Contos Eróticos

Conto Erótico: O Casal que se Redescobriu

P Paula Camargo
10 Apr 2026 3 min leitura 44 visualizacoes
Conto Erótico: O Casal que se Redescobriu

Doze anos de casamento e havia alturas em que se olhavam como se vissem móveis — presentes, familiares, invisíveis. Não havia conflito declarado entre Teresa e Nuno; havia algo mais silencioso e, em certa medida, mais triste: a ausência de surpresa. Sabiam como o outro se movia pela casa, o que escolhia ao almoço, como reagia a situações de stress. O conhecimento profundo, que no início parecia prémio, tinha virado espécie de anestesia.

A ideia partiu de Teresa, numa tarde de Outubro em que os filhos estavam em casa dos avós e a casa estava rara e completamente silenciosa. — E se fizéssemos uma noite como se não nos conhecêssemos? — disse ela, sem grande elaboração. Nuno olhou para ela com a expressão de quem não percebe bem mas está disposto a tentar. — Diz mais.

A Regra do Jogo

A regra era simples: encontravam-se num bar no Cais do Sodré às dez da noite. Ele chegava primeiro, ela entrava depois. Não se conheciam. O resto inventava-se.

Nuno chegou ao bar cedo e pediu um whisky. Quando Teresa entrou — com um vestido que ele não lhe conhecia e o cabelo diferente — ele quase não a reconheceu. Não era só o visual: era o modo como ela se movia, como olhou pelo espaço antes de se aproximar da bancada, como havia nela uma ligeira tensão que normalmente não existia porque em casa já não havia nada a negociar.

— Posso sentar-me aqui? — perguntou ela.

— Por favor — disse ele, e a voz saiu-lhe diferente também.

Fizeram a conversa de dois estranhos — nomes diferentes, histórias inventadas, um passado que não existia. E foi extraordinário como o jogo desbloqueou algo real: havia genuína curiosidade no modo como ele a ouvia, havia um prazer activo em surpreendê-lo com detalhes que ela ia inventando. A distância artificial entre eles criava atrito, e o atrito criava calor.

O Regresso a Casa como se Fosse a Primeira Vez

No táxi de volta, mantiveram o jogo. Mãos que se encontram na penumbra do banco traseiro, um beijo que começou tímido e que não ficou assim. Chegaram a casa que conheciam de cor, mas entraram nela com os olhos de outra pessoa — e isso foi suficiente para mudar tudo.

Naquela noite, Teresa e Nuno foram amantes antes de voltarem a ser marido e mulher. E o que descobriram — com algum espanto e muito alívio — é que o desejo não desaparecera. Estava apenas à espera de ser convidado a entrar.

No dia seguinte, ela deixou um bilhete na cozinha: Podemos fazer isto outra vez? Ele respondeu com a caneta no próprio bilhete: No próximo fim de semana. Já estou ansioso.

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