Conto Erótico: O Primeiro Encontro Real
Filipe e Cátia tinham-se encontrado numa plataforma de encontros e falado durante três semanas antes de marcarem o primeiro encontro real. Era tempo suficiente para saberem o nome do cão um do outro, os livros favoritos, as opiniões sobre o governo, o passado afectivo resumido sem drama excessivo, e uma série de conversas de madrugada que tinham aquela qualidade particular da escrita nocturna — mais honesta, menos filtrada, feita do material que o dia não tem espaço para conter. Filipe guardara algumas das mensagens dela não por razão prática mas porque havia frases que queria poder reler.
O encontro foi marcado para um sábado ao fim da tarde, num café do Intendente que nenhum dos dois conhecia — território neutro de forma deliberada, o tipo de escolha que se faz quando se quer uma boa razão para sair, se necessário. Filipe chegou cinco minutos antes. Pediu um galão e sentou-se de frente para a porta.
A Entrada
Cátia entrou com cinco minutos de atraso e com o ar de quem vinha depressa mas não queria que se notasse. Era como as fotografias — não exactamente como as fotografias, porque as fotografias nunca captam a forma como uma pessoa ocupa o espaço, o ritmo com que se move, a textura da presença. Era, em todo o caso, ela — com o casaco azul que ele conhecia de uma fotografia e os cabelos ligeiramente bagunçados pelo vento de fora.
O primeiro momento é sempre estranhamente formal, independentemente de quanto se conhece alguém antes de o conhecer. Há um protocolo de beijo na face, de sentar, de pedir, que ocupa os primeiros minutos com a sua banalidade útil enquanto os dois sistemas nervosos se calibram para a presença física de quem até então existia apenas em texto e imagem.
A conversa começou sobre o café — sobre o Intendente, sobre como o bairro tinha mudado — e Filipe sentiu que o Cátia-real e o Cátia-das-mensagens estavam a integrar-se com uma naturalidade que ele não esperava. Havia quem dissesse que a presença física sempre desiludes — que o real nunca corresponde ao que se constrói antes de ver. Com ela era o oposto: o real adicionava dimensões que o texto não transmitia.
A Caminhada
Depois do café, andaram pelo bairro sem um destino específico. Era um daqueles fins de tarde de setembro em que Lisboa tem ainda calor suficiente para ficar na rua sem custo, e havia uma luz dourada sobre os edifícios que tornava tudo mais fotogénico do que merecia. Cátia apontou coisas — um azulejo particular numa fachada, uma janela com geranios de uma cor específica — com a atenção de alguém que vê verdadeiramente em vez de apenas passar pelo espaço.
Pararam numa esplanada. Pediram vinho. A conversa foi ficando mais próxima das conversas de madrugada que tinham tido online — menos superficial, mais dentro. Falaram sobre o nervosismo do primeiro encontro, e havia humor ali, uma disposição partilhada para rir da própria ansiedade em vez de a disfarçar. Isso, Filipe pensou, era talvez o melhor sinal.
O Primeiro Beijo Real
Aconteceu na rua, a caminho do metro, sem grande cerimónia. Cátia tinha dito algo que o fez rir, e no momento em que ele parou de rir havia ali uma proximidade que tornava o passo seguinte óbvio. O beijo foi breve, como os primeiros beijos costumam ser, e depois houve um silêncio de dois segundos em que os dois se olharam com o sorriso particular de quem acabou de confirmar algo que esperava que fosse verdade.
Disseram adeus no metro com a promessa de se encontrar no fim de semana seguinte. No comboio de regresso, Filipe olhou pela janela para Lisboa a escurecer e pensou que havia algo de irreversível — no bom sentido — no facto de o real ter correspondido ao que imaginou.
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