ISTs: Sintomas, Prevenção e Quando Fazer o Teste
As infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) continuam a ser um problema de saúde pública significativo em Portugal e em toda a Europa. Os dados do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) mostram um aumento consistente de casos de sífilis, gonorreia e clamídia nos últimos anos. Conhecer os sintomas, os métodos de prevenção e saber quando fazer o teste é um acto de responsabilidade — para consigo e para com os seus parceiros.
As ISTs Mais Comuns em Portugal
Clamídia (Chlamydia trachomatis)
A IST bacteriana mais frequente em Portugal e na Europa, especialmente entre os 15 e os 30 anos. Particularidade crítica: até 70% das mulheres e 50% dos homens infectados não apresentam qualquer sintoma.
Quando presentes, os sintomas incluem corrimento uretral ou vaginal anormal, ardor ao urinar, dor pélvica ou testicular, e sangramento entre períodos menstruais. Se não tratada, a clamídia pode causar doença inflamatória pélvica (DIP) e infertilidade. O tratamento é simples — um único comprimido de azitromicina ou um ciclo curto de doxiciclina.
Gonorreia (Neisseria gonorrhoeae)
A segunda IST bacteriana mais comum, com taxas de resistência aos antibióticos a aumentar preocupantemente a nível mundial. Os sintomas incluem corrimento espesso amarelado ou esverdeado (uretral ou vaginal/cervical), ardor intenso ao urinar, e — em infecções rectais — dor e corrimento anal. Infecções faríngeas (garganta) são frequentemente assintomáticas. O tratamento actual em Portugal é ceftriaxona injectável, geralmente em dose única numa unidade de saúde.
Sífilis (Treponema pallidum)
Registou um aumento alarmante em Portugal, especialmente entre homens que têm sexo com homens (HSH). A sífilis evolui em fases:
- Primária: úlcera indolor (cancro duro) no local de inoculação — pénis, vagina, ânus, boca. Desaparece espontaneamente em 3–6 semanas, dando falsa sensação de cura.
- Secundária: erupção cutânea generalizada (incluindo palmas das mãos e plantas dos pés), febrícula, mal-estar geral, lesões mucosas.
- Latente: sem sintomas mas infecção activa; pode durar anos.
- Terciária: danos graves em coração, cérebro e outros órgãos — evitável com diagnóstico precoce.
O tratamento é penicilina G benzatínica — simples e altamente eficaz nas fases iniciais.
HPV (Vírus do Papiloma Humano)
O HPV é a IST viral mais comum — estima-se que a maioria das pessoas sexualmente activas seja infectada em algum momento da vida. A maioria das infecções resolve-se espontaneamente em 1–2 anos sem tratamento. Alguns serotipos de baixo risco causam verrugas genitais (condilomas); serotipos de alto risco estão associados a cancros do colo do útero, ânus, pénis, boca e garganta.
A vacina contra o HPV (Gardasil 9) está incluída no Programa Nacional de Vacinação português e é altamente eficaz quando administrada antes da exposição ao vírus. Em Portugal, é disponibilizada gratuitamente a raparigas aos 10 anos e, desde 2020, também a rapazes.
VIH (Vírus da Imunodeficiência Humana)
Portugal registou historicamente uma das maiores taxas de VIH da Europa Ocidental, mas os progressos nos últimos 20 anos são notáveis. A infecção por VIH não tem cura mas é tratável — as pessoas em tratamento eficaz com carga viral indetectável não transmitem o vírus ao parceiro sexual (princípio U=U: Undetectable = Untransmittable).
Sintomas na infecção aguda (2–4 semanas após exposição): febre, fadiga, gânglios aumentados, dores musculares — facilmente confundidos com gripe. Muitas pessoas entram depois numa fase assintomática longa. O diagnóstico precoce é essencial para iniciar tratamento e proteger a saúde a longo prazo.
Prevenção: A Estratégia Combinada
Preservativo
O uso consistente e correcto do preservativo é a pedra angular da prevenção de ISTs. Reduz significativamente o risco de transmissão de clamídia, gonorreia, sífilis e VIH. Para ISTs transmitidas por contacto cutâneo (HPV, herpes), a protecção é parcial — o preservativo não cobre todas as zonas potencialmente expostas.
