Saúde & Vida Sexual

Ovulação Pico Desejo Sexual: O Que a Ciência Diz

P Paula Camargo
13 May 2026 9 min leitura 24 visualizacoes
Ovulação Pico Desejo Sexual: O Que a Ciência Diz

Este artigo é informativo e não substitui consulta médica/psicológica. Em caso de dúvidas, contacte o seu médico, psicólogo certificado pela Ordem ou ligue para SNS 24 (808 24 24 24).

Ovulação Pico Desejo Sexual: O Que a Ciência Diz

A relação entre a ovulação e o pico de desejo sexual feminino é um dos fenómenos mais estudados na biologia reprodutiva e na sexologia clínica. A evidência científica acumulada nas últimas décadas confirma que o desejo sexual feminino não é estático ao longo do ciclo menstrual: existe um aumento mensurável da libido, da receptividade sexual e de determinados comportamentos nas mulheres no período peri-ovulatório — os dias imediatamente antes e durante a ovulação.

Compreender este mecanismo não é apenas uma curiosidade biológica: tem implicações práticas para a saúde sexual, a planeamento familiar, a avaliação de queixas de baixo desejo sexual e a compreensão do impacto da contracepção hormonal na líbido. Para mulheres que pretendem aprofundar o conhecimento sobre a sua saúde sexual, os serviços de acompanhantes mulheres com formação em bem-estar feminino podem complementar o apoio clínico formal.

O Ciclo Menstrual e as Fases Hormonais

O ciclo menstrual típico divide-se em quatro fases com perfis hormonais distintos:

  • Fase menstrual (dias 1-5): Queda de estrogénio e progesterona; início da menstruação. O desejo sexual tende a ser mais baixo, embora com grande variabilidade individual.
  • Fase folicular (dias 1-13): Aumento gradual do estrogénio produzido pelos folículos em maturação. A energia, o humor e o desejo sexual tendem a aumentar progressivamente.
  • Fase ovulatória (aproximadamente dia 14 num ciclo de 28 dias): Pico de estrogénio seguido de pico de hormona luteinizante (LH), que desencadeia a ovulação. É nesta janela que se observa o pico de desejo sexual.
  • Fase lútea (dias 15-28): Aumento da progesterona. O desejo sexual tende a diminuir progressivamente, com maior variabilidade individual na segunda metade desta fase.

Mecanismos Hormonais do Pico de Desejo na Ovulação

O aumento do desejo sexual no período peri-ovulatório resulta da acção combinada de várias hormonas:

Estrogénio

O pico de estrogénio que precede imediatamente a ovulação tem efeitos directos no cérebro, aumentando a sensibilidade dos receptores de dopamina e de ocitocina nas regiões límbicas associadas ao prazer, à motivação e ao comportamento sexual. O estrogénio também aumenta a vasodilatação genital e a lubrificação vaginal, facilitando a resposta física à excitação.

Testosterona

Os níveis de testosterona nas mulheres atingem o seu pico imediatamente antes da ovulação. Embora as mulheres produzam quantidades muito menores de testosterona do que os homens, esta hormona tem papel central na líbido feminina — actuando directamente nos centros cerebrais do desejo sexual. O pico peri-ovulatório de testosterona é considerado um dos principais responsáveis pelo aumento do desejo nesta fase.

Hormona Luteinizante (LH)

O pico de LH que desencadeia a ovulação parece ter efeitos directos no comportamento sexual, para além de simplesmente sinalizar a libertação do óvulo. Estudos em humanos sugerem que o pico de LH correlaciona-se com aumentos no desejo sexual e na receptividade.

O Que a Investigação Científica Confirma

Múltiplos estudos controlados documentam alterações comportamentais e fisiológicas no período peri-ovulatório em mulheres com ciclo natural:

  • Aumento da frequência de iniciativa sexual e de pensamentos sexuais espontâneos nos dias antes da ovulação.
  • Maior receptividade ao contacto físico e ao flirt.
  • Alterações na voz, na postura e na escolha de vestuário associadas ao período fértil — com possível função de sinalização reprodutiva.
  • Maior selectividade na escolha de parceiro sexual durante o período fértil — com preferência por determinadas características físicas associadas a saúde e fertilidade.
  • Aumento da sensibilidade olfactiva e preferência por determinados odores corporais no período peri-ovulatório.

É importante notar que estes são padrões estatísticos populacionais — a variabilidade individual é enorme. Nem todas as mulheres experienciam o pico de desejo da mesma forma ou com a mesma intensidade.

Impacto da Contracepção Hormonal na Líbido

A contracepção hormonal combinada (pílula, adesivo, anel vaginal) actua precisamente suprimindo a ovulação e os picos hormonais que a acompanham — incluindo os picos de estrogénio e testosterona do período peri-ovulatório. As consequências para a líbido são variáveis:

  • Algumas mulheres reportam diminuição do desejo sexual com contraceptivos hormonais combinados, possivelmente relacionada com a supressão do pico de testosterona e com o aumento da globulina transportadora de hormonas sexuais (SHBG), que reduz a testosterona livre disponível.
  • Outras mulheres não reportam qualquer alteração do desejo — ou reportam melhoria, pela redução de ansiedade relacionada com gravidez indesejada ou pela melhoria de condições como a endometriose.
  • Os contraceptivos de apenas progestagénio (implante, DIU hormonal) têm perfis de impacto diferentes, com menor supressão ovulatória em alguns casos.

