O Domingo em Sintra: Conto Romântico
Aviso: este conto contém conteúdo adulto sensual e explícito. Destinado a leitores com 18 anos ou mais. Todos os personagens são adultos fictícios que agem com pleno consentimento. Qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência.
I. A Fuga
Nuno acordou às sete e meia de um domingo de Outubro com a mesma convicção que acordara já há três semanas: havia algo entre ele e Lara que não estava partido mas estava, de alguma forma, adormecido. Não era infelicidade — era um sono. A diferença era importante. Lembrava-se vagamente de ter chegado a explorar os perfis de acompanhantes em Lisboa numa pesquisa sem rumo a uma quinta-feira à meia-noite, não por insatisfação mas pela mesma razão que se lê o cardápio de um restaurante a que não se vai — a necessidade difusa de perceber o que existe lá fora.
Ficaram juntos cinco anos. Viviam em Belém, ele a trabalhar em jornalismo, ela em arquitectura de interiores, os dois com as agendas cheias e os fins-de-semana partilhados em logística — supermercado, lavandaria, o jantarque faziam normalmente com os mesmos quatro amigos aos sábados. Era uma vida boa por todos os critérios que ele conhecia. Faltava-lhe qualquer coisa que não sabia nomear.
Olhou para Lara a dormir ao seu lado. Tinha trinta e três anos e dormia sempre de lado, com a mão esquerda debaixo da face num gesto que parecia muito antigo, muito dela. Havia uma versão deste momento que era mundano — acordar a ver a namorada a dormir, pensar no dia, levantar-se — e havia a versão que escolheu: ficar ali durante alguns minutos a olhar para ela com a atenção que não lhe dispensava enquanto estava acordada.
Quando ela abriu os olhos e o encontrou a olhá-la, sorriu sem perguntar porquê.
— Foge comigo — disse ele.
— Para onde?
— Sintra. Agora. Sem plano.
Lara olhou para o tecto durante dois segundos. — Deixa-me lavar os dentes.
II. Os Palácios
Chegaram a Sintra às nove e meia, com os turistas ainda a acordar nos seus hotéis e a vila a ter, por aquela hora, aquela qualidade de cenário antes de a peça começar. O nevoeiro envolvia as torres do Palácio da Pena em cima da Serra como faz o nevoeiro de Outubro em Sintra — com uma teatralidade tão perfeita que parecia artificial.
Subiram a pé pela Rua Conssiglieri Pedroso, a ladeira que faz os turistas parar a meio e que eles subiram sem parar porque havia entre eles uma disputa antiga, sem palavras, sobre quem chegava menos ofegante. Lara chegou cinco passos à frente. Nuno fingiu que a paragem que fez a olhar para uma loja de cortiça era intencional.
— Andou muito tempo sem me ouvir — disse ela, voltando para baixo os cinco passos para ficar ao lado dele.
— O que é que disse?
— Que gosto de ti quando te fazes desentendido.
Ele pegou-lhe na mão. Era um gesto tão habitual que levava anos a ser feito de forma automática, mas esta manhã havia nele uma consciência nova — a consciência de que este era o peso específico da mão dela, esta temperatura, esta forma como os dedos dela encaixavam nos espaços entre os seus.
Visitaram o Palácio Nacional de Sintra porque Lara nunca entrara — um facto que Nuno recebeu com o espanto adequado dado que ela era arquitecta e Sintra estava a quarenta minutos de Lisboa. A guia era uma mulher de cinquenta anos com o entusiasmo de quem ainda encontra beleza no que vê todos os dias, e explicou os azulejos manuelinos com uma emoção que os fez olhar para as paredes de forma diferente.
— Olha o movimento desta linha — disse Lara, em voz baixa, apontando para um friso. — Está a contar uma história da direita para a esquerda. É contraintuitivo para quem lê português, mas faz sentido com a origem.
Nuno olhou para onde ela apontava e não viu exactamente o que ela via, mas viu o gesto dela — a mão elevada, o dedo traçando o ar à frente do azulejo, os olhos iluminados pela coisa que a tornava arquitecta e não outra coisa — e reconheceu que aquilo que o amor resiste é exactamente isto: não os grandes gestos mas os momentos em que a outra pessoa é completamente ela própria.
III. O Jardim
O jardim era o achado do dia. Não estava nos guias — ou estava, mas escondido numa nota de rodapé que requeria atenção. Lara encontrara-o numa pesquisa de arquitectura paisagística: o jardim particular de uma quinta do século XVIII, actualmente propriedade de uma fundação cultural que o abria ao público apenas aos domingos de manhã, de Outubro a Fevereiro.
Tinham chegado no domingo certo, no mês certo, e eram os únicos visitantes.
O jardim tinha a forma de um anfiteatro natural, escavado na encosta com terrços de buxo tosquiado e uma fonte central que não tinha água mas tinha a forma da memória da água. Havia plátanos enormes que tinham começado a soltar as folhas, e estas cobriam os caminhos de pedra num tapete castanho-dourado que custava a pisar porque era belo demais para ser destruído.