PrEP (Profilaxia Pré-Exposição ao VIH)
A PrEP é um medicamento (tenofovir/emtricitabina) tomado por pessoas VIH-negativas para prevenir a infecção. Com adesão correcta, a PrEP é 99% eficaz na prevenção do VIH. Em Portugal, a PrEP está disponível gratuitamente no SNS desde 2018, prescrita em centros de referência de VIH. Não protege contra outras ISTs — deve ser combinada com preservativo e testes regulares.
PEP (Profilaxia Pós-Exposição)
Se houve exposição ao VIH (sexo desprotegido de risco, falha do preservativo), a PEP pode prevenir a infecção se iniciada nas 72 horas seguintes à exposição. Quanto mais cedo iniciada, mais eficaz. Disponível nos serviços de urgência hospitalares.
Vacinação
Além da vacina HPV, a vacina contra a hepatite B (incluída no PNV português) previne esta IST. A vacina contra o mpox (varíola dos macacos) é recomendada para grupos de maior risco.
Doxiciclina Pós-Exposição (Doxy-PEP)
Recentemente, estudos demonstraram que a toma de doxiciclina 200 mg nas 72 horas após sexo desprotegido reduz substancialmente o risco de sífilis, gonorreia e clamídia. Esta estratégia está a ser integrada nas guidelines de saúde sexual em vários países, incluindo, progressivamente, em Portugal. Consulte um profissional de saúde para mais informação.
Quando e Onde Fazer o Teste
Recomenda-se fazer o teste regularmente se:
- Tem múltiplos parceiros sexuais ou parceiros com múltiplos parceiros
- Teve sexo desprotegido com parceiro(s) de estatuto desconhecido
- Apresenta qualquer sintoma suspeito
- Inicia uma nova relação antes de ambos pararem de usar preservativo
- Está grávida ou a planear gravidez
Como frequência geral para pessoas sexualmente activas com múltiplos parceiros: pelo menos a cada 3–6 meses. Para pessoas em PrEP, o protocolo inclui testes a cada 3 meses.
Onde Fazer em Portugal
- Centros de Saúde / SNS — solicite ao médico de família ou à consulta de saúde sexual e reprodutiva
- GAT (Grupo de Activistas em Tratamentos) — Lisboa, realiza testes rápidos de VIH e sífilis, gratuitos
- Checkpoint Lisboa e Checkpoint Porto — centros de saúde sexual comunitária para HSH e população geral
- Farmácias — testes rápidos de VIH disponíveis com prescrição médica ou sem prescrição (auto-teste OraQuick)
- Laboratórios privados — painel completo de ISTs mediante pedido médico ou auto-solicitação
Perguntas Frequentes
Se não tenho sintomas, estou seguro?
Não. Muitas ISTs — especialmente clamídia, gonorreia faríngea e VIH em fase latente — são frequentemente assintomáticas. A ausência de sintomas não equivale a ausência de infecção. O teste regular é a única forma fiável de saber.
Quanto tempo depois da exposição posso fazer o teste?
Depende da IST. Para o VIH, os testes de 4ª geração (antigénio/anticorpo) são fiáveis a partir das 4 semanas pós-exposição. Para clamídia e gonorreia, 1–2 semanas. Para sífilis, 3–6 semanas. Se houve exposição recente, um profissional de saúde aconselhará o timing adequado.
Se eu ou o parceiro formos diagnosticados com uma IST, o quê fazer?
Inicie tratamento imediatamente, notifique parceiros recentes (os serviços de saúde podem ajudar neste processo de forma confidencial), abstenha-se de actividade sexual até à conclusão do tratamento e teste de cura (quando aplicável), e reavalie as práticas de prevenção.
A PrEP é para toda a gente?
A PrEP é indicada para pessoas VIH-negativas com risco substancial de infecção — múltiplos parceiros, sexo anal receptivo desprotegido, uso de drogas injectáveis, etc. A decisão deve ser feita com um profissional de saúde que avaliará o risco individual.
É possível ter uma IST e transmiti-la mesmo usando preservativo?
Sim, para ISTs transmitidas por contacto cutâneo, como herpes e HPV. O preservativo protege a área que cobre, mas não as zonas perigenitais expostas. A vacina HPV e o rastreio regular são complementos essenciais ao preservativo.