O Reencontro Depois de Anos: História de Desejo
Dez anos. Dez anos sem o ver, sem ouvir a voz dele, sem saber onde estava ou com quem. E agora ali estava ele, na fila do supermercado em Cascais, com um cesto cheio de coisas de solteiro — cerveja artesanal, massa fresca, um frasco de pesto — e o mesmo sorriso torto que lhe tinha destruído o coração aos vinte e dois anos.
— Joana? — disse ele, os olhos a abrirem-se com genuína surpresa.
— Francisco — respondeu ela, tentando parecer casual enquanto o coração lhe batia na garganta.
Tinham namorado durante dois anos na universidade — dois anos de paixão devoradora, ciúmes, reconciliações épicas e uma separação que deixou cicatrizes em ambos. Francisco partira para Londres, Joana ficara em Lisboa, e o tempo fizera o que o tempo faz: suavizar as arestas, embaçar as memórias, transformar a dor em nostalgia.
Mas agora, ao vê-lo ali — mais magro, com algumas rugas à volta dos olhos, o cabelo ligeiramente grisalho nas têmporas — Joana percebeu que o tempo não tinha feito uma coisa: apagar o desejo. Estava lá, intacto, como uma brasa que nunca se apagou completamente.
— Café? — sugeriu ele, e era tão parecido com a primeira vez que a convidara que Joana quase se riu.
Sentaram-se na esplanada de um café na marginal, com o mar como pano de fundo. Puseram a conversa em dia como quem percorre dez anos em dez minutos: ele voltara de Londres há seis meses, divorciado, sem filhos. Ela nunca casara, tinha uma empresa de design, vivia sozinha numa casa com vista para o mar na Parede.
— E és feliz? — perguntou ele, com a mesma franqueza directa que sempre a desarmara.
— Sou. Na maior parte do tempo. — Pausa. — E tu?
— Estou a ser. Agora mesmo, neste momento, estou a ser muito feliz.
A tarde transformou-se em noite quase sem darem conta. Do café passaram para um restaurante, do restaurante para um bar, e do bar para a marginal, a caminhar lado a lado como faziam quando tinham vinte anos e o futuro parecia infinito.
— Lembras-te da última vez? — perguntou Joana, parando junto ao paredão.
Ele parou também. — Lembro-me de tudo. Do vestido azul que tinhas. Do disco que estava a tocar. De que choveu quando saí do teu apartamento.
— Eu chorei a noite inteira — confessou ela.
— Eu chorei no avião para Londres.
Ficaram em silêncio, a ouvir o mar. Depois, como se fosse a coisa mais natural do mundo, as mãos encontraram-se. Os dedos entrelaçaram-se com a mesma facilidade de há dez anos, a mesma geometria perfeita, e Joana sentiu as lágrimas subirem aos olhos — não de tristeza, mas de algo que não tinha nome.
O beijo foi inevitável. Aconteceu ali, no paredão de Cascais, com o som das ondas a envolvê-los. A boca dele era a mesma e ao mesmo tempo diferente — mais paciente, mais sábia, com o sabor da distância e da saudade. Joana agarrou-lhe o casaco e puxou-o para si como se tentasse compensar dez anos de ausência num único gesto.
— A minha casa fica aqui perto — disse ela.
A casa de Joana era exactamente como ela: bonita, organizada, com toques de cor inesperados. Francisco não olhou para a decoração. Olhou para ela, que estava de pé na sala com a luz da lua a entrar pela janela, e disse:
— Se fizermos isto, não vou conseguir ir embora outra vez.
— Então não vás — respondeu ela.
Despiram-se com uma lentidão que era simultaneamente tortura e deleite. Cada peça de roupa removida revelava mudanças — o corpo dele mais definido, o dela mais maduro — e cada mudança era uma descoberta que os excitava mais. Já não eram os miúdos de vinte anos que faziam amor com urgência e desajeitamento. Eram adultos que sabiam o que queriam e como chegar lá.
Francisco deitou-a na cama e percorreu-lhe o corpo com as mãos e a boca, redescobrindo-a como quem relê um livro favorito e encontra frases que não lembrava. Joana estremecia sob o toque dele, o corpo a responder como se tivesse estado em hibernação durante uma década e finalmente despertasse.
Quando se uniram, ambos soltaram o mesmo gemido — um som de reconhecimento, de regresso a casa. O ritmo que encontraram era novo e velho ao mesmo tempo, e a intensidade cresceu até que Joana sentiu o prazer explodir como uma onda que quebra na praia, violenta e depois serena.
De manhã, Francisco não se foi embora. Nunca mais se foi embora.
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