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Entrevista: Sexóloga Portuguesa em Exercício

P Paula Camargo
19 Apr 2026 11 min leitura 25 visualizacoes
Entrevista: Sexóloga Portuguesa em Exercício

Os nomes foram alterados e detalhes biográficos compostos para proteger a privacidade. Esta entrevista é fictícia, baseada em arquétipos profissionais reais.

A sexologia clínica ainda é uma especialidade pouco compreendida em Portugal — confundida com terapia de casal, com consulta médica de urologia, ou, na imaginação popular, com algo próximo dos conteúdos que se encontram em revistas de quiosque. A Dra. Sofia M., 45 anos, sexóloga clínica certificada pela Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica (SPSC), trabalha em Lisboa há quinze anos e recebe entre vinte e vinte e cinco pacientes por semana no seu consultório na Avenida de Roma. É uma mulher directa, com uma capacidade notável para desmistificar sem simplificar. Conversámos durante quase três horas.

Formação e Percurso

Dra. Sofia, como é que se torna sexóloga clínica em Portugal? Qual é o percurso de formação?

Em Portugal não existe ainda uma licenciatura em sexologia — o percurso é sempre pós-graduado. Fiz a minha licenciatura base em Psicologia na Universidade de Lisboa, depois um mestrado em Psicologia Clínica e Saúde, e posteriormente a especialização em Sexologia Clínica através de um programa de formação avançada reconhecido pela SPSC. Isso inclui formação teórica, supervisão de casos, e um período de análise pessoal — como acontece noutras formações terapêuticas. A certificação da SPSC é o benchmark de qualidade em Portugal. Há muita gente a chamar-se "sexólogo" sem ter esta formação — é algo que a associação tem tentado regular com mais eficácia nos últimos anos.

O que a atraiu para esta especialidade?

A sexualidade é uma das áreas da vida humana com maior impacto no bem-estar subjectivo e que recebe, comparativamente, muito pouca atenção clínica séria. Durante o mestrado fiz uma tese sobre disfunção sexual feminina e fiquei fascinada com a quantidade de sofrimento evitável que existe por falta de informação, por vergonha de falar com profissionais, ou por profissionais que não têm formação adequada para responder. A medicina ainda trata a sexualidade como um extra — algo que se aborda se sobrar tempo na consulta. Eu quis fazer exactamente isso: dar-lhe o espaço que merece.

Houve resistência familiar ou social quando escolheu esta especialidade?

Alguma. A minha mãe perguntou "mas isso é mesmo uma profissão?" quando lhe disse. Os meus colegas de licenciatura achavam piada — os comentários do tipo "então sabes tudo sobre isso, haha". Com o tempo, o respeito veio. Hoje as pessoas pedem-me conselhos em jantares — o que é um problema diferente, porque não faço consultas em ambientes sociais — mas pelo menos deixaram de achar que é uma especialidade menor. O facto de trabalhar num consultório clínico convencional, receber através do seguro de saúde, e ter um percurso académico sólido ajudou a estabelecer credibilidade.

Os Casos em Consulta

Quais são os problemas mais comuns que recebe em consulta?

Os mais frequentes são disfunção eréctil e ejaculação precoce nos homens, e desejo sexual hipoactivo e disfunção do orgasmo nas mulheres. Depois há perturbações da dor — vaginismo e dispareunia — que são ainda muito subdiagnosticadas porque as mulheres aprenderam a "aguentar" desconforto sexual sem o reportar. Recebo também muitos casais com divergência de desejo — situações em que os parceiros têm libidos muito diferentes e não sabem como gerir isso sem que se transforme num problema de rejeição e ressentimento. E, cada vez mais, recebo jovens adultos — entre 22 e 35 anos — com ansiedade de performance que está a aumentar correlacionada com a exposição ao pornô desde a adolescência.

Fale-nos mais sobre essa ansiedade de performance em jovens. Como se manifesta?