A relação entre contracepção hormonal e líbido deve ser discutida abertamente com o ginecologista ou médico de família. A APF — Associação para o Planeamento da Família — dispõe de recursos e profissionais especializados nesta área.

Estratégias Práticas

  • O acompanhamento do ciclo menstrual através de aplicações ou registos diários permite identificar o padrão pessoal de variação do desejo ao longo do mês.
  • A comunicação com o parceiro sobre as variações cíclicas do desejo facilita a adaptação mútua e reduz mal-entendidos.
  • Queixas persistentes de baixo desejo sexual ao longo de todo o ciclo — não apenas na fase lútea — merecem avaliação clínica especializada.
  • A revisão da contracepção hormonal com o ginecologista pode ser indicada se existir suspeita de impacto negativo na líbido.

Para mulheres que procuram apoio de bem-estar sexual e emocional, os serviços de acompanhantes femininas especializadas com formação em saúde feminina podem oferecer presença e acompanhamento adaptados.

Quando Consultar um Profissional

  • Ausência persistente de variação do desejo ao longo do ciclo — pode indicar disfunção ovulatória ou outros desequilíbrios hormonais.
  • Baixo desejo sexual global que cause sofrimento ou afecte a qualidade de vida — avaliação hormonal e psicológica indicada.
  • Suspeita de impacto da contracepção hormonal na líbido — discutir alternativas com o ginecologista.
  • Irregularidades menstruais associadas a alterações do desejo sexual — podem indicar síndrome dos ovários poliquísticos (SOP) ou outros desequilíbrios hormonais.

Recursos em Portugal

A APF — Associação para o Planeamento da Família — disponibiliza consultas de saúde sexual e reprodutiva, incluindo avaliação de queixas relacionadas com líbido e contracepção. A DGS tem orientações sobre saúde sexual e reprodutiva. O ginecologista ou médico de família é o primeiro ponto de contacto para questões relacionadas com o ciclo menstrual e a saúde hormonal. O SNS 24 (808 24 24 24) orienta para os serviços adequados.

Perguntas Frequentes (FAQ)

Todas as mulheres sentem o pico de desejo na ovulação?

Não. Embora o padrão seja documentado estatisticamente, a variabilidade individual é enorme. Factores como o stress, o sono, a saúde geral, a relação afectiva e a contracepção hormonal modulam a resposta individual ao ciclo hormonal.

Como saber quando estou a ovular?

O pico de LH pode ser detectado com testes de ovulação urinários. A monitorização basal da temperatura corporal e a observação do muco cervical são métodos de identificação da janela fértil. Aplicações de rastreio do ciclo menstrual podem ajudar na identificação do padrão individual.

O desejo sexual aumentado na ovulação é sempre orientado para a reprodução?

Não. O pico de desejo na ovulação é um fenómeno biológico que ocorre independentemente de qualquer intenção ou desejo de engravidar. A sexualidade humana é muito mais complexa do que a função reprodutiva.

A pílula elimina completamente o pico de desejo?

A contracepção hormonal combinada suprime a ovulação e os picos hormonais associados, incluindo o pico peri-ovulatório de testosterona. O impacto na líbido é variável — algumas mulheres não notam diferença; outras reportam redução do desejo. A discussão com o ginecologista pode ajudar a encontrar a contracepção mais adequada a cada caso.

O baixo desejo sexual tem sempre causa hormonal?

Não. O desejo sexual é multifactorial: envolve componentes hormonais, psicológicos, relacionais e socioculturais. O baixo desejo persistente merece avaliação clínica que contemple todos estes factores.

O que é a disfunção do desejo sexual hipoactivo (DDSH)?

É um diagnóstico clínico que se refere à diminuição persistente de pensamentos e desejos sexuais que causa sofrimento à mulher. A avaliação e o tratamento devem ser feitos por profissional de saúde especializado em medicina sexual ou sexologia.

Referências

  1. PubMed / National Library of Medicine (2023). Pesquisa: ovulation sexual desire hormones estrogen testosterone women — revisões sistemáticas. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
  2. Associação para o Planeamento da Família — APF (2024). Saúde Sexual e Reprodutiva Feminina — Recursos e Consultas. apf.pt
  3. World Health Organization — WHO (2024). Sexual health — Reproductive rights and menstrual health. who.int
  4. Mayo Clinic (2024). Low sex drive in women — Causes, symptoms and treatment. Mayo Foundation for Medical Education and Research. mayoclinic.org
  5. Direção-Geral da Saúde — DGS (2024). Saúde Sexual e Reprodutiva — Orientações para a Prática Clínica. Ministério da Saúde, Portugal. dgs.pt
Partilhar:

Artigos Relacionados

Hormonas e Vida Sexual: Impacto na Libido

Hormonas e Vida Sexual: Impacto na Libido

As hormonas são os mensageiros químicos que regulam o desejo sexual, a função erétil, a lubrificação vaginal e muito mais. Saiba como o equilíbrio hormonal afecta a sua vida sexual.

Balanite: Inflamação do Pénis e Causas

Balanite: Inflamação do Pénis e Causas

A balanite é a inflamação da glande do pénis. É comum, frequentemente relacionada com higiene inadequada, infecções fúngicas ou bacterianas, e geralmente tratável.