Conto Erótico: A Desconhecida do Hotel
Pedro tinha chegado a Lisboa para uma reunião que fora adiada para o dia seguinte, e estava no bar do Hotel Avenida Palace com um whisky que não precisava e um portátil que já não conseguia olhar. Era quinta-feira à noite, o bar estava a meio, com aquela mistura de viajantes e locais que os bares de hotel bons costumam ter. A arquitectura do lugar — os tectos altos, os azulejos, a madeira escura — criava uma espécie de fora do tempo que era exactamente o que ele precisava naquele momento.
A mulher sentou-se dois bancos à sua esquerda sem o olhar, pediu um negroni ao barman com uma familiaridade que sugeria que era cliente habitual, e abriu um caderno de capa preta onde começou a escrever com uma caneta de tinta que produzia um som suave e regular. Pedro não pretendia observá-la. Mas a qualidade da atenção com que ela escrevia — completamente absorta, alheia ao mundo — era do tipo que torna difícil não olhar.
O Primeiro Gesto
Meia hora passou assim, com a música suave do bar, o barman a mover-se discretamente, a mulher a escrever e Pedro a tentar trabalhar. Quando ela fechou o caderno e olhou à sua volta com aquela expressão de quem volta à superfície depois de estar em mergulho, os olhos de ambos cruzaram-se sem que nenhum desviasse imediatamente. Houve um segundo — um único segundo de atenção mútua directa — e depois ela inclinou levemente a cabeça com um meio-sorriso que não era um convite mas que tampouco era um recuo.
— Está a escrever um romance? — perguntou ele, ciente de que era uma pergunta de bar mas decidindo que a alternativa era não perguntar nada, e que isso também era uma escolha.
Ela sorriu de forma mais completa desta vez. Disse-lhe que era arquitecta e que usava o caderno para pensar, que havia problemas de projecto que só se resolviam à mão, e que os bares de hotel eram os melhores lugares para isso porque havia ruído suficiente para não ser silêncio mas não havia ninguém que conhecesse.
O Bar
Moveram-se para uma mesa. A conversa foi para sítios que as conversas de bar raramente vão: a linguagem dos espaços, a forma como as cidades mudam de personalidade entre a tarde e a noite, uma discussão breve mas intensa sobre se o romantismo era uma construção cultural ou uma constante humana. Ela tinha opiniões firmes e sabia ceder quando o argumento era melhor que o seu. Pedro descobriu que estava completamente presente na conversa de uma forma que não acontecia há meses.
Não trocaram nomes imediatamente. Havia algo libertador nessa ausência de identificação — como se o encontro pertencesse a si próprio e não precisasse de ser integrado no contexto de onde cada um vinha.
O Quarto
A proposta foi feita de forma simples e directa, por nenhum dos dois em particular — surgiu da conversa como uma consequência lógica e não como uma ruptura. O quarto era o dela, o quarto andar com vista para a Avenida da Liberdade iluminada.
Nessa noite aprendeu o nome dela — Ana — e ela aprendeu o seu. Disseram-se adeus ao amanhecer com a cidade a ganhar cor lá fora, e Pedro percebeu, já no elevador de regresso ao seu andar, que há encontros que são completos exactamente porque não têm promessa de continuidade. Existem inteiramente no seu próprio tempo.
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