Nuno e Lara andaram em silêncio durante alguns minutos, separados por um terço do jardim, cada um no seu próprio passeio. Era o tipo de silêncio que só existe entre pessoas que podem estar no mesmo espaço sem precisar de se preencher mutuamente — um silêncio que era abundância e não ausência.
Ela encontrou um banco de pedra coberto de musgo na parte mais alta do jardim, voltado para a encosta oposta onde a Serra de Sintra se perdia no nevoeiro que começava a dissipar-se. Sentou-se e tirou o cachecol para o sol que entrava por entre as copas dos plátanos. Nuno chegou alguns minutos depois e sentou-se ao lado dela.
Ficaram assim durante o que devem ter sido vinte minutos. Não falaram. Lara recostou-se contra o ombro dele eventualmente, e ele pousou a cabeça no topo da dela, e o jardim continuou a existir à sua volta com a indiferença compassiva dos lugares que viram muitas pessoas passar.
— Que é que se passa connosco? — disse ela, por fim.
— Nada de mau — respondeu ele. — Só adormecemos um bocado.
— Como é que acordamos?
Ele inclinou-se e beijou-a a plena luz do jardim. O beijo era familiar — tinha cinco anos de memória — mas havia nele uma presença que os últimos meses tinham esbatido. Lara virou-se para ele e devolveu o beijo com a mesma seriedade, as mãos no seu rosto.
IV. O Hotel
Tinham reservado uma noite num hotel de charme perto do Centro Histórico — uma ideia de Nuno que Lara descobrira na mala do carro, com a mesma sensação de presente inesperado que ele queria que ela tivesse.
O quarto era pequeno mas tinha uma janela com vista para o Palácio Nacional, uma cama de ferro forjado com roupa branca que cheirava a lavanda, e uma banheira antiga de pés no meio do quarto, voltada para a janela, o que era uma extravagância arquitectónica que Lara apreciou com o profissionalismo de quem sabe que é uma loucura que funciona.
Abriram o vinho — um Colares tinto que o dono sugerira com uma solenidade que implicava que qualquer outra escolha seria errada — e encheram a banheira enquanto bebiam. Havia qualquer coisa neste ritual — o vinho, a água quente, o silêncio confortável — que pertencia a uma versão deles anterior à rotina.
A banheira era larga o suficiente para dois, com algum esforço. O esforço era parte da graça. Lara sentou-se de costas para ele, a cabeça recostada no ombro, e ficaram assim durante um longo tempo, a ver o vapor e as últimas luzes do dia a entrar pela janela.
— Lembras-te de quando fomos para o Porto no primeiro aniversário? — disse ela.
— Lembro-me que o hotel era horrível e achámos piada.
— Era horrível. Mas foi bom.
— Era bom porque estávamos os dois ali. O hotel era irrelevante.
Ela virou-se dentro da banheira e ficou de joelhos diante dele, com a água a brilhar nos ombros. Os olhos dela tinham aquela cor que só tinham com a luz de fim do dia, mais dourada do que castanha, mais abertas do que fechadas. Nuno pousou as mãos nos seus quadris e ela inclinou-se para ele.
Fizeram amor na banheira com a inabilidade inevitável dos espaços demasiado pequenos e a gargalhada inevitável que veio com ela, e depois na cama, com a janela aberta para o Palácio iluminado e os últimos turistas a tirar fotografias lá em baixo sem saber nada do que acontecia nas janelas escuras acima deles.
Era diferente de todas as vezes anteriores — não melhor necessariamente, mas mais consciente. Nuno tinha atenção para detalhes que a rotina apagara: a forma como ela arqueava o pescoço quando sentia prazer, o som específico que fazia quando estava completamente presente, a forma como os seus olhos encontravam os dele nos momentos mais intensos sem desviar o olhar. Lara tinha a mesma atenção de volta. Eram dois estranhos que se conheciam completamente, o que era a melhor das combinações.
V. A Manhã de Segunda
O pequeno-almoço foi na sala comum do hotel, com outros dois casais que tinham aquela expressão silenciosamente satisfeita de quem dormiu bem e não apenas dormiu. O pão era fresco, a manteiga alentejana, a vista para o pátio coberto de folhas de Outubro.
A caminho de Lisboa, na A37, Lara disse: — Temos de fazer isto mais vezes.
— Os quartos com banheira no meio? — disse Nuno.
— Isso. E o resto.
Ele sabia exactamente o que ela queria dizer com o resto. Acordar com intenção, conduzir sem plano, encontrar jardins que não estão nos guias. A decisão de estar presente como acto deliberado em vez de estado passivo.
Sintra ficou para trás, depois a Serra, depois Lisboa abriu-se no horizonte com a sua confusão de luz e pombal e brilho. Nuno pôs a mão na coxa de Lara e ela pousou a mão sobre a dele, e nenhum dos dois falou durante o resto da viagem porque não era preciso.
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