Conto Erótico: A Tentação do Hotel
O restaurante do hotel ficava no rés-do-chão, com janelas grandes para a rua, e tinha aquela qualidade de espaços que sabem que são usados principalmente por pessoas que estão algures que não é casa — uma certa atenção ao conforto temporário, ao luxo medido de quem está de passagem e merece ser tratado bem exactamente por isso. Isabel tinha chegado do Porto nessa tarde para uma série de reuniões no dia seguinte, e optara por jantar cedo, sozinha, com o portátil ao lado para fingir que estava a trabalhar enquanto na realidade estava simplesmente a ser outra versão de si própria — a versão que existe nas cidades que não são a sua.
Álvaro sentou-se na mesa ao lado sem olhar para ela, pediu ao menu com a familiaridade de quem fica habitualmente naquele hotel, e começou a ler documentos que pareciam importantes. Era evidente que era daqueles homens que fazem o que fazem com atenção total, sem a dualidade de quem está em simultâneo em vários sítios.
O Acidente
O copo de água virou sem grande drama — o cotovelo de Álvaro na bordeira da mesa, um movimento calculado mal, a água a espalhar-se pelo tampo na direcção das suas notas. Isabel estava mais perto e reagiu primeiro, com os guardanapos que tinha à mão. Ele agradeceu com uma genuinidade que estava longe da formalidade hoteleira, e o pequeno caos de secar documentos e rir da situação criou entre os dois a familiaridade breve mas real que os acidentes comuns têm o dom de construir.
Continuaram a falar depois do incidente resolvido. Isabel ficou a saber que ele era de Lisboa e estava no hotel por razões que eram, de certa forma, simétricas às suas — havia uma renovação no apartamento que o tornava temporariamente insuportável, e o hotel era uma solução de duas semanas que estava, surpreendentemente, a gostar. Havia nele uma forma de dizer as coisas que era precisa sem ser árida — como alguém que pensa antes de falar mas não usa esse tempo para se censurar, apenas para escolher bem.
A Noite de Lisboa
Saíram juntos do restaurante por acaso de horário. Ele perguntou-lhe se conhecia Lisboa de noite — não como turista mas como quem anda sem razão especial. Ela disse que preferia sempre a segunda opção. Andaram pela Baixa durante uma hora com a descontracção de quem não tem a quem justificar onde está.
Havia entre eles uma tensão que não era desconforto — era antecipação, a consciência partilhada de que havia algo a acontecer sem que nenhum dos dois precisasse de o nomear para o saber. Isabel aprendera ao longo dos anos que este tipo de certeza silenciosa era mais fiável do que as declarações explícitas: existia antes das palavras e sobrevivia-lhes.
Quando voltaram ao hotel, subiram juntos no elevador sem ter discutido se o fariam. O quarto era o dele — maior, com vista para a Avenida — e Lisboa lá fora estava na sua hora mais bonita, com as luzes a competir com o azul escuro do céu de outubro.
O Regresso ao Porto
Isabel apanhou o comboio das oito da manhã, com Lisboa ainda adormecida nas janelas do táxi. Álvaro ficara a dormir — tinha deixado um bilhete na mesinha com o número de telefone e apenas três palavras: volta a Lisboa.
No comboio, olhou para o Tejo a largear antes de Santarém e pensou que havia cidades que fazem coisas às pessoas. Lisboa era definitivamente uma delas.
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