A Carta Anónima: Mistério e Sedução
A primeira carta apareceu debaixo da porta do apartamento de Mafalda numa terça-feira de novembro. Envelope creme, sem remetente, papel grosso escrito à mão com tinta preta. Dizia apenas: "Vi-te hoje na padaria. O vestido verde que usavas fez-me imaginar como seria tirá-lo. Perdoa-me a ousadia."
Mafalda deveria ter ficado assustada. Em vez disso, sentiu um calor subir-lhe pelas bochechas e releu a carta três vezes. A caligrafia era elegante, quase antiquada, e havia algo na combinação de cortesia e audácia que a intrigou profundamente.
A segunda carta chegou uma semana depois: "Hoje cruzámo-nos na escada. Cheiras a jasmim. Enquanto subias, imaginei que te seguia, que te encostava à parede entre o segundo e o terceiro andar, que te beijava o pescoço enquanto a luz do patamar piscava."
Mafalda passou a descer as escadas mais devagar, atenta a cada vizinho, tentando adivinhar quem seria. O senhor do primeiro andar era idoso e simpático, mas dificilmente escreveria assim. O casal do segundo era discreto e saía pouco. O rapaz do quarto era tímido e mal a cumprimentava. No quinto vivia um professor universitário, divorciado, que ela via às vezes com pilhas de livros debaixo do braço.
As cartas continuaram, uma por semana, cada vez mais detalhadas. A terceira descrevia uma fantasia num cinema vazio — os dedos a entrelaçarem-se no escuro, a mão a subir pela coxa, os lábios a encontrarem o pescoço enquanto o filme continuava sem espectadores atentos. A quarta transportava-os para uma praia ao pôr-do-sol — corpos molhados de água salgada, beijos que sabiam a mar, areia que se colava à pele húmida.
Mafalda lia cada carta na cama, antes de adormecer, e as imagens que as palavras criavam acompanhavam-na para os sonhos. Nunca se sentira tão desejada, e o facto de não saber por quem tornava tudo mais intenso. O anónimo conhecia-a — os vestidos que usava, os horários, o perfume — mas ela não o conhecia a ele.
A quinta carta mudou tudo: "Não consigo mais escrever sem te conhecer. Se quiseres saber quem sou, abre a porta amanhã à noite às nove. Se não abrires, paro de escrever. Se abrires, vou fazer-te tudo o que descrevi nestas cartas."
Mafalda não dormiu nessa noite. Às nove da noite seguinte, estava de pé na sala, vestida com cuidado, o coração a bater tão alto que tinha a certeza de que se ouvia no corredor. Quando a campainha tocou, respirou fundo e abriu.
Era o professor do quinto. Tomás. Tinha um envelope na mão — a sexta carta, a última — e uma expressão que misturava vulnerabilidade e desejo.
— Sou eu — disse simplesmente.
Mafalda olhou para ele — realmente olhou — e viu o que nunca tinha reparado: os olhos inteligentes, as mãos de escritor, a boca que ela agora sabia capaz de construir fantasias com palavras. Abriu mais a porta.
— Entra.
Tomás entrou e entregou-lhe a última carta. Mafalda abriu-a e leu: "Se estás a ler isto, estou aí. E tudo o que quero é beijar-te até esqueceres que alguma vez fomos estranhos."
Levantou os olhos do papel e ele estava ali, à espera, respeitoso, deixando-a decidir. Mafalda pousou a carta na mesa e beijou-o. Não foi um beijo hesitante — foi o beijo de uma mulher que tinha passado cinco semanas a imaginar aquele momento e que não ia desperdiçar mais um segundo.
Tomás beijava exactamente como escrevia — com atenção a cada detalhe, com uma paixão contida que se ia revelando camada por camada. As mãos que escreviam aquelas frases percorreram-lhe o corpo com a mesma eloquência, dizendo com toques o que tinham dito com palavras.
Fizeram amor na sala primeiro, com a pressa de quem esperou demasiado. Depois na cama, devagar, recreando uma a uma as cenas das cartas. O cinema — no sofá, com o televisor ligado mas ignorado. A praia — no chuveiro, com a água a simular as ondas. Cada fantasia escrita ganhou corpo, e a realidade superou a imaginação.
De madrugada, Mafalda repousava no peito de Tomás quando ele disse:
— Tenho mais cartas. Muitas mais. Para uma vida inteira.
— Então não pares de escrever — disse ela. — Eu não paro de ler.
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