Aulas Particulares: Conto de Sedução
Catarina inscreveu-se nas aulas de piano aos trinta e cinco anos, cumprindo uma promessa que fizera a si mesma. Sempre quisera tocar, mas a vida — a faculdade, a carreira, o casamento falhado — nunca lhe dera espaço. Agora, solteira e dona do seu tempo, decidiu que era hora de aprender.
O professor chamava-se Afonso e tinha a paciência de um santo. Dava aulas num estúdio no Chiado, uma sala com pé-direito alto, um piano de cauda Steinway que brilhava como um lago negro, e prateleiras cheias de partituras. Tinha quarenta e poucos anos, cabelo grisalho nas têmporas, mãos elegantes e uma voz suave que fazia as correcções parecerem elogios.
Desde a primeira aula, Catarina reparou na forma como ele se sentava ao lado dela no banco do piano. A proximidade era necessária — ele precisava de alcançar o teclado para demonstrar — mas havia algo na forma como o braço dele roçava o dela, como os dedos se tocavam nas teclas, que transcendia a pedagogia.
Nas primeiras semanas, concentrou-se nas escalas e nos acordes. Mas à medida que os dedos ganhavam destreza, a mente vagueava. Reparava no perfume dele — limpo, com notas de cedro. Na forma como ele fechava os olhos quando tocava, perdido na música. Na vibração grave da voz quando contava os tempos junto ao ouvido dela.
— Sentes a música aqui — disse ele numa aula, tocando-lhe levemente no peito, sobre o coração. — Não nos dedos. Os dedos são apenas mensageiros.
O toque durou dois segundos, mas Catarina sentiu-o durante horas.
A aula que mudou tudo foi a de Chopin. O Nocturno em Mi bemol maior — uma peça romântica, languorosa, cheia de suspiros musicais. Afonso tocou-a primeiro, e Catarina observou as mãos dele moverem-se no teclado com uma sensualidade que a deixou sem ar. Depois, sentou-se ao lado dela para a guiar.
— Mais suave — sussurrou ele, e a mão pousou sobre a dela no teclado, guiando os dedos. — Deixa o som respirar.
Catarina tentou, mas os dedos tremiam. Não por nervosismo técnico — por causa da proximidade dele, do calor do braço contra o seu, do hálito que lhe aquecia o pescoço quando ele se inclinava para ver as teclas.
— Estás tensa — observou ele.
— Estou — admitiu ela. — Mas não é por causa do Chopin.
Houve um silêncio denso. Afonso olhou para ela com uma expressão que misturava surpresa e reconhecimento — como se a tensão que ela confessava fosse um segredo que ele também guardava.
— Catarina — disse ele, e o nome na boca dele soou como uma nota musical —, eu tenho uma regra sobre alunas.
— Eu tinha uma regra sobre nunca começar nada com professores — respondeu ela. — Mas a música muda as regras, não muda?
Ele baixou a tampa do piano com um gesto suave e definitivo. Depois virou-se para ela e beijou-a. A boca dele era como a sua música — precisa, expressiva, cheia de nuances que revelavam prática e paixão.
As mãos de pianista percorreram-lhe o corpo com a mesma sensibilidade com que percorriam o teclado, encontrando os pontos sensíveis como quem encontra as notas certas. Catarina agarrou-se a ele enquanto ele a sentava sobre o piano — aquele Steinway majestoso — e as cordas vibraram em protesto quando o peso alterou a mecânica.
— Vamos estragar o piano — disse ela, entre risos e beijos.
— Ele sobrevive — respondeu Afonso, desabotoando-lhe a blusa.
Amaram-se ao som das cordas que ressoavam cada vez que o piano estremecia. Era como fazer amor com acompanhamento musical — dissonante, inesperado e estranhamente belo. Os gemidos de Catarina misturaram-se com as notas aleatórias numa composição que nenhum compositor ousaria escrever.
Depois, sentados no chão do estúdio, ele tocou-lhe o Nocturno de Chopin de cor, e ela ouviu cada nota como uma carícia repetida.
— Mesma hora na próxima semana? — perguntou ele.
— Não falto a uma aula — prometeu ela.
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