A Casa de Campo: Escapadela Romântica
O GPS perdeu sinal dez quilómetros antes de chegarem. Sara olhou para Pedro, que conduzia com as janelas abertas e o braço de fora, e sentiu o primeiro arrepio de excitação — não pela viagem, mas pela perspectiva de estarem verdadeiramente isolados durante três dias.
Estavam juntos há sete anos. Dois filhos, um crédito habitação, empregos exigentes, uma vida montada como um relógio suíço que não deixava espaço para o imprevisto. O desejo não tinha morrido — estava apenas soterrado debaixo de listas de compras e reuniões de pais.
A casa de campo apareceu ao fundo de um caminho de terra, rodeada de sobreiros e vinhas. Era de pedra, com paredes grossas que guardavam a frescura, uma lareira enorme na sala e uma cama de ferro forjado no quarto que rangeria com qualquer movimento.
— Os miúdos estão com os avós — disse Pedro, pousando as malas. — Não temos telefone. Não temos internet. Somos só nós.
Sara olhou para ele — o homem com quem partilhava a vida — e viu-o como se fosse a primeira vez. Os ombros que carregavam o peso do mundo, as mãos que construíam coisas e reparavam outras, o sorriso que ela às vezes esquecia de ver na azáfama do quotidiano.
— Quando foi a última vez que te olhei assim? — perguntou ela, aproximando-se.
— Quando foi a última vez que parámos para olhar? — respondeu ele.
Não desfizeram as malas. Não exploraram a casa. Sara puxou-o pela mão para o quarto e beijou-o com uma fome que os surpreendeu a ambos. Não era o beijo apressado antes de adormecer nem o beijo automático de despedida — era o beijo de quando se conheceram, profundo, lento, com toda a atenção do mundo.
Pedro desabotoou-lhe a camisa com dedos que tremiam, não de nervosismo mas de emoção. Conhecia aquele corpo melhor do que qualquer outro — cada sinal, cada cicatriz, as marcas da maternidade que ela tentava esconder e que ele achava bonitas. Mas naquela tarde, com a luz do Alentejo a entrar pela janela, era como se o visse pela primeira vez.
— És tão bonita — disse ele, e a voz falhou.
Sara puxou-lhe a camisola pela cabeça e percorreu-lhe o peito com as mãos, redescobrindo. Sete anos de casamento tinham-lhe ensinado exactamente onde tocar, mas a diferença agora era o tempo — não tinham pressa, não tinham alarmes, não tinham portas para trancar com medo de que alguém entrasse.
Fizeram amor na cama de ferro que rangeu como prometido, e o som fê-los rir no início, até que o riso se transformou em gemidos e os gemidos em gritos que se perderam nas paredes de pedra. Pedro redescobriu caminhos que a rotina tinha tornado atalhos, e Sara lembrou-se de coisas que ele gostava e que ela tinha deixado de fazer porque "não havia tempo".
Depois, ficaram deitados com as pernas entrelaçadas, a ouvir o silêncio do campo — um silêncio feito de grilos e vento e folhas.
— Temos três dias — disse Sara. — Quero aproveitar cada minuto.
E aproveitaram. Fizeram amor na cozinha enquanto preparavam o jantar, contra a mesa de pedra que era deliciosamente fria. Na banheira de ferro fundido, com água quente e espuma, os corpos a escorregar um sobre o outro. Na manta estendida entre os sobreiros, sob um céu estrelado como ela nunca vira na cidade, com a erva a picar-lhes as costas e o cheiro a terra a misturar-se com o cheiro deles.
Cada vez era diferente. Às vezes lenta e terna, com sussurros e olhares. Outras vezes urgente e selvagem, como se sete anos de desejo contido explodissem de uma vez. Redescobriram-se como amantes, não apenas como parceiros, e a diferença era imensa.
No último dia, sentados na varanda com café e pão quente da padaria mais próxima (a dez quilómetros), Pedro disse:
— Podemos fazer isto todos os meses.
— Podemos fazer isto todas as noites — respondeu Sara. — Só precisamos de lembrar que continuamos a ser nós.
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