Contos Eróticos

Conto Erótico Lésbico: Encontro em Cascais

P Paula Camargo
24 May 2026 4 min leitura 60 visualizacoes
Conto Erótico Lésbico: Encontro em Cascais

A esplanada do café ficava mesmo em frente à marina, e naquele fim de tarde de setembro ainda havia calor suficiente para ficar lá fora sem desconforto. Ana estava sozinha com um livro que não conseguia ler — os olhos percorriam as linhas mas os pensamentos ficavam algures entre as páginas, perdidos. Tinha vindo a Cascais por impulso, para fugir de um fim de semana em Lisboa que começara a pesar. A vista para os barcos e a luz dourada sobre a água faziam o trabalho que o livro não conseguia.

Foi então que Marta se sentou na mesa ao lado, pediu um galão e abriu o mesmo livro. A mesma edição, com a mesma dobra na capa. Ana olhou. Marta notou que Ana olhava. Houve um segundo de embaraço seguido de um sorriso partilhado que resolveu tudo.

A Conversa

Começaram a falar sobre o livro — um romance de Agustina Bessa-Luís que nenhuma das duas estava a conseguir terminar, e descobriram rapidamente que o problema era o mesmo: não era o livro, eram elas. Marta era arquitecta, vinha de Coimbra para uma visita a uma cliente e ficara um dia a mais por não ter razão urgente de regressar. Ana trabalhava em comunicação em Lisboa e tinha chegado a Cascais de comboio às três da tarde sem um plano definido.

A conversa foi mudando de direcção com a naturalidade das que não têm destino marcado. Falaram de Agustina, depois de arquitectura portuguesa, depois de como certas cidades têm horas do dia que pertencem apenas a quem está sozinho. A luz foi mudando, o café ficou frio, nenhuma das duas se levantou.

— Há um restaurante ali em cima que tem vista para o mar — disse Marta, sem deixar muito espaço entre o pensamento e as palavras. — Se quiseres jantar.

A Noite

O jantar durou três horas. Pediram peixe grelhado, vinho verde, uma sobremesa que partilharam do mesmo prato com uma familiaridade que surpreendeu as duas. Havia algo ali que não era apenas simpatia — era reconhecimento, como quando se encontra alguém que usa a mesma língua mas com um sotaque que se pensava ser único.

Quando saíram, a noite estava fresca e o passeio ao longo da costa vazio. Andaram lado a lado sem pressa, com os ombros a roçar de vez em quando, cada toque uma pergunta discreta. A primeira vez que Marta lhe tocou na mão foi para lhe mostrar um barco ancorado longe com as luzes acesas — mas a mão ficou entrelaçada com a de Ana por muito tempo depois de o barco ter desaparecido da conversa.

No quarto do hotel que Marta tinha no centro da vila, a luz era tímida e o silêncio cheio de atenção. As duas mulheres encontraram-se com a lentidão de quem tem tempo e quer usá-lo bem. Havia uma ternura ali que Ana não esperava — não a urgência que por vezes antecede os encontros rápidos, mas uma presença mútua, uma curiosidade gentil que tornava cada gesto uma descoberta.

A Manhã

Acordaram com o sol já alto e a cheirar a mar pela janela entreaberta. Marta tinha um voo de Faro nessa tarde; Ana apanharia o comboio das onze. Tomaram café em silêncio sem que o silêncio fosse desconfortável. Na estação, despediram-se com um abraço que durou mais do que os abraços de despedida costumam durar.

No comboio de regresso, Ana abriu o livro de Agustina. Desta vez, conseguiu ler.

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