Máscaras de Carnaval: Conto de Mistério e Sedução
O convite chegou sem remetente: um envelope preto com letras douradas que dizia apenas "Baile de Máscaras. Sábado, 23h. Palácio da Ajuda. Código de entrada: Volúpia". Teresa virou o envelope nas mãos, intrigada. Trabalhava como curadora no Museu Nacional de Arte Antiga e conhecia toda a gente no mundo cultural lisboeta, mas ninguém sabia de baile nenhum.
A curiosidade ganhou. No sábado, vestiu um vestido de veludo bordeaux que lhe deixava os ombros nus, pôs uma máscara veneziana dourada que comprara numa viagem a Itália, e apresentou-se no portão do palácio. Um homem de fato negro e máscara branca pediu-lhe a palavra — "Volúpia" — e abriu-lhe a porta.
O interior era um sonho. Velas por todo o lado, música clássica misturada com electrónica suave, pessoas mascaradas que dançavam e conversavam em sussurros. Todos elegantes, todos anónimos, todos libertados pela protecção das máscaras.
Teresa aceitou uma taça de champanhe e circulou pelas salas, fascinada. Foi na sala dos espelhos que o viu — ou melhor, que ele a viu. Estava encostado a uma coluna, com uma máscara negra que lhe cobria metade do rosto, e olhava para ela com uma intensidade que ela sentiu fisicamente, como um toque à distância.
Aproximou-se sem pressa, como quem contorna uma escultura para a ver de todos os ângulos. Quando ficou à frente dela, estendeu a mão sem uma palavra. Teresa aceitou-a, e ele conduziu-a para o centro da sala onde outros casais dançavam.
Dançaram em silêncio. A mão dele nas costas dela, firme e quente através do veludo. O corpo dele guiava o dela com uma segurança que dispensava música — podiam ter dançado no silêncio e o ritmo seria o mesmo. Teresa sentia o calor dele através da roupa, o perfume masculino que lhe chegava em ondas, e uma excitação crescente alimentada pelo mistério.
— Não me vais dizer o teu nome? — sussurrou ela.
— Os nomes são para o dia seguinte — respondeu ele, e a voz era grave, sedutora, com um sotaque que ela não conseguia situar.
Dançaram até que as pernas de Teresa protestaram. Ele conduziu-a então por um corredor que se afastava da festa, até uma saleta privada com um divã de veludo verde e uma janela que emoldurava a lua cheia sobre o Tejo.
— Se tirares a máscara — disse ele — eu tiro a minha.
— E se eu não quiser tirar? — provocou Teresa. — E se o mistério for a melhor parte?
Ele aproximou-se, tão perto que ela sentiu a respiração dele nos lábios, filtrada pela máscara. — Então ficamos com o mistério.
Beijaram-se através das máscaras primeiro — lábios contra lábios entre bordos de seda e metal. Depois ele afastou a máscara dela apenas o suficiente para a beijar a sério, e Teresa sentiu aquela vertigem do desconhecido que é simultaneamente medo e excitação.
As mãos dele encontraram o fecho do vestido de veludo e desceram-no com uma lentidão calculada. O veludo caiu como uma cortina a revelar o palco. Por baixo, Teresa usava apenas renda preta — pouca — e a pele arrepiada pelo frio e pelo desejo.
Ele ajoelhou-se diante dela como um devoto diante de um altar. A boca percorreu-lhe a barriga, as ancas, o interior das coxas, e Teresa agarrou-se aos cortinados da janela enquanto ondas de prazer lhe percorriam o corpo. A máscara dele roçava-lhe a pele como uma carícia extra, fria e suave, e o contraste com a boca quente era enloquecedor.
Amaram-se no divã de veludo verde, com a lua como testemunha e o som distante da festa como banda sonora. As máscaras ficaram — um pacto silencioso que tornava cada toque mais intenso, cada beijo mais eléctrico, cada gemido mais profundo.
Quando Teresa acordou, estava sozinha. No divã, ao lado da máscara dele — que ele deixara como recordação — havia um bilhete: "Volúpia. Até ao próximo baile."
Teresa sorriu, guardou a máscara negra na mala, e saiu do palácio com o amanhecer. Nunca soube quem era ele. Talvez fosse isso que tornava a memória tão intoxicante.
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