O Encontro no Porto: Uma História Sensual
A chuva caía sobre o Porto com a teimosia que só o inverno nortenho sabe ter. Sofia refugiou-se debaixo da arcada junto à Livraria Lello, sacudindo as gotas do cabelo castanho, quando reparou no homem ao seu lado que fazia exactamente o mesmo gesto. Riram-se ao mesmo tempo, cúmplices involuntários da mesma tempestade.
— Parece que o Porto decidiu tomar banho connosco — disse ele, com um sorriso que formava covinhas nas bochechas. Chamava-se Diogo, era de Braga, e estava na cidade por trabalho. Tinha olhos verdes como o Douro em dias de sol e uma voz grave que fazia vibrar qualquer coisa dentro dela.
— Conheço um sítio onde podemos esperar que passe — disse Sofia, apontando para uma cave de vinho do Porto do outro lado da rua. Correram juntos sob a chuva, chegando encharcados e a rir como crianças.
A cave era pequena e acolhedora, com paredes de pedra e luz de velas. Sentaram-se num canto reservado, lado a lado num banco de madeira escura, e pediram uma garrafa de tawny de vinte anos. O vinho era aveludado e quente, e à medida que o bebiam, a conversa fluía com a mesma suavidade.
Sofia contou-lhe que era arquitecta, que redesenhava casas antigas do centro do Porto, que encontrava beleza nas ruínas. Diogo confessou que escrevia — não romances, mas guiões para cinema, histórias de pessoas que se cruzavam por acaso e mudavam a vida uma da outra. O paralelo não lhes escapou.
— Estás a dizer que isto é um filme? — provocou ela, inclinando-se ligeiramente na direcção dele.
— Se fosse, este seria o momento em que a câmara faz um close-up — respondeu ele, e a distância entre eles diminuiu até quase desaparecer.
O primeiro toque foi acidental — o joelho dela contra a coxa dele debaixo da mesa. O segundo foi intencional — a mão dele pousada na dela, o polegar a desenhar círculos lentos na pele do pulso. Sofia sentiu o coração acelerar e o calor do vinho misturar-se com outro calor, mais profundo, mais primitivo.
Saíram da cave abraçados, a chuva já reduzida a uma névoa fina. O hotel dele ficava na Ribeira, num edifício reabilitado com vista para o rio. Subiram no elevador antigo, tão pequeno que os obrigava a estar colados um ao outro. Diogo encostou a testa à dela e ficaram assim, a respirar o mesmo ar, até à porta do quarto.
Lá dentro, a cidade brilhava através das janelas molhadas. Diogo acendeu o aquecedor e trouxe toalhas do banho. Começou a secar-lhe o cabelo com uma delicadeza que a comoveu. Depois desceu a toalha pelos ombros, pelo pescoço, e quando os lábios dele substituíram o tecido, Sofia fechou os olhos e rendeu-se.
Despiram-se devagar, camada por camada, como se desfizessem as defesas que tinham construído ao longo dos anos. Cada peça de roupa molhada que caía no chão era uma barreira a menos. A pele dele era quente contra a dela, ainda fresca da chuva, e o contraste fez ambos estremecer.
Diogo deitou-a na cama e percorreu-lhe o corpo com beijos que eram como pontuação — pausas nos sítios certos, acelerações onde a narrativa pedia. Sofia enterrou os dedos no cabelo dele, guiando-o, murmurando palavras que não formavam frases completas mas que ele parecia entender perfeitamente.
Amaram-se ao som da chuva que recomeçara a cair, os corpos a encontrar um ritmo que era só deles, uma melodia improvisada mas perfeita. Sofia agarrou-se aos ombros dele como se fossem uma âncora, e ele sussurrou-lhe o nome ao ouvido como se fosse uma oração.
Depois, deitados no escuro, partilharam a última gota de tawny que tinham trazido da cave. Sofia traçava padrões no peito dele com a ponta do dedo, e Diogo acariciava-lhe o cabelo que já secara em ondas desordenadas.
— Se fosses escrever esta cena num guião — perguntou ela —, como terminava?
— Com um pequeno-almoço na Ribeira — respondeu ele. — E talvez uma segunda noite.
Houve o pequeno-almoço. E a segunda noite. E muitas mais depois dessa.
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