Manifesta-se de formas variadas mas com um padrão comum: a pessoa tem uma referência interna do que "deve" ser uma relação sexual baseada em conteúdo pornográfico — duração, desempenho, dimensão, reacções do parceiro — e quando a realidade não corresponde a esse standard fabricado, a ansiedade instala-se. Em homens jovens, isso pode produzir disfunção eréctil situacional — a função é normal quando o homem está sozinho, mas falha na presença do parceiro porque o cérebro está em modo avaliativo em vez de estar presente. Em mulheres, manifesta-se por vezes como uma preocupação constante com o próprio desempenho — "estou a reagir da forma certa?", "demoro demasiado?" — que impede a presença total e bloqueia o orgasmo. O tratamento envolve dessensibilização dessa avaliação constante e re-educação sobre como a sexualidade real funciona.

E os casais com divergência de desejo — como se trabalha isso?

É talvez a questão mais complexa que recebo, porque raramente é só sobre desejo. A divergência de libido num casal é frequentemente o sintoma de outras dinâmicas — distribuição desigual de tarefas domésticas, ressentimentos não resolvidos, uma pessoa que se sente invisível ou não apreciada, ansiedade não tratada, ou simplesmente dois temperamentos sexuais genuinamente diferentes que nunca foram discutidos abertamente. O trabalho começa por separar o problema de desejo propriamente dito dos problemas de relação que o alimentam. Às vezes, quando esses outros problemas são resolvidos, o desejo volta. Outras vezes, há uma diferença genuína de temperamento que o casal tem de aprender a gerir — o que pode incluir soluções não convencionais, se ambos estiverem de acordo.

Mitos e Equívocos

Quais são os mitos sobre sexualidade que mais a irritam profissionalmente?

Vários, mas destaco três. Primeiro: que o desejo sexual deve ser espontâneo. Para muitas pessoas, especialmente mulheres e pessoas com mais de quarenta anos, o desejo é responsivo — aparece em resposta a um estímulo, não antes dele. Não é um problema, é uma variante normal. Quando os casais percebem isso, deixam de interpretar a falta de desejo espontâneo como falta de atracção e começam a criar condições para o desejo responsivo se manifestar. Segundo: que a dimensão do pénis determina o prazer feminino. A neurociência do prazer feminino é muito mais complexa e menos dependente da penetração do que a cultura popular sugere. Terceiro: que o sexo "bom" dura muito tempo. A maioria dos estudos sobre duração preferida do acto sexual aponta para médias bastante modestas — os quinze, vinte minutos de penetração que as pessoas consideram o padrão não têm suporte real nas preferências reportadas.

E mitos específicos sobre a sexualidade feminina?

O maior é que o orgasmo vaginal — obtido exclusivamente por penetração — deve ser a norma. O clítoris tem uma extensão interna muito maior do que se ensinava há vinte anos, e a estimulação que leva ao orgasmo na maioria das mulheres é predominantemente clitoridiana, seja directa ou indirecta. Estima-se que entre 70 e 80 por cento das mulheres não atinge orgasmo só pela penetração. Isso não é uma disfunção — é anatomia normal. Quando as mulheres chegam à minha consulta "preocupadas" porque não têm orgasmo durante a penetração, o trabalho começa exactamente aqui: recentrar a narrativa do que é normal. O outro mito é que a menopausa marca o fim da vida sexual activa. Como já disse, não é assim — há adaptações necessárias, mas o prazer sexual não tem data de validade.

Como reage quando os pacientes chegam com informações incorrectas obtidas online?

Com paciência e sem julgamento. A internet democratizou o acesso à informação, o que é muito positivo em geral. O problema é que a qualidade varia enormemente — há conteúdo excelente de sexólogos e investigadores credenciados, e há conteúdo péssimo de pessoas com zero formação que escrevem com a mesma confiança. A minha abordagem é perguntar de onde vem a informação, validar o que está correcto, e corrigir o que está errado com explicação da fonte. Não é produtivo confrontar — é mais eficaz construir em cima do que já existe e ir ajustando.

