Ginásio de Madrugada: Suor e Desejo
O ginásio 24h na Avenida de Roma estava sempre vazio às quatro da manhã. Era exactamente por isso que Patrícia ia àquela hora — insónia crónica transformada em rotina de exercício. Corria na passadeira com auriculares, sozinha no espaço iluminado por néons, e o mundo parecia pertencer-lhe.
Até ele aparecer. Sempre às quatro e meia, como um relógio. Entrava, acenou-lhe com a cabeça na primeira vez, sorriu na segunda, e na terceira semana já trocavam bons-dias que pareciam fora de contexto àquela hora.
Chamava-se Sérgio e era bombeiro. Trabalhava por turnos e o único horário que lhe restava para treinar era a madrugada. Treinava com a intensidade de quem precisa de estar fisicamente preparado para salvar vidas, e Patrícia descobriu que observá-lo era o melhor complemento ao seu treino de cardio.
Os braços dele quando faziam bíceps. As costas quando puxava peso. A forma como a t-shirt ficava molhada de suor e se colava ao corpo, revelando uma anatomia que os manuais de ginásio usariam como modelo. Patrícia corria mais depressa quando ele treinava ao lado — o coração acelerado por razões que iam além do exercício.
Numa madrugada de quarta-feira, ela estava a fazer abdominais no colchão quando sentiu uma presença. Sérgio estava de pé ao lado, estendendo-lhe uma garrafa de água.
— Estás a forçar demasiado o pescoço — disse ele. — Posso mostrar-te a posição correcta?
Patrícia acenou. Ele ajoelhou-se ao lado dela e pôs-lhe a mão na nuca, ajustando a posição. O toque era profissional, correcto, mas Patrícia sentiu um arrepio que nada tinha a ver com técnica de exercício.
— Assim — disse ele. — Sentes a diferença?
Sentia. Sentia a mão quente na nuca. Sentia o cheiro de suor limpo e desodorizante. Sentia que estava deitada com um homem bonito ajoelhado ao lado dela às quatro da manhã num ginásio vazio.
A partir dessa noite, treinavam juntos. Ele corrigia-lhe a postura, ela cronometrava-lhe as séries. Cada toque de correcção — a mão na anca para ajustar o agachamento, os dedos no cotovelo para alinhar o bíceps — durava um segundo a mais do que o necessário. Ambos notavam. Nenhum dizia nada.
O ponto de ruptura chegou numa noite em que Sérgio a ajudava com o supino. Estava de pé atrás da barra, a fazer segurança, e quando Patrícia pousou o peso e se sentou no banco, o rosto dela ficou à altura do peito dele. Olhou para cima. Ele olhou para baixo. O néon zumbia.
— Sérgio — disse ela, a voz firme apesar do coração disparado —, se me quiseres beijar, agora era uma boa altura.
Ele não precisou de ouvir duas vezes. Inclinou-se e beijou-a — um beijo que sabia a esforço e a desejo acumulado, salgado de suor, urgente. Patrícia puxou-o para si pela t-shirt molhada e ele sentou-se no banco ao lado dela, as mãos a encontrarem a pele debaixo do top de desporto.
Amaram-se no ginásio vazio, entre halteres e colchões de exercício, com a banda sonora dos néons e a iluminação crua que não deixava esconder nada. Não havia penumbra romântica nem velas — havia luz branca, espelhos por todo o lado, e os corpos atléticos de ambos reflectidos de todos os ângulos.
Sérgio tinha a resistência física de quem fazia de corpo o seu instrumento de trabalho. Patrícia tinha a flexibilidade de meses de treino. Juntos, descobriram posições que nenhum exercício catalogado nos manuais de fitness previa, e os gemidos dela ecoaram nas paredes do ginásio como numa catedral vazia.
Depois, deitados no colchão de exercício, de mãos dadas e a olhar para o tecto fluorescente, Patrícia riu.
— Amanhã vai ser difícil fazer abdominais neste colchão sem pensar nisto.
— Amanhã — disse ele — vou estar aqui às quatro. E todos os dias depois desse.
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