durante quarenta minutos, Afonso falou-lhe do Alentejo como paisagem construída — das aldeias brancas que eram resposta ao calor, da orientação das janelas em relação ao vento de Sudoeste, das fontes no centro das praças como forma de criar sombra social. Vera ouvia com uma atenção que ela própria reconhecia como rara — não a atenção do educação mas a atenção do genuíno interesse.
À medida que falava, o espaço entre eles no banco foi diminuindo. Não por intencionalidade óbvia, mas pela geometria natural de dois corpos que se inclinam em direcção ao que os atrai. O cotovelo dele estava encostado ao dela na divisória entre os dois assentos. Quando ela se virou para fazer uma pergunta, os rostos estavam a trinta centímetros.
Nenhum dos dois recuou.
III. Tunes, 12:15
O comboio parou em Tunes para mudar de linha. Dez minutos de imobilidade com o calor a entrar pela janela aberta e a cigarra do Algarve a substituir o vento alentejano. As famílias com crianças saíram em peso — escola de surf em Albufeira, percebeu Vera por fragmentos de conversa — e o carro dois ficou subitamente mais tranquilo, mais adulto.
O grupo de jovens tinha mudado de carro em Funcheira. A criança de três anos adormecera numa postura impossível sobre os braços da mãe. Os dois lugares à frente de Vera e Afonso estavam agora vazios.
— Olha que se calhar podemos respirar — disse ele.
— Eu estava a respirar bem — respondeu ela, e a forma como o disse foi suficientemente ambígua para que ambos soubessem que havia mais do que falta de ar naquela frase.
Afonso não disse nada. Estendeu a mão e tocou-lhe no pulso — um toque leve, de índice e polegar, como se medisse o pulso ou verificasse que ela era real. Vera ficou quieta e deixou o toque acontecer. A mão dele percorreu devagar o antebraço até ao cotovelo e de volta ao pulso, num movimento que não era médico nem sexual mas era qualquer coisa entre os dois — uma conversa de pele.
— Temos mais quanto tempo? — perguntou ela.
— Cinquenta minutos.
— Então temos tempo.
IV. Entre Tunes e Faro
Havia uma casa de banho no fundo do carro que estava desocupada. Vera levantou-se primeiro — um movimento casual, como quem se levanta para esticar as pernas — e Afonso esperou dois minutos antes de a seguir, com a discrição de quem não está a tentar ser invisível mas tem respeito pelo espaço partilhado.
O espaço era ridículo — como são todas as casas de banho de comboio — mas havia nas suas limitações uma urgência que tornava as coisas mais vívidas. Quando a porta se fechou e a tranca correu, Afonso envolveuno-a com os braços e ela inclinou a cabeça para o peito dele durante um momento antes de levantá-la para o beijo.
O comboio oscilava suavemente na linha do Algarve, aquele balanço rítmico que é exclusivo dos comboios em curva, e havia naquele movimento involuntário qualquer coisa que tornava tudo mais intenso — a impossibilidade de estar completamente estático, a obrigação de equilibrar, a consciência do movimento externo que envolvia o movimento interno.
Vera tinha as costas contra a parede de aço e as mãos no peito de Afonso. Ele tinha as mãos nos seus quadris, segurando-a com uma firmeza que era ao mesmo tempo ancoragem e promessa. Os beijos alternavam entre suaves e urgentes com a irregularidade da paisagem algarviana lá fora — às vezes abertos entre pinheiros, às vezes fechados entre taludes de calcário.
O prazer foi rápido e intenso, com a qualidade específica das coisas que não podem durar mas existem completamente durante o tempo que têm. Vera enterrou a face no pescoço dele quando chegou ao limite, e o som que fez foi levado pelo barulho do comboio como se nunca tivesse existido.
V. Faro, 13:02
A estação de Faro tinha aquela luz de estação algarvia — mais dura, mais directa, com o cheiro a mar que era diferente do cheiro a mar de Lisboa, mais salino, mais antigo. Vera e Afonso saíram do carro dois com os braços por separado e as expressões neutras de quem chegou ao destino e está a pensar no que se segue.
No cais, ficaram de frente um para o outro durante um momento.
— A tua amiga espera-te — disse ele.
— Sim. — Ela olhou para o telemóvel. Duas mensagens de Raquel. — E tu tens a reunião.
— Tenho.
Silêncio. O tipo bom.
— Se calhar a próxima vez que o comboio estiver cheio — disse Afonso, com o sorriso que ela já sabia que tinha — preferes o lugar da janela.
Vera levantou-se na ponta dos pés e beijou-o por último vez, a plena luz da estação de Faro, sem discrição e sem pressa. Depois pegou na mochila e foi ao encontro de Raquel.
A viagem de regresso, na segunda-feira, correu na mesma linha. Ela comprou bilhete para o carro dois, lugar 34A.
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