A Sexualidade Portuguesa

Como caracteriza a sexualidade portuguesa em 2025 comparada com, por exemplo, há vinte anos?

Mais informada, mais diversificada em expressão, com menos vergonha declarada — mas ainda com muita vergonha real que se esconde atrás de uma modernidade de superfície. Há uma geração jovem que fala abertamente sobre sexualidade de formas que seriam impensáveis há vinte anos — linguagem mais precisa, mais abertura a diferentes orientações e formas de relacionamento. Mas nas consultas, o que vejo é que muitas dessas pessoas ainda chegam carregadas de vergonha profunda quando o problema é pessoal e não abstracto. Falar de sexo em geral ficou mais fácil. Falar do seu próprio problema sexual a um profissional ainda é muito difícil para muita gente.

Portugal está bem servido de sexólogos clínicos? Há acesso suficiente a estes serviços?

Não. O número de sexólogos certificados pela SPSC é insuficiente para a população, especialmente fora de Lisboa e Porto. No interior do país, uma pessoa com uma disfunção sexual pode ter de viajar horas para ter acesso a um especialista. A saúde sexual ainda não é prioridade no Serviço Nacional de Saúde — há esforços, mas são fragmentados e insuficientes. A pandemia abriu a porta à teleconsulta, o que mudou algo: hoje consigo ter pacientes de Bragança, do Algarve, dos Açores. Mas há problemas que precisam de consulta presencial, e há pessoas que não têm literacia digital suficiente para usar estas ferramentas. É um cenário muito desigual.

Recomendações Práticas

O que recomenda a casais que sentem que a vida sexual está a estagnar mas não chegaram ao ponto de procurar ajuda profissional?

Primeiro: conversem. Parece óbvio, mas a maioria dos casais nunca teve uma conversa honesta sobre o que gostam e o que gostariam de explorar. Não enquanto já estão no momento — isso é muito difícil — mas num contexto neutro, sem pressão. Segundo: reduzam a expectativa de que tem de ser perfeito ou espontâneo. Marcar tempo para a intimidade não é menos romântico do que a espontaneidade — é mais honesto com a realidade de vidas ocupadas. Terceiro: diversifiquem sem pressão de resultado. A intimidade não tem de culminar sempre em penetração e orgasmo — há uma riqueza enorme de contacto físico e prazer partilhado que muitos casais ignoram. Quarto: se estas medidas não resultarem em alguns meses, não hesitem em procurar ajuda profissional. Não é um sinal de fraqueza — é um sinal de que valorizam a relação o suficiente para investir nela.

E a pessoas que nunca tiveram uma relação satisfatória e pensam que "não são para isso"?

Nunca tive um paciente, em quinze anos, que fosse realmente "não para isso". O que encontrei foram pessoas com traumas não resolvidos que interferem com a intimidade, pessoas com ansiedade de abandono ou de rejeição que criam distância como protecção, pessoas que cresceram em contextos onde o prazer era ensinado como perigoso ou vergonhoso. Tudo isso é tratável, com tempo e com o apoio certo. A sexualidade é uma capacidade humana, não um talento que uns têm e outros não. As barreiras são reais, mas não são permanentes.

Reflexão Final

A Dra. Sofia M. terminou a entrevista com uma observação que resume bem o que a motiva: "As pessoas chegam ao meu consultório como se estivessem a confessar algo. Saem, idealmente, como se tivessem encontrado um aliado. Essa diferença é o meu trabalho."

Uma sexualidade saudável começa com informação de qualidade. Se estás a explorar encontros e queres fazê-lo de forma informada e segura, o blog do EncontrosX — acompanhantes em Coimbra tem recursos sobre saúde sexual, consentimento e bem-estar que complementam o que profissionais como a Dra. Sofia ensinam em consulta. E se procuras companhia em Coimbra, a secção de acompanhantes em Coimbra reúne perfis verificados e profissionais.

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