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Viagem de Comboio: Um Encontro Inesperado

P Paula Camargo
15 Dec 2025 4 min leitura 62 visualizacoes
Viagem de Comboio: Um Encontro Inesperado

O Alfa Pendular das 18h30 para o Porto estava quase cheio. Ana arrastou a mala pelo corredor até encontrar o seu lugar — janela, carruagem 3 — e deixou-se cair no assento com um suspiro de alívio. A reunião em Lisboa tinha corrido mal e tudo o que queria era fechar os olhos durante as três horas de viagem.

O lugar ao lado foi ocupado minutos antes da partida por um homem que cheirava a café e a couro. Ana abriu os olhos e viu um perfil anguloso, óculos de massa preta, e um livro de Saramago — O Evangelho Segundo Jesus Cristo — que ele manuseava com familiaridade.

O comboio arrancou e a paisagem começou a deslizar pela janela. Ana tentou dormir, mas a proximidade dele perturbava-a. O braço dele no apoio de braço partilhado irradiava um calor que ela sentia através da manga do blazer.

— Má viagem? — perguntou ele, sem levantar os olhos do livro.

— Transparece assim tanto?

Ele sorriu, fechou o livro e virou-se para ela. Tinha olhos castanhos escuros, quase pretos, e uma barba de dois dias que lhe dava um ar de poeta desalinhado. — Chamam-me Ricardo. E não, não transparece — é que reconheço o suspiro de quem teve um dia impossível.

A conversa fluiu como a paisagem lá fora — primeiro campos verdes, depois a linha do rio, depois o escuro dos túneis onde os seus reflexos apareciam no vidro, lado a lado, como um casal numa fotografia. Ana descobriu que ele era tradutor literário, que vivia entre Lisboa e o Porto sem pertencer verdadeiramente a nenhuma das cidades, que traduzia palavras de amor em cinco línguas mas tinha dificuldade em dizê-las numa só.

Algures depois de Coimbra, o comboio entrou num túnel longo e a carruagem mergulhou na escuridão. Ana sentiu os dedos dele roçarem os seus no apoio de braço — levemente, como uma pergunta escrita em braille. Ela respondeu entrelaçando os dedos nos dele, e quando a luz voltou, nenhum dos dois desfez o gesto.

— Há uma coisa que quero fazer e que provavelmente não devia — sussurrou ele.

— Provavelmente não devias — respondeu ela. — Faz na mesma.

Ele inclinou-se e beijou-a. Foi um beijo discreto, quase casto — lábios contra lábios, suave, breve — mas que desencadeou uma reacção em cadeia. O segundo beijo foi mais profundo. No terceiro, a língua dele encontrou a dela e Ana sentiu uma descarga eléctrica percorrer-lhe o corpo inteiro.

Separaram-se quando o revisor passou, ambos corados, fingindo uma normalidade que os olhos brilhantes desmentiam. Debaixo do casaco de Ana, estendido sobre os colos como uma manta, as mãos continuavam a sua conversa secreta. Os dedos dele percorriam-lhe a coxa por cima do tecido da saia, subindo centímetro a centímetro, e ela mordia o lábio para conter o gemido que lhe subia pela garganta.

— A minha paragem é a próxima — disse ele quando as luzes do Porto começaram a aparecer. — Mas não quero que esta viagem acabe.

— Então não deixes acabar — respondeu Ana, e deu-lhe o número de telefone escrito no marcador de páginas do livro de Saramago.

Saíram na Campanhã de mãos dadas, como se fosse a coisa mais natural do mundo. O apartamento dele ficava a dez minutos a pé, numa rua estreita perto da Torre dos Clérigos. Subiram quatro andares sem elevador, beijando-se em cada patamar.

O apartamento estava cheio de livros — nas estantes, nas mesas, no chão. Fizeram amor entre volumes de poesia e dicionários, no sofá coberto de manuscritos, e depois na cama que era o único espaço livre. Ricardo fazia amor como traduzia — com atenção obsessiva ao detalhe, procurando a palavra exacta, o toque preciso, o ritmo perfeito.

Ana descobriu que certas coisas não precisam de tradução. O gemido é universal. O prazer não tem gramática. E o orgasmo é a mesma palavra em todas as línguas.

De manhã, ele preparou café e torradas e sentaram-se na varanda minúscula, olhando para os telhados do Porto. Ana tinha o comboio de volta às 11h, mas o livro de Saramago ficou na mesa de cabeceira dele — um pretexto perfeito para voltar.

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