Contos Eróticos

Conto Erótico: O Segredo em Público

P Paula Camargo
19 Mar 2026 3 min leitura 41 visualizacoes
Conto Erótico: O Segredo em Público

O vernissage estava cheio — artistas, coleccionadores, os habituais rostos da cultura lisboeta a circularem com copos de vinho branco e expressões de quem pensa mais do que diz. Helena conhecia metade da sala por nome e a outra metade por trabalho, e estava ali com o sorriso profissional que usava nestas ocasiões — crítica de arte, competente, reservada na vida pessoal.

Tomás chegou vinte minutos depois dela, por coincidência que ambos sabiam não ser coincidência. Cumprimentou-a com os dois beijinhos habituais e ficou ao lado dela a olhar para uma tela que nenhum dos dois estava a ver. Tinham três semanas de caso clandestino — nenhum dos dois com situação que tornasse aquilo impossível, apenas a preferência mútua de manter aquilo privado enquanto percebiam o que era.

A Sala que Não Sabia

— A tela da direita é melhor — disse ele, em voz baixa, como se comentasse arte.

— Concordo — disse ela, da mesma forma. — Tens ideia de quanto tempo temos de ficar?

— Tempo suficiente para ser visto. — Uma pausa. — E depois?

— Depois vemos.

Havia algo de extraordinariamente erótico naquilo — estarem juntos no meio de toda aquela gente que não sabia, a manterem a compostura pública enquanto sob ela havia uma tensão que só os dois sentiam. O segredo partilhado como forma de intimidade, a conversa de código que parecia arte mas era outra coisa, o toque casual e permitido do cotovelo que encostava ao dele enquanto olhavam para a mesma tela.

Uma colega de Helena abordou-os para conversa sobre uma exposição no mês seguinte. Helena respondeu com a desenvoltura de quem está completamente presente — o que estava, de certa forma. Tomás acrescentou uma ou duas observações pertinentes. Ninguém suspeitou de nada.

O Táxi e o Apartamento

Saíram separados — ela primeiro, ele cinco minutos depois — e encontraram-se no táxi que ela já tinha chamado. Quando a porta fechou e a cidade começou a passar pela janela, a compostura pública deu lugar ao que tinha estado reprimido durante uma hora de vernissage.

— Tens ideia de como foi difícil? — disse ela.

— A ideia era exactamente essa — respondeu ele, com um sorriso que ela achava injustamente eficaz.

No apartamento dele, a tensão acumulada tinha a qualidade de algo destilado — mais concentrada, mais intensa por ter sido contida. O que podia ter sido simples tornou-se excepcional precisamente por causa de tudo o que tinha precedido.

Helena ficou até à manhã e saiu com o mesmo ar composto com que chegara ao vernissage na noite anterior. Só ela e Tomás sabiam a diferença